Genocídio e martírio: Armênia e Daesh

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27 Junho 2016

Na Armênia, Francisco vai ou não falar de genocídio? A interrogação dos últimos dias, no fim, foi desfeita. No seu discurso às autoridades, assim que chegou ao país caucasiano, o papa usou a palavra. Ele a usou, mas – é preciso salientar – acrescentando de improviso ao texto escrito (por ele mesmo revisto e aprovado) e de modo incidental, até mesmo enunciando as sílabas: "Aquela tragédia, aquele ge-no-cí-di-o".

A nota é de M. Antonietta Calabrò, publicada em seu blog Just Out, 25-06-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Por quê? Naturalmente, um aspecto a se considerar é a possível reação turca que, ainda em abril 2015, tinha retirado o próprio embaixador junto à Santa Sé para protestar contra a denúncia feita então pela primeira vez pelo Papa Francisco do genocídio dos armênios, que Ancara não reconhece.

Ancara é firme sobre a questão e, no dia 3 de junho, chamou de volta o seu representante diplomático da Alemanha, depois de um pronunciamento nesse sentido pelo Bundestag.

Mas, talvez, haja um motivo diferente que levou a uma maior prudência.

Para compreender, a passagem central do discurso de Francisco do dia 24 de junho de 2016 em Yerevan é a seguinte:

"Espero vivamente que a humanidade saiba tirar dessas trágicas experiências o ensinamento a agir com responsabilidade e sabedoria para evitar os perigos de recair em tais horrores. Multipliquem-se, por isso, por parte de todos, os esforços para que, nas disputas internacionais, prevaleçam sempre o diálogo, a constante e genuína busca da paz, a colaboração entre os Estados e o assíduo compromisso das organizações internacionais, a fim de construir um clima de confiança propício à realização de acordos duradouros, que olhem para o futuro."

A quem o papa se refere? A que futuro?

Certamente, a todas as situações de conflito, mas particularmente ao foco mais perigoso daquela que o papa chamou de Terceira Guerra Mundial em pedaços, o avanço do Estado Islâmico, do Daesh.

Em âmbito internacional, a palavra "genocídio", nos últimos meses, não foi utilizada somente no âmbito do reconhecimento histórico da limpeza étnica de um século atrás "no primeiro país cristão", mas também, mais incisivamente, contra as atrocidades cometidas pelo ISIS contra os cristãos no Oriente Médio.

De fato, "genocídio" é fundamentalmente um termo legal, que contém implícita em si a referência a sanções militares ou não, de tipo internacional.

No dia 17 de março de 2016, por exemplo, o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, declarou que o que está ocorrendo entre Síria e Iraque "é um genocídio", que tem como vítimas as minorias religiosas, isto é, yazidis, cristãos e xiitas.

Kerry definiu as ações dos milicianos jihadistas como "crimes contra a humanidade", depois da aprovação unânime (393 sim, nenhum não) pela Câmara dos Representantes de uma resolução – que definia precisamente os massacres e os assassinatos com o termo "genocídio" – promovida pelo republicano Jeff Fortenberry, chegando até a hipótese de operações in loco para proteger as minorias ameaçadas.

O termo, em relação ao ISIS, foi usado pelo Vaticano apenas uma vez, no dia 10 de junho, quando quem se expressou nesse sentido foi o cardeal Jean Louis Tauran, presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso: "Sim, estou substancialmente de acordo em avaliar como genocídio o que está acontecendo com os cristãos no Oriente Médio e, em particular, na Síria e no Iraque".

"Na Terra Santa – observou Tauran – os cristãos são mortos, ameaçados, silenciados ou expulsos, com as igrejas que são destruídos ou correndo o risco de se transformarem em 'museus'."

O presidente do dicastério vaticano advertiu: "O cristianismo corre o risco de não estar mais presente justamente na terra onde nasceu a fé de Cristo. Em 1910, 20% da população médio-oriental era cristã; agora, é menos de 4%... Evidentemente, há um plano de ação para apagar o cristianismo do Oriente Médio, e isso pode ser chamado de genocídio''.

Apenas uma semana depois, no dia 17 de junho, no entanto, Francisco pareceu corrigir publicamente o camerlengo. De acordo com o papa, "genocídio é uma definição redutiva, que focaliza a questão a partir de uma ótica sociológica, e isso reduz uma realidade articulada e complexa a categorias de pura dinâmica social".

Na realidade, de acordo com Francisco, no Oriente Médio, trata-se de perseguição, "que leva os cristãos à plenitude da sua fé", de martírio e, portanto, de sacrifício da própria vida por razões de fé.

"Eu não gosto – declarou com tom severo –, e quero dizer isso claramente, quando se fala de um genocídio de cristãos no Oriente Médio. Isso é um reducionismo."

"Não façamos reducionismos sociológicos daquilo que é um mistério de fé, um martírio", advertiu. "Aqueles cristãos coptas, degolados nas praias da Líbia, todos morreram dizendo: 'Jesus, ajuda-me'."

E o Vaticano resistiu às pressões daqueles que querem o seu apoio na ONU para que seja aprovada uma moção sobre o genocídio dos cristãos.

Em poucos meses, com a troca de guarda do governo estadunidense, os ventos de guerra poderiam soprar mais ameaçadores, e Francisco não quer que as suas palavras ou as de expoentes vaticanos possam ser usadas para legitimar uma intervenção. "Not in my name."

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