Na Armênia, Papa Francisco mostra que o tamanho não importa

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27 Junho 2016

Muitos não-católicos temem que unidade com Roma signifique ser engolido pelo papado, mas por ter tratado o líder da pequena Igreja Apostólica Armênia de igual para igual nos últimos três dias, o Papa Francisco demonstrou que, no final, o tamanho não importa.

Em teoria, pelo menos, o tamanho não importa no cristianismo. A dignidade espiritual não deve depender do número de seguidores, infraestrutura ou contas bancárias; como disse o Papa Bento XVI certa vez, "a estatística não é o nosso deus".

A reportagem é de John L. Allen Jr., jornalista, publicada por Crux, 26 -06-2016. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Raramente, no entanto, se verá uma demonstração mais clara desse princípio do que os acontecimentos da viagem de 24 a 26 junho do Papa Francisco à Armênia, pequeno país na região do Cáucaso Meridional, na divisa entre a Europa Oriental e a Ásia Ocidental.

Qualquer comparação entre o Papa Francisco e Sua Santidade Karekin II, o Catholico de todos os Armênios, seria totalmente incompatível.

Um Papa lidera uma fé global, constituída por 1,2 bilhão de pessoas, preside um estado soberano no Vaticano que tem relações diplomáticas com praticamente todo o mundo e é uma estrela da mídia mundial.

O chefe da Igreja Apostólica Armênia, por outro lado, tem, no máximo, 9 milhões de seguidores e é uma famoso somente em um lugar: na Armênia, um país de cerca de 3 milhões de pessoas. Fora de lá, ele poderia tirar as vestes clericais e transitar despercebido de aeroporto a aeroporto.

Apesar de sua história como o primeiro país oficialmente cristão do mundo, a Armênia, na verdade, tem pouca influência mesmo dentro da Ortodoxia. Ela é uma das seis igrejas ortodoxas orientais que não reconhecem o Concílio de Calcedônia e, portanto, tende a ser negligenciada em relação a grupos ortodoxos mais conhecidos, como o Patriarcado de Constantinopla e a Igreja Ortodoxa Russa.

No entanto, ao longo dos últimos três dias, o percurso da viagem por diversas vezes deu a ideia de que Papa Francisco e Karekin são iguais: ambos líderes de igrejas antigas e ambos autoridades espirituais.

Karekin esteve ao seu lado em todos os lugares por que o Papa Francisco passou; se manifestou em todos os lugares em que o Papa Francisco se pronunciou; e juntou-se a ele em todas as bênçãos, orações e homenagens do Papa.

O Papa Francisco se hospedou no Palácio Apostólico de Karekin, compartilhando com ele refeições e orações todos os dias. Apesar de geralmente abominar refeições formais, o Papa aceitou um convite para um almoço ecumênico com Karekin e seus bispos no domingo e os dois visitaram um mosteiro juntos no domingo à tarde, ao pé do célebre Monte Ararate, onde soltaram duas pombas como sinal de paz.

No sábado, Karekin e o Papa Francisco visitaram a cidade armênia de Gyumri e foram até ambas as catedrais armênia e católica. O Papa ofereceu a bênção final no local armênio de culto e Karekin, no Católico.

Também no sábado, Karekin compareceu a uma missa ao ar livre celebrada pelo pontífice na Praça Vartanants de Gyumri, e no domingo o Papa devolveu a gentileza ao participar de uma Divina Liturgia no pátio do Palácio Apostólico da Igreja Armênia de Echmiatsin.

Em ambos os casos, eles realizaram as atividades em conjunto, lado a lado, e a liturgia ortodoxa de domingo foi um caso raro de um evento público em que um papa estava presente, mas não foi o ator principal. Além disso, um coro entoou orações para ambos Karekin e Papa Francisco.

A demonstração de uma causa comum entre Papa Francisco e Karekin, em um mesmo nível, reflete não apenas o compromisso corporativo de ambas as igrejas ao ecumenismo, mas também a paixão pessoal do Papa pela unidade dos cristãos.

