O sentido da vida é habitar o tempo que resta. Artigo de Vincenzo Rosito

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04 Julho 2016

A vida acelerada não precisa apenas de ritmos lentos e bem marcados. Precisamos de "políticas do tempo", assim como também de ações pastorais ou práticas eclesiais que partam da "superioridade do tempo sobre o espaço".

A opinião é do filósofo italiano Vincenzo Rosito, professor da Link Campus University, em Roma. O artigo foi publicado no jornal Avvenire, 30-06-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A percepção do tempo nas primeiras comunidades cristãs era fortemente marcada pela ideia de que a vinda do Senhor seria iminente e definitiva. À luz dessa consciência, homens e mulheres se reuniam para partir o pão e para transmitir o dom do Espírito mediante o beijo recíproco: "Todas as vezes que vocês comem deste pão e bebem deste cálice, estão anunciando a morte do Senhor, até que ele venha" (1Cor 11, 26).

Não é simplesmente um tempo de espera confiante aquele em que os ritos e os gestos são colocados e em função do qual assumem cores e significados peculiares. O tempo da comunidade dos fiéis é um tempo que começa a correr: essa é a sua qualidade mais profunda e incisiva. Comer, trabalhar, jogar, repousar "até que Ele venha" significa viver imersos na consciência de um tempo que resta, um tempo que assume um impulso e uma aceleração, tendo já uma direção e conservando um sentido revelado, embora ainda não totalmente manifestado.

A aceleração, portanto, não é estranha ao tempo marcado e inaugurado pela encarnação do Filho de Deus. O chamado tempo messiânico é inerentemente acelerado no sentido de que é um tempo sensato. Ele tem um fim que se reverbera contextualmente no fim, ou seja, no sentido das ações e das obras daqueles que o habitam.

A aceleração cristã do tempo não é um ansiogênica, nem apressa, porque molda não a quantidade das ações que podem ou devem ser feitas em um determinado período, mas sim a qualidade das obras e dos empreendimentos humanos que podem ser, finalmente, direcionados.

A aceleração do tempo cristão é pervertida quando não é mais capaz de expressar a sensatez das práticas em função do tempo que resta, deixando o campo livre para o tempo que falta. A percepção que os indivíduos têm do tempo dentro das complexas sociedades globalizadas é reconhecível na ideia de um tempo que falta de maneira absoluta e afinalística. Temos a sensação de não ter tempo suficiente para as muitas coisas que deveríamos fazer e nos damos conta de que nos falta objetivamente o tempo para desempenhar as múltiplas ações do cotidiano.

O tempo que falta, ao contrário do tempo messiânico, não se encurta em função do próprio fim, mas é simplesmente pouco, demasiada e dramaticamente pouco.

A aceleração, assim, torna-se cega, ofegante, torna-se acumulação compulsiva de eventos e de ações, sem descerrar um horizonte finalístico e conclusivo de sentido. Leva a refletir como, nos últimos anos, a aceleração tornou-se objeto de análises e de pesquisas no campo dos estudos filosóficos e sociológicos, e apareça contextualmente em diversos documentos do magistério eclesial.

Por exemplo, fala-se de um verdadeiro paradigma da aceleração social (Social Acceleration Theory), que tem no filósofo e sociólogo alemão Hartmut Rosa um dos maiores expoentes.

Nas pesquisas desse autor, a aceleração se torna uma categoria da análise social justamente porque a percepção e a organização do tempo influenciam a criação dos espaços e, em última instância, as relações interpessoais e as relações de poder.

O fato de ter pouco tempo à disposição, portanto, não é uma mera percepção individual. Para Hartmut Rosa, de fato, a aceleração é real, porque surge, acima de tudo, a partir das mudanças tecnológicas.

Pode ser definido como aceleração tecnológica aquele crescimento exponencial da velocidade dos processos de produção ou de comunicação nas sociedades contemporâneas. A ela deve ser somada a aceleração das mudanças sociais, ou seja, o incremento mediante o qual mudam e se sucedem modas, estilos de vida e hábitos sociais. As instituições tradicionalmente confiáveis, por serem persistentes à sucessão de mais gerações, tornam-se cada vez mais momentâneas e instáveis.

O ocupação laboral é um campo em que a aceleração das mudanças sociais é particularmente evidente: as estruturas trabalhistas da primeira modernidade sobreviviam por mais de uma geração; pense-se nas diversas empresas ou atividades trabalhistas de condução familiar. Até os anos 1970, em vez disso, o trabalho era o de uma vida inteira, ainda era capaz de marcar a biografia de uma existência construída em torno de uma única e mesma profissão.

Hoje, enfim, o emprego é pensado para ser velozmente e várias vezes mudado no arco de uma mesma vida de trabalho. Só à luz dessas mudanças, pode-se falar de uma aceleração dos ritmos de vida, ou seja, da percepção mais comum de quem vive ou sobrevive tendo pouco tempo para fazer tudo. Portanto, estamos falando da aceleração induzida pela lógica do multitasking, ou seja, da necessidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo.

As ações individuais por unidade de tempo se multiplicam, por isso, o tempo passa dramaticamente a faltar. Não é por acaso que a aceleração é a primeira categoria diagnóstica proposta pelo Papa Francisco na encíclica Laudato si': "A contínua aceleração das mudanças na humanidade e no planeta junta-se, hoje, à intensificação dos ritmos de vida e trabalho, que alguns, em espanhol, designam por 'rapidación'" (n. 18).

No texto da encíclica, o trabalho também aparece novamente como campo privilegiado para a crítica dos tempos "rapidizados" de produção, de utilização e de consumo de bens. A aceleração do tempo de trabalho e da duração de um emprego envolve a transformação radical da lógica produtivista entendida cada vez mais como competição entre vários sujeitos ou comunidades de indivíduos.

À luz dessas mudanças, o trabalhador é avaliado e retribuído em função de uma performance, fazendo com que a sua obra, de lugar de libertação e de realização, torne-se um âmbito totalizante de alienação.

Enquanto o trabalho acelerado se perverte em uma espécie de dependência do próprio trabalho, o tempo livre assume valor e significado apenas porque é um "tempo sem trabalho", isto é, um tempo vazio ou esvaziado.

A vida acelerada não precisa apenas de ritmos lentos e bem marcados. Precisamos de "políticas do tempo", assim como também de ações pastorais ou práticas eclesiais que partam da "superioridade do tempo sobre o espaço".

Isso significa inaugurar processos e abrir âmbitos de socialidade em que se integrem tempos e relações diversificados. Desacelerar não significa apenas reduzir o ritmo ou o número das coisas que fazemos, mas curvar o tempo da produção ao tempo da socialidade; o tempo da performance ao da presença convivial; o tempo da autorrepresentação eclesial ao da comunhão-koinonia.

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