Morreu Elie Wiesel, uma vida dedicada a contar o horror do Holocausto

Revista ihu on-line

Ontologias Anarquistas. Um pensamento para além do cânone

Edição: 543

Leia mais

Vilém Flusser. A possibilidade de novos humanismos

Edição: 542

Leia mais

Planos de saúde e o SUS. Uma relação predatória

Edição: 541

Leia mais

Mais Lidos

  • Os Arautos do Evangelho não reconhecem o Comissário do Vaticano, dom Raymundo Damasceno Assis

    LER MAIS
  • Pacto das Catacumbas pela Casa Comum. Por uma Igreja com rosto amazônico, pobre e servidora, profética e samaritana

    LER MAIS
  • A ideologização da Sociologia (além de uma simples distração). Artigo de Carlos A. Gadea

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

04 Julho 2016

Não havia nada nele que não falasse de Deus, que não discutisse nem brigasse sobre Ele: em uma das suas raras comédias, O processo de Shangorod, ele O havia até indiciado e julgado em um shtetl de 1649, na Rússia: era um debate entre três rabinos que ele realmente tinha visto em Auschwitz e nunca tinha conseguido contá-lo. No entanto, sobre Deus, ele nunca dissertava, mas estudava e lia cada página dos textos sagrados, transbordava de judaísmo, escrevia a respeito continuamente, memórias, contos, romances, personagens bíblicos, reflexões sobre o Talmud, 57 livros, milhares de páginas. Com o Senhor, ele tinha uma conta aberta desde quando, no campo de concentração, a Shoá ardia ao seu redor e sequestrava grande parte da sua família: "Nunca vou me esquecer daquelas chamas que consumiram a minha fé para sempre".

A reportagem é de Susanna Nirenstein, publicada no jornal La Repubblica, 02-07-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Elie Wiesel, que morreu nesse sábado aos 87 anos, não se esquecia, dizia estar cheio de raiva contra o Mundo, a História, ele próprio: foi assim que, no fim, no início dos anos 1950, ele escolheu ser uma testemunha, escrever, conter-se, embora se esforçasse, dizia: ele sabia que produzia algo de bom apenas quando "as palavras eram incandescentes".

Foi assim que ele decidiu ser um combatente contra o esquecimento, a indiferença, a mentira, um partidário do seu povo e dos oprimidos, como mais ou menos dizia o Nobel que ele recebeu em 1986, porque sempre lutou pela liberdade dos judeus russos, desde a Cortina de Ferro, e dos etíopes, e se consumiu muito mais contra os genocídios no Camboja, Ruanda, o apartheid na África do Sul, pelos desaparecidos na Argentina, as vítimas bósnias, os índios miskito na Nicarágua, os curdos, exigindo intervenções em Darfur, Sudão, uma resolução da ONU que definisse e julgasse o terrorismo como um crime contra a humanidade.

Com Primo Levi, ele compartilhou o papel insubstituível de testemunhas, precoces e afiadas, capazes de falar para a Terra: que será de nós sem eles? Porém, eram muito diferentes. Levi, cientista, matemático, seccionador do indizível, composto. Wiesel, seco na escrita e nas descrições, mas cheio de símbolos, de evocações, de raízes, de mundo judaico, do wit místico em meio ao qual cresceu.

Ele nasceu em Sighet, entre os Cárpatos, então Romênia, no dia 30 de setembro de 1928, de Sarah Feig e Shlomo Wiesel. Em casa, falavam iídiche, mas também alemão, húngaro, romeno. A sua mãe era filha de um renomado hasid; o pai, um humanista apaixonado, que o estimulou e o acompanhou no estudo do hebraico e da Torá. Tinha, então, três irmãs, Hilda, Beatrice, Tzipora. As primeiras duas sobreviveram.

Durante o conflito, Sighet tinha se tornado húngara: de um dos dois guetos que se criaram na cidadezinha, no dia 6 de maio de 1944, a família Wiesel foi deportada para Auschwitz Birkenau. Nos trilhos, Elie beijou a sua mãe e Tzipora pela última vez. Tornou-se A-7713, o número que os nazistas lhe tatuaram no braço. Enviado com o pai para o campo de trabalho de Buna, um subcampo de concentração de Auschwitz III-Monowitz, e depois para Buchenwald, em janeiro de 1945, ele viu o seu pai ser espancado até a morte poucas semanas antes da chegada da III Armada Estadunidense no dia 11 de abril. Elie Wiesel tinha 16 anos.

Recomeçou a viver em um orfanato francês. Enquanto ensinava hebraico, estudava francês e, depois, filosofia, começou a ser jornalista em todas as línguas, incluindo o iídiche, para jornais franceses, israelenses... Mas ainda não queria falar da Shoá. Era pequeno. E, depois, quantos sobreviventes estavam prontos, na época, para abordar um tema tão imenso? Primo Levi escreveu É isto um homem? em 1947, tinha 28 anos e, mesmo assim, a editora Einaudi (na pessoa de Natalia Ginzburg) recusou o seu manuscrito.