No sábado, ele convidou os cristãos a "acelerar o passo em direção a uma comunhão plena" e suas observações na Divina Liturgia, no domingo, fizeram ecoar esse apelo.

"Como é bom e agradável quando os irmãos vivem em união", disse o Papa, citando o Salmo 133.

"Nós nos encontramos, nos abraçamos como irmãos, oramos juntos e compartilhamos as dádivas, as esperanças e as preocupações da Igreja de Cristo", acrescentou. "Sentimo-nos como um no coração e acreditamos e vivenciamos a Igreja como uma. "

A experiência, disse o Papa, demonstrou clara afeição mútua, bem como "nosso desejo tangível por comunhão plena".

Em essência, "comunhão plena" significa uma celebração comum do sacramento da Eucaristia e, por mais que os armênios e o Vaticano tenham chegado a um acordo sobre uma ampla gama de questões, desde que começaram a dialogar formalmente na década de 70, eles ainda não chegaram lá - em partes porque no lado Católico "a comunhão plena" também inclui aceitar a autoridade do papa.

De acordo com as declarações do Papa Francisco no domingo, isso não se deve à falta de vontade de sua parte.

"Que a Igreja Armênia caminhe em paz e que a comunhão entre nós seja completa", disse ele.

"Que um ardente desejo de unidade se erga em nossos corações, uma unidade que não deve ser a submissão nem a absorção de um ao outro, mas sim a aceitação de todos os dons concedidos por Deus a cada um", afirmou.

O caminho da unidade, como o Papa sugeriu, tem uma importância especial para os jovens.

"Vamos prestar atenção à geração mais jovem, que busca um futuro livre das divisões do passado", disse.

Neste domingo, o Papa Francisco declarou: "que sigamos o chamado de Deus para a comunhão plena e aceleremos o passo em sua direção". Ele ainda acrescentou, citando uma linha da liturgia armênia sobre a extinção de escândalos, que "em primeiro lugar, a falta de unidade entre os discípulos de Cristo".

Ele encerrou com um pedido a Karekin "para abençoar a mim e à Igreja Católica e para abençoar o nosso caminho rumo à unidade plena".

Esta ênfase na unidade pareceu ser amplamente compartilhada por seus anfitriões armênios.

"Durante estes dias com o nosso irmão espiritual, o Papa Francisco, em visitas e orações conjuntas, reconfirmamos que a Santa Igreja de Cristo é uma na propagação do evangelho de Cristo no mundo, no cuidado com a criação, no posicionamento contra problemas comuns e na missão vital da salvação do homem, que é a coroa e a glória da criação de Deus", disse Karekin no final da divina liturgia de domingo.

Essa abertura reflete as relações geralmente fortes entre os vários tipos de cristãos no país.

Não somente os armênios de todos os tipos se orgulham de terem sido o primeiro Estado cristão, mas as memórias do genocídio que aconteceu em 1915 nas mãos dos turcos otomanos ainda estão gravadas na consciência nacional - massacres em que católicos, armênios ortodoxos e outros cristãos sofreram juntos.

Como disse um clérigo armênio no sábado, "quando as pessoas nos perguntam qual é a diferença entre as Igrejas Apostólica e Católica, honestamente, nós muitas vezes não sabemos o que dizer".

No entanto, por algum tempo, muitos não-católicos questionaram-se sobre ter uma unidade com Roma, alegando que isso significaria ser engolido por um papado mais forte, maior e mais poderoso. Esse pressentimento é especialmente compreensível em um lugar como a Armênia, consciente de seu tamanho e de sua relativa falta de impacto global.

Qualquer um acompanhando as cenas dos últimos três dias, no entanto, provavelmente concluiria que o resultado poderia ser precisamente o oposto: as igrejas e seus líderes que de outra forma teriam pouca voz ou influência podem reforçar drasticamente sua visibilidade e até mesmo sua permanência pela proximidade com o Papa.

Talvez esse tenha sido um ponto sobre a irrelevância do tamanho que o Papa Francisco queria ressaltar em sua visita, não tanto no discurso, mas em atos: a unidade com Roma é assim, e isso não significa ser soterrado, mas sim levantado.

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