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28 Junho 2016

Após uma semana de intenso trabalho na Academia ortodoxa de Creta, o Santo e grande Concílio da Igreja ortodoxa concluiu os seus debates aos 25 de junho. Desmentindo as previsões mais pessimistas e superando, até a véspera de sua abertura, inumeráveis obstáculos, a assembleia conciliar não só adotou os seis textos que figuravam na ordem do dia, mas também publicou uma encíclica [1] e uma importante “mensagem ao povo ortodoxo e a todas as pessoas de boa vontade”.

A reportagem é de Chania Hyacinthe Destivelle, publicada por L’Osservartore Romano, 28-06-2016. A tradução é de Benno Dischinger.

Conclui-se, portanto, a longa preparação pré-conciliar organizada pelas Igrejas ortodoxas dos anos Sessenta. A Igreja ortodoxa dá assim início a uma nova página de sua história. Não obstante as tantas ausências, além dos documentos adotados e além do próprio concílio, deu um passo muito importante no exercício de uma sinodalidade até então por certo professada, mas não tão vivenciada entre as Igrejas ortodoxas. Como o próprio concílio auspiciou, é improvável que este precedente não tenha um seguimento. A sessão final de 25 de junho foi aberta, como a primeira, aos observadores e aos jornalistas. Foi fundamentalmente uma sessão de agradecimento, no decurso d a qual o Patriarca ecumênico pôde realizar um primeiro balanço.

Amargurado pela ausência de diversas Igrejas e reconhecendo que “nem tudo foi fácil” e que “o fator humano esteve presente”, Bartolomeo em todo caso se alegrou pela concórdia obtida e pela mensagem de unidade que foi dada. Prova disso é o fato de que, “não obstante a instituição da autocefalia, somos uma Igreja indivisível e gozamos da unidade na nossa diversidade e da diversidade na nossa unidade”. Pôde assim concluir: “Escrevemos juntos uma página de história, um novo capítulo na história contemporânea das nossas Igrejas”.

O arcebispo de Constantinopla dirigiu-se depois aos observadores, agradecendo em particular pela prece, o apoio e o interesse manifestados pelas suas respectivas Igrejas. Indo um pouco além das palavras dos textos adotados, sublinhou que o concílio “confirmou a importância vital do diálogo com as outras Igrejas cristãs”. Resumiu então o principal resultado e desenvolveu a metáfora do “caminho comum” (syn-odos): Mal grado as imperfeiçoes do caminho, este Santo e grande Concílio nos oferece a oportunidade de revitalizar o processo conciliar, de modo que os concílios eclesiais se tornem novamente o caminho canônico e natural para atingir e afirmar a unidade ortodoxa para todas as nossas Igrejas ortodoxas irmãs”. No final desta sessão, Bartolomeo pronunciou um discurso improvisado sublinhando a contribuição da Igreja ortodoxa e, em particular aquela de Constantinopla, ao movimento ecumênico.

Aproveitou depois a ocasião para evocar recordações pessoais, como estudante no Instituto ecumênico de Bossey e como vice-presidente da comissão Fé e Constituição do Conselho Ecumênico das Igrejas. No dia seguinte, 26 de junho, na solenidade de Todos os Santos, que a Igreja ortodoxa festeja no primeiro domingo subsequente ao Pentecostes, os primazes concelebraram a divina liturgia na igreja dos santos Pedro e Paulo de Chania.

Após o Evangelho foi proclamada a mensagem que, fundada na “certeza de que a Igreja não vive para si mesma”, desenvolve em doze pontos os temas debatidos; o concílio já tomou decisões sobre seis deles, enquanto outros seis ela examinará em seguida. Recordando que a prioridade era de proclamar a unidade da Igreja ortodoxa, unidade que se exprime no concílio, a mensagem sublinha em primeiro lugar que a “conciliaridade [da Igreja ortodoxa] modela a sua organização, o modo pelo qual toma decisões e determina o seu destino”.

De fato, as Igrejas ortodoxas autocéfalas não são “uma federação de Igrejas, mas a Igreja uma, santa, católica e apostólica”. Aplicado à questão da diáspora, este princípio de conciliaridade está na base das assembleias episcopais que o concílio confirmou. Está também na origem da Sinaxe dos primatas e do próprio Santo e grande Concílio, Cuja mensagem anuncia que de agora em diante será convocado regularmente, “cada sete ou dez anos”. A mensagem prossegue sublinhando a necessidade do testemunho da fé, “liturgia após liturgia”, em vista da evangelização e da “re-evangelização” Evidencia a importância do diálogo, “em particular com os cristãos não ortodoxos”, para fazer resplandecer melhor a ortodoxia, mas também daquele inter-religioso. Exprime a sua preocupação pelos cristãos e as minorias perseguidas do Oriente Médio, como também pelos refugiados.