Wiesel estava apaixonado pela atualidade, em vez disso, queria ir para a Palestina: mas, emocionalmente, era um defensor do Irgun, a formação sionista que lutava contra os ingleses com o terrorismo, não lhe deram o visto. Depois, todos lhe perguntaram: como é que você escolheu uma associação armada? "Eu era jovem e, em 1946, queria fazer alguma coisa. Mesmo sendo contra toda morte, o povo judeu estava acordando, e o meu lugar era com eles, em qualquer coisa que estivessem fazendo". E depois acrescentou mil vezes: "Sou um pacifista, contra a violência, e estou totalmente com Israel".

Sim, totalmente com Israel, além de outros milhares posicionamentos. Em 2010, comprou uma página no New York Times e em três outros jornais estadunidenses para enfatizar o vínculo dos judeus com Jerusalém ("Ela é nomeada 600 vezes na Torá e nenhuma vez no Alcorão (...) é um vínculo que não pode ser desfeito: para um judeu, vê-la pela primeira vez significa voltar para casa") e para criticar Obama, que pedia que Israel parasse a construção das casas no Oriente.

Ele também comprou uma página nos jornais durante a última guerra desse verão com Gaza, para que os Estados Unidos condenassem o Hamas e o seu uso das crianças como escudos humanos, e com eles o culto da morte.

Esse era Wiesel, urbano, comovente, mas também um combatente não conformista: Israel, dizia, significa que, para os judeus, nada mais será como antes. Nada mais de discriminações, nada mais de humilhações, nada de pogroms, nada de Shoá.

Voltemos à vida e aos livros. Na França, Wiesel entendeu que a sua vocação eram as palavras, trabalhava para os jornais, lia como um louco, adorava Camus, mas o Holocausto parecia ser, para ele, um território proibido. Tudo mudou durante uma entrevista com o escritor católico François Mauriac: ele o fez chorar, comparando os sofrimentos das crianças judias às de Jesus. Mauriac lhe sugeriu para falar sobre isso.

E ele escreveu uma primeira versão de A noite em iídiche, mais de 900 páginas (Und di Velt Hot Geshvign, E o mundo ficou em silêncio). Uma vez reescrito em francês e muito mais brevemente, Mauriac lhe presenteou uma introdução. Foi recusado por todos os editores, exceto pela pequena Editions de Minuit, em 1958. Mas não vendeu quase nada, e, por isso, foi para os Estados Unidos: ninguém o queria; vender o Diário de Anne Frank era possível, ela não mostrava o horror dos campos de concentração e terminava com palavras de esperança na humanidade. "A noite" não era assim, pois começava onde Anne Frank terminava, e se perguntava sobr a ausência de Deus durante o extermínio. Era um grito. Foi impresso em 1959, poucos o compraram.

Depois, em 1961, a captura de Eichmann e o seu julgamento em Jerusalém mudaram a cena, e as guerras dos Seis Dias e de Kippur ainda mais: a humanidade se tornou consciente da Shoá e se interrogava sobre os destinos judeus. Elie Wiesel, que tinha ido viver em Nova York em meados dos anos 1950, começou a dar palestras.

Em 1978, Jimmy Carter o inseriu na comissão do Holocaust Museum. Em 1985, quando Reagan visitou o cemitério militar (onde as SS estavam sepultadas) na Alemanha, Wiesel lhe perguntou: "Esse não é o seu lugar, senhor presidente, o seu lugar é ao lado das vítimas das SS". No dia seguinte, ele estava em todas as primeiras páginas dos jornais. E, no ano seguinte, recebeu o Nobel.

No final dos anos 1990, A noite vendia 400.000 cópias por ano. Chegou a muito mais do que 10 milhões. Na Itália, Daniel Vogelmann o descobriu por primeiro e o publicou em 1980: foi assim que ele começou as publicações da sua editora, Giuntina, que depois publicou muitos outros de seus livros (assim como muitos editores imprimiram outros livros dele).

Era o relato de Auschwitz. O único que escreveu. Depois, cantou os seus progenitores, o hassidismo, a formação religiosa, o shtetl, os judeus hoje e a dificuldade de sair do pesadelo da Shoá, e, com profundidade psicológica, as personagens bíblicas através do Midrash, relatos autobiográficos como O judeu errante, que narram a infância em uma Paris povoada também por fantasmas bélicos, A cidade da sorte. Seis reflexões sobre o Talmud.

São muitos, não é possível citar todos. O último foi A cuore aperto [De coração aberto] (Ed. Bompiani), depois de uma operação urgente de poucos tempo atrás, em que ele se viu mais uma vez diante da morte: "Desta vez, eu estava mais sozinho. Na época, eu estava com os outros", disse.

"Você ainda acredita na humanidade?", alguém lhe perguntou: "A Torá ensina a escolher a vida. Eu acredito na humanidade contra a humanidade. Eu acredito em Deus contra Deus".

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Morreu Elie Wiesel, uma vida dedicada a contar o horror do Holocausto - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV