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A inteligência das espécies. Ray Kurzweil defende que, em 2020, a tecnologia computacional vai se impor à humana

"A era das máquinas espirituais", de Ray Kurzweil (Aleph, 512 págs., R$ 69), acaba de ser lançado no Brasil, com alguns anos de atraso, é claro, em virtude de nossa velocidade periférica. Escrito em 1999, portanto, no limiar do século XXI, o volume pretende anunciar "a emergência `inexorável` de seres mais inteligentes que os humanos nas próximas décadas, e a necessidade de nos prepararmos para esse advento, de enorme importância sob todos os aspectos, do cosmológico ao subjetivo." O comentário é de Laymert Garcia dos Santos, professor titular do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp em artigo publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo, 23-09-2007.

Eis o artigo.

"Em 1990, numa entrevista premonitória, Heiner Müller observava: `O verdadeiro problema deste século da tecnologia é a desrealização da realidade: a fuga da realidade na imaginação. As coisas não são como estão. Tudo é cada vez mais em sentido figurado. É a tendência.` Na mesma oportunidade, o poeta surpreendeu seu interlocutor, e seus leitores, ao apontar que a estratégia de aceleração total econômica e tecnológica se fundava no princípio da seleção, e que o sujeito humano ia desaparecer no vetor da tecnologia.

As palavras de Müller voltam à mente com força total quando nos damos conta de que o desenvolvimento tecnocientífico e a competição desenfreada no capitalismo globalizado obrigam as corporações transnacionais, as organizações multilaterais e os governos do Primeiro e de outros Mundos a lidarem com a `tendência` nos próprios termos apontados pelo poeta. No entanto, caberia acrescentar que a busca do sentido figurado parece levá-los a tentar antecipar o futuro, não só para entenderem o que está acontecendo e preverem sua conduta, mas também para enquadrarem os acontecimentos em parâmetros administráveis, isto é, sob a perspectiva do controle (e do descontrole). Diante da opacidade do real, da indeterminação e da instabilidade generalizada, todos estão atrás da transparência de uma bola de cristal - ou da imagem que possa revelar a cifra do que vem por aí. Nesse sentido, disseminou-se a elaboração de cenários futuros, como os da Shell International, do National Intelligence Council e da Rand Corporation, dos Estados Unidos, ou o do Escritório Europeu de Patentes, entre outros. E desenvolveu-se uma verdadeira fissura pelas opiniões e análises dos escritores de ficção científica crescentemente instados a ler e a decifrar as tendências emergentes.

Muito a propósito, em seu interessantíssimo livro Tomorrow Now, Bruce Sterling comenta a situação da seguinte maneira: `A coisa mais estranha a respeito de minha relação com o capitalismo é quão próximo o mundo dos negócios ficou da ficção científica. À medida que os anos passaram e que minha carreira evoluiu, os negócios avançaram de modo cada vez mais rápido e agressivo em meu próprio território cultural. A ficção científica sempre foi um mote para o estranho e o improvável, mas a virada do século marcou a primeira vez em que comecei a receber das empresas sérias ofertas de emprego. O pessoal do business começou a me convidar para ocupar cargos executivos, para integrar conselhos consultivos e o board de diretores das corporações. De nada adiantou que eu lhes mostrasse que nunca em minha vida estivera numa folha de pagamento, que não tinha experiência como executivo, que não tinha interesse nenhum em corresponder às expectativas dos acionistas. Eles já sabiam de tudo isso. Na verdade, eles gostavam dessa parte. Era por isso que estavam atrás de mim. Eu ganho a minha vida maquiando uma estranha sucata imaginária, e eles consideravam isso um ativo maior no mundo dos negócios.`

Digamos, então, que os mundos dos fatos e das ficções estão se misturando de modo inextricável, que a incerteza quanto ao futuro só faz aumentar, e que a imaginação precisa correr solta para incorporar os possíveis, a fim de que a insegurança atual seja compreendida, gerida e contida - como na guerra preventiva de Bush. Mas assim como a antecipação procura trazer o futuro para o presente, também projeta o presente no futuro. E, em meu entender, uma das antecipações mais interessantes é aquela que se volta para o futuro do humano. O filósofo inglês Keith Ansell-Pearson já observou que os pós-modernos gostam de anunciar o fim das grandes narrativas; mas para ele está em curso a construção de uma grande narrativa em torno da obsolescência do humano. Ora, esta última mobiliza os principais temas apontados por Müller - aceleração econômica e tecnológica, princípio de seleção e desaparecimento do sujeito no vetor na tecnologia.

Com efeito, são esses os ingredientes básicos do livro A Era das Máquinas Espirituais, de Ray Kurzweil (Aleph, 512 págs., R$ 69), que acaba de ser lançado no Brasil, com alguns anos de atraso, é claro, em virtude de nossa velocidade periférica. Escrito em 1999, portanto, no limiar do século 21, o volume pretende anunciar a emergência `inexorável` de seres mais inteligentes que os humanos nas próximas décadas, e a necessidade de nos prepararmos para esse advento, de enorme importância sob todos os aspectos, do cosmológico ao subjetivo.

