Encontro inter-religioso do Papa em Assis pertence a uma revolução em curso

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16 Setembro 2016


Papa João Paulo II participa do encontro inter-religioso pela paz em Assis, Itália, em 27-10-1986. (Crédito: CNS/Osservatore Romano.)

Quando o Papa Francisco se somar a um encontro de líderes religiosos na próxima terça-feira em Assis, Itália, estaremos vendo pela quinta vez algo assim acontecer, a começar com João Paulo II em 1986, momento que marcou uma revolução tanto na forma como o catolicismo passou a se envolver com o mundo quanto no papel do papado como um espaço agregador de representantes religiosos moderados.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 14-09-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Quando o Papa Francisco viajar para Assis na próxima terça-feira para participar de um encontro com líderes religiosos e rezar pela paz, haverá provavelmente duas reações distintas em vários círculos católicos, cada um correndo o risco de não perceber o principal.

Aos poucos familiarizados com a história papal recente, o gesto de Francisco bem poderá ser visto como uma simples iniciativa da parte do papa, alguém já conhecido por seu estilo singular de estender a mão a grupos distanciados há tempos da Igreja.

Por outro lado, os que de fato conhecem a história do que aconteceu sob os reinados de São João Paulo II e Bento XVI podem estar tentados a considerar o evento de 20 de setembro próximo como um gesto comum. Afinal de contas, este encontro marca o 30º aniversário do evento histórico inter-religioso de 1986 de João Paulo em Assis, iniciativa que ele repetiu em 1993 e 2002, e que Bento também presidiu em 2011, não sendo, portanto, novidade.

Nesse ínterim, a Comunidade de Sant’Egidio, movimento católico dedicado à resolução de conflitos, ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso, esteve organizando todos os anos assembleias inter-religiosas “no espírito de Assis”; a Sant’Egidio é a força motriz por detrás do evento da próxima semana.

Noutras palavras, poder-se-ia dizer que estes encontros já se tornaram rotineiros.

Como não poderia deixar de ser, estas duas reações capturam algo de verdadeiro.

Com certeza, Francisco traz o seu estilo único aos encontros com líderes de outras religiões. É um estilo menos focado em curar feridas do passado, como o foi com João Paulo II, ou em explorar convergências e diferenças teológicas, como ocorreu com Bento. Com Francisco, há uma maior ação prática, aqui e agora, voltada a temas humanitários e sociais compartilhados por todos.

Também é certo dizer que o trabalho social inter-religioso hoje se tornou parte das funções de um papa, refletindo o ensinamento do Concílio Vaticano II e o precedente posto por João Paulo II.

No entanto, as interpretações de um “Francisco revolucionário” e de um “Francisco comum” ignoram o ponto mais importante de todos, que é este: o que está prestes a se desdobrar em Assis, no dia 20 de setembro, é mais um capítulo de uma revolução em curso, tanto na forma como o catolicismo se envolve no mundo como no papel do papado.

Trinta anos depois, é fácil esquecer o quão inovador e polêmico foi o encontro inter-religioso de 1986 sob a liderança de João Paulo II.

A ambientação em Assis ao invés de Roma foi uma escolha deliberada. Roma é a cidade do papa, enquanto Assis pertence a São Francisco, figura admirada universalmente por seu compromisso com a paz, com o diálogo e com a simplicidade. Essa escolha foi uma maneira de nivelar o campo de jogo, deixando claro que o papa veio como um irmão das outras religiões, e não como um comandante.

Naquele dia, o grupo incluía rabinos usando o quipá e sikhs vestindo turbantes, muçulmanos rezando em tapetes grossos e um zoroastra acendendo um fogo sagrado. Robert Runcie, arcebispo anglicano de Canterbury, trocou gentilezas com o Dalai Lama. Bispos ortodoxos bateram papo com Alan Boesak, ativista na luta contra o apartheid sul-africano e presidente da Aliança Mundial das Igrejas Reformadas.

Depois que as diferentes tradições terminaram suas orações, os líderes espirituais reuniram-se num mosteiro franciscano para uma refeição de pão, pizza, vegetais, com refrigerante e água. (Em uma ocasião rara para os italianos, não foi servido vinho de forma que não se ofendessem os presentes aos quais o álcool é algo além dos limites.)

As críticas foram imediatas e duras. Algumas delas alimentaram-se por lendas urbanas: houve quem falou de um sacrifício animal que estaria sendo conduzido no altar de uma igreja católica. Porém muitas dessas críticas tinham um fundo de verdade.

Fiéis tradicionalistas de Dom Marcel Lefèbvre distribuíram panfletos para denunciar João Paulo II como um apóstata por supostamente pôr o catolicismo no mesmo nível das demais religiões. Dois anos mais tarde, quando Lefebvre rompia com a Igreja em cisma, foi dito que ele estava agindo assim para proteger o catolicismo do “espírito do Vaticano II e do espírito de Assis”. O protestante americano fundamentalista Carl McIntire amplificou o que disse Lefèbvre ao chamar o encontro de Assis como a “maior abominação singular na história da Igreja”.

Inquietações foram também expressadas de dentro do ambiente papal. O então Cardeal Joseph Ratzinger, na época o presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, disse em um livro de 2003 que é “não se discute que os encontros de Assis, especialmente o de 1986, foram mal interpretados por muitas pessoas”.

Apesar disso tudo, João Paulo II repetiu o evento duas vezes. Em 2002, Ratzinger participou e se disse “muito feliz” com o resultado, tendo ele próprio posteriormente conduzido um encontro já na qualidade de papa.

Portanto, quando Francisco ir a Assis na terça-feira, confirmar-se-á que o comprometimento da Igreja com o diálogo inter-religioso e a harmonia é irrevogável – algo que não se tinha ao certo 50 anos atrás.

Esta sua ida também confirma uma nova função para o papado, iniciada por João Paulo II.

Lembremos que o encontro de 1986 em Assis se deu enquanto a Guerra Fria ainda estava em curso, e veremos que a ideia de orar pela paz não era simplesmente um gesto piedoso, mas um gesto com uma significação política mundial real. O encontro de 1993 ocorreu em meio a guerras nos Bálcãs, e a edição de 2002 desenvolveu-se no rescaldo do 11 de Setembro.

A ideia era responder à violência com gestos de amizade e paz, ilustrando assim que a religião não tem de ser uma causa de conflitos, mas que pode ser também algo central na resolução das diferenças e na promoção do entendimento.

Com efeito, o encontro foi uma maneira de colocar o papa como uma figura agregadora, alguém que reúne líderes religiosos moderados de todos os lugares, oferecendo uma contranarrativa a percepções de hostilidade e violência nutridas por diferenças de religião.

Em 2002, durante o evento final de Assis sob a liderança de João Paulo II, o Rabino Israel Singer, na época presidente do Congresso Judaico Mundial, a certa altura deixou de lado o seu texto escrito, voltou-se ao pontífice e disse: “Somente a vossa santidade, João Paulo II, poderia organizar algo assim”, e em seguida ofereceu uma saudação ao líder católico.

Quando Francisco for a Assis na próxima terça-feira, ele estará confirmando uma grande mudança na atitudes católicas para com as demais religiões: um acréscimo histórico à concepção do que significa ser papa.

Tudo isso, é preciso dizer, não é pouca coisa.

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