Denunciando o “secularismo moderno”, sublinha, todavia que a “cultura ocidental induz o sinal indelével da contribuição do cristianismo“.

Recorda a concepção ortodoxa do matrimônio, bem como o valor da abstinência e da ascese, “característica da vida cristã em todas as suas expressões”. Recorda, enfim, outras seis “importantes questões contemporâneas”: as relações entre fé e ciência, a crise ecológica, o “respeito do particularismo”, a relação entre Igreja e âmbito político, os jovens, antes de concluir afirmando que “o Santo e grande Concílio abriu o nosso horizonte sobre o mundo contemporâneo”.

Particularmente importante foi também a homilia pronunciada pelo patriarca ecumênico, dedicada novamente à sinodalidade. Citando por diversas vezes o teólogo ortodoxo de origem russa Alexander Schmemann, Bartolomeo recordou a “natureza sinodal” da Igreja, definida como um “sínodo ecumênico“ que o próprio Deus convocou. Se não entendermos a Igreja como “essencialmente sinodal”, se não aceitarmos que a inteira vida da Igreja é uma vida “em sínodo”, declarou, “então não estaremos em condições de entender corretamente a função dos concílios no sentido mais estrito do termo”. O arcebispo de Constantinopla insistiu, depois, na necessidade de fazer conhecer e aplicar as decisões conciliares, segundo um processo por ele defini do como “concílio após o concílio”: “As decisões sinodais pan-ortodoxas deverão ser inseridas na vida das Igrejas ortodoxas locais, tornadas públicas nas paróquias, nas santas arquidioceses, nas metrópoles e nos santos mosteiros, discutidas nas escolas teológicas e nos seminários, utilizadas para o catecismo e a educação dos jovens, para poder produzir fruto no ministério pastoral e nas atividades da Igreja no mundo”.

O principal ensinamento do Concílio – sublinhado incansavelmente pelo Patriarca ecumênico – é o seguinte: “A sinodalidade é outro termo para Santo e grande Concílio, revelando que a Igreja uma, santa, católica e apostólica, unida pela fé, pelos sacramentos e pelo testemunho no mundo, encarna e exprime de modo autêntico o princípio eclesiológico central e a verdade da sinodalidade, e também acentuou que a Igreja vive como um “sínodo”. Retomando as palavras de Steven Runciman, que já havia citado aos 16 de junho, o patriarca Bartolomeo, no termo do concílio, afirmou que, “se o século vinte e um pode e deve tornar-se o século da ortodoxia”, o Santo e grande Concílio d a nossa santíssima Igreja, por graça do Deus adorado, trino e Senhor de tudo, colocou a primeira pedra do cumprimento desta visão divina”. Na mensagem final foram enfrentadas questões nevrálgicas do mundo de hoje.

Pelos direitos de cada homem

(Hyacinthe Destivelle) Da declaração de unidade e catolicidade da Igreja ortodoxa ao diálogo com as outras comunidades cristãs, da ameaça representada por uma crescente secularização à importância do matrimônio (como “indissolúvel relação de amor de um homem e de uma mulher”) e da família (“Igreja doméstica”), dos valores e riscos do progresso científico à grave crise ecológica: são somente alguns dos temas tratados na mensagem difundida no termo do Santo e grande Concílio ortodoxo na ilha grega de Creta, de 19 a 26 de junho. Doze pontos e uma breve premissa na qual se sublinha que “fundamento das nossas pesquisas teológicas tem sido a certeza que a Igreja não vive por si mesma. Comunica o testemunho do Evangelho da graça e verdade e oferece a todo o mundo os dons de Deus: o amor, a paz, a justiça, a reconciliação, a força da cruz e da ressurreição, a expectativa da eternidade”.

É nítida, no ponto quatro, a denúncia das “explosões de fundamentalismo que se observam no seio de diversas expressões de fé, expressão de malsã religiosidade. Contrariamente, “o diálogo inter-religioso contribui significativamente à promoção da confiança recíproca, da paz e da reconciliação”, já que “o óleo a vivência religiosa deve ser utilizado para sanar feridas e não para reacender a chama dos conflitos bélicos”. A Igreja ortodoxa “condena nitidamente o acréscimo da violência bélica, as perseguições, a expulsão e os homicídios de membros das comunidades religiosas, a coerção para mud ar de fé, o tráfico de prófugos, a rapina, as torturas, as ferozes execuções. Denuncia a destruição de templos, símbolos religiosos e monumentos culturais. Em particular, “manifesta sua preocupação pela situação dos cristãos e de todas as minorias perseguidas no Oriente Médio e alhures”, e “dirige um apelo à inteira comunidade mundial pela proteção dos ortodoxos nativos e por todos os outros cristãos, como também por toda a população da região, que têm um inviolável direito de permanecer em sua pátria como cidadãos de iguais direitos”.