A era das máquinas espirituais de Kurzweil é apenas uma das diversas vertentes que estudam o futuro pós-humano do homem, seja através da `superação` deste por uma outra espécie mais avançada, seja através de seu engenheiramento, pela convergência das novas tecnologias da informação (biotecnologia, nanotecnologia e robótica). Mas ela merece destaque porque inventa uma teoria que busca demonstrar a inexorabilidade do pós-humano a partir da existência de leis de aceleração que explicariam toda a evolução - do universo, do mundo, das espécies, do homem e das máquinas. Estamos, portanto, diante de um autor que escreve como se quisesse adotar o ponto de vista da aceleração e, para fazê-lo, precisasse desenhar uma perspectiva que, a partir do presente, projeta a ação da aceleração simultaneamente sobre o passado e o futuro. Assim, após um prólogo no qual é proposto o surgimento de uma nova espécie superior, o livro se divide em três partes: Sondando o Passado; Preparando o Presente; Encarando o Futuro.

Paul Virilio já havia tentado ler a experiência contemporânea com as novas tecnologias, não a partir da velocidade da luz (preconizada pela teoria einsteiniana), mas à luz da velocidade; por sua vez, Richard Buckminster-Fuller havia feito da aceleração exponencial, isto é, da aceleração tecnológica um vetor importante para explicar de que modo as transformações da técnica surtiam maior impacto na nossa maneira de viver e de pensar do que a política. Entretanto, é Kurzweil quem pretende conferir à aceleração um caráter natural absoluto, ao eleger a lei de Moore como a matriz explicativa de toda a evolução. Com efeito, tudo se passa como se A Era das Máquinas Espirituais fosse uma imensa extrapolação dessa `lei`.

Como se sabe, Gordon Moore, o inventor do circuito integrado, observou, em 1965, que a área de superfície de um transistor embutida em um circuito integrado estava sendo reduzida em 30% a cada 12 meses, desde 1958; em 1975, Moore teria revisto sua observação para 24 meses. De todo modo, isso significava que, a cada dois anos, tornava-se possível inserir duas vezes mais transistores num circuito integrado, duplicando, portanto, tanto o número de componentes em um chip quanto sua velocidade; e como o custo de um circuito integrado é razoavelmente constante, podia-se duplicar a capacidade de cálculo e a velocidade pelo mesmo preço. O resultado é que a Lei de Moore dos Circuitos Integrados, que já vigora há quase 50 anos, tornou-se o paradigma a partir do qual se calcula a intensidade da aceleração tecnológica.

Ora, partindo dessa constatação, o que fez Kurzweil? Em primeiro lugar, postulou que a computação - entendida como a habilidade de lembrar e de solucionar problemas - abarcava tanto a evolução da tecnologia criada pelo homem quanto a evolução dos organismos multicelulares; e se agora a computação se acelerava exponencialmente, nem sempre tinha sido assim. Urgia, portanto, conectar a teoria da evolução das espécies com o que afirmava a teoria cosmológica da Terra e do Universo (que havia propiciado o surgimento dos organismos multicelulares) para entender como a Lei de Moore se coadunava com o que Kurzweil denominou a Lei do Tempo e do Caos e a Lei dos Retornos Acelerados - a primeira, pensada para explicar por que o caos aumenta exponencialmente à medida que o tempo diminui também exponencialmente; a segunda, concebida para explicar por que o tempo acelera exponencialmente à medida que a ordem aumenta também exponencialmente. Do complicado agenciamento dessas leis, resulta uma espécie de naturalização da aceleração tecnológica, que passa agora a ser entendida como uma continuação da evolução das espécies, independente da vontade e da decisão dos humanos. Nesse sentido, no âmbito do ultradarwinismo de Kurzweil, a Lei de Moore não só funciona como o elo de ligação entre seleção natural e seleção não natural (tecnológica), mas também como a verdade científica que permite articular por que em torno de 2020 uma outra tecnologia computacional, não mais humana, vai se impor necessariamente.

Com a palavra, Kurzweil: `A introdução da tecnologia na Terra não é meramente uma questão particular de uma das inumeráveis espécies da Terra. É um evento fulcral na história do planeta. A maior criação da evolução - a inteligência humana - está providenciando os meios para o próximo estágio da evolução, que é a tecnologia. A emergência da tecnologia é prevista pela Lei dos Retornos Acelerados. A subespécie Homo sapiens emergiu apenas dezenas de milhares de anos depois de seus antepassados humanos. De acordo com a Lei dos Retornos Acelerados, o próximo estágio da evolução deveria medir seus eventos relevantes em meros milhares de anos, rápido demais para a evolução com base no DNA. Esse próximo estágio da evolução foi necessariamente criado pela inteligência humana propriamente dita, outro exemplo do mecanismo exponencial da evolução usando suas inovações de um período (seres humanos) para criar o próximo (máquinas inteligentes).` `A emergência de tecnologia foi um marco na evolução da inteligência na Terra porque representou um novo meio de a evolução registrar seus desenhos. O próximo marco será a tecnologia criando sua própria próxima geração sem intervenção humana. O fato de que existe apenas um período de dezenas de milhares de anos entre esses dois marcos é outro exemplo do ritmo em aceleração exponencial que é a evolução.`

O leitor já deve ter percebido que para Kurzweil o que conta, acima de tudo, é a inteligência, entendida como potência de computação. Se as máquinas podem ser mais inteligentes do que os humanos, é natural que na competição conosco elas levem a melhor, e nos substituam como espécie superior. Mas, atenção: do ponto de vista do autor, isso não é nenhuma tragédia, até porque a evolução tecnológica permitirá que nossa inteligência se eternize fora de nosso meatware, pois será possível fazer evoluir o download de nossas mentes em outros suportes. Porém, não deixa de ser irônico constatar que a última pergunta do livro é angustiante: `Até que ponto a inteligência é relevante no Universo?`

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