O convite que vem do Concílio de Creta é “a todos aqueles que estão envolvidos”, afim de que realizem “sem retardo esforços sistemáticos para fazer cessar os conflitos bélicos no Oriente Médio e para o retorno daqueles que têm sido expulsos. Em particular, dirigimos um apelo aos poderosos da terra a fim de que prevaleça a paz e a justiça nos Países de chegada dos refugiados e “exortamos as autoridades políticas, os cidadãos e os cristãos ortodoxos a continuarem oferecendo ajuda nos limites das próprias possibilidades”. O tema, mais amplo, do respeito dos direitos do homem é enfrentado nos pontos 9 e 10. “Ante a homogeneização niveladora e impessoal, que é promovida de vários modos, a ortodoxia – se afirma – proclama o respeito da individualidade dos homens e dos povos”, e “se opõe à proclamação de autonomia da economia das necessidades basilares do homem e na sua transformação em fim de si mesma. O progresso do gênero humano não se conecta com o desenvolvimento do teor de vida ou da economia em detrimento dos valores espirituais.

Também se “a Igreja ortodoxa não se mistura com a política e a sua palavra permanece distinta mas profética, como intervenção necessária a favor do homem”, se sublinha que os direitos humanos “se encontram hoje no centro da politica como resposta às sociedades atuais, às crises e ás transformações políticas, visando a proteção do cidadão às prepotências do Estado”. Há depois “os deveres e as responsabilidades dos cidadãos e a necessidade da contínua autocrítica de políticos e cidadãos para uma substancial melhoria da sociedade”. Além disso, “o dever ortodoxo pelo homem supera o horizonte dos direitos humanos sancion ados, já que “maior que tudo” é o amor que Cristo revelou e que vivenciaram quantos fielmente o têm seguido”.

Direito fundamental “é também a proteção da liberdade religiosa, ou seja, da liberdade de consciência, de fé, de culto e de todas as suas manifestações pessoais e coletivas, incluindo também o direito de cada fiel e de cada comunidade religiosa de celebrar, livre de toda intervenção estatal, os próprios deveres religiosos, como também o direito de ensinamento público da religião”. Além disso, a Igreja ortodoxa, “respondendo à necessidade de testemunhar a verdade e a sua fé apostólica, dá grande significado ao diálogo, principalmente com os cristãos heterodoxos. De tal modo, também o restante do mundo cristão conhece de modo mais preciso a pureza da tradição ortodoxa, o valor do ensinamento patrístico, a experiência litúrgica e a fé dos ortodoxos”. Precisando que “os diálogos que a Igreja ortodoxa conduz não significam jamais um compromisso sobre questões de fé”. Se “o atual desenvolvimento das ciências exatas e da tecnologia aporta mudanças radicais da nossa vida, oferecendo significativos benefícios”, isso também tem – recorda a mensagem – “várias incidências negativas, como o são a proteção da liberdade, a gradual pera de preciosas tradições, a destruição do ambiente natural, a contestação dos valores éticos”.

Não podia faltar, no ponto oito, um aprofundamento sobre a crise ecológica, “devida a causas espirituais e éticas”, enquanto “as suas raízes se conectam com a avidez, a cobiça e o egoísmo, que conduzem à utilização desconsiderada dos recursos naturais, à deterioração da atmosfera com danosas substâncias poluentes e à mudança climática. O modo cristão de enfrentar o problema requer um arrependimento pelos abusos, moderação e etos ascético, que constituem um antídoto ao excesso de consumo e, ao mesmo tempo, de cultivar no homem a consciência que ele é “ecônomo” e não possuidor da criação. As futuras geraçõs têm direito sobre os bens naturais que o Criador nos confiou. Por este motivo, a Igreja ortodoxa participa ativamente das diversas iniciativas ecológicas internacionais” e “instituiu o dia 1° de setembro como o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação”. A mensagem final do Concílio se dirige também aos jovens, “os quais buscam uma completude de vida plena de liberdade, justiça, criatividade, mas também amor”. A Igreja os chama “a se apresentarem oferecendo ao corpo eclesiástico a vitalidade, as inseguranças, os problemas e as suas expectativas. Os jovens não constituem simplesmente o futuro da Igreja, mas o presente dinâmico e criativo num plano local e universal!”.

Nota:

[1] A íntegra da encíclica final pode ser lida, em inglês, francês e grego, clicando aqui. (Nota é de IHU On-Line).

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