Bento XVI e Francisco, uma discussão aberta entre história e teologia. Artigo de Fulvio De Giorgi

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22 Junho 2016

O artigo "A Igreja e a lógica do 'mas também'", que Aldo Maria Valli postou no seu blog no dia 28 de maio passado, abriu um debate cerrado com Andrea Grillo, no qual também se inseriu, pelo aspecto da continuidade entre os últimos dois pontificados, o historiador Fulvio De Giorgi. O texto que segue se insere nesse filão da discussão, desta vez entre De Giorgi e Grillo.

De Giorgi é professor de história da educação da Universidade de Modena e Reggio Emilia e coordenador do grupo de reflexão e proposta da associação italiana Viandanti. O artigo foi publicado no sítio da associação, 20-06-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Acerca da continuidade histórica entre o pontificado de Bento XVI e o de Francisco, Andrea Grillo comentou ainda mais o meu comentário (no jornal Avvenire) à sua discussão com Aldo Maria Valli. Agradeço-lhe pela atenção, pelo debate sereno e cordial, e também pela explicitação dos pontos de desacordo: tal explicitação é muito útil para um sério aprofundamento das questões. De minha parte, assinalado um consenso de fundo com as suas posições, parece-me útil continuar justamente no fio das questões sobre as quais temos avaliações diferentes.

Para evitar mal-entendidos

Desde já, limpo o campo de possíveis mal-entendidos: não quero fazer um discurso ideológico sobre a "continuidade", muito menos usar a continuidade para levar Francisco cronologicamente para trás e dizer que, no seu ensinamento (até a inovadora Amoris laetitia) não há nada de novo. Entendo muito bem os temores nesse sentido, porque leituras (incorretas) desse tipo existem. No entanto, eu seu entendi bem, a nossa discordância não diz respeito tanto a uma avaliação diferente da continuidade entre os dois pontificados, mas sim a uma leitura diferente do pontificado de Bento XVI (de tal leitura depende, depois, o problema da continuidade/descontinuidade).

Portanto, se Grillo se preocupa – com razão – que não haja uma interpretação caricatural de Francisco, não me parece incorreto acrescentar que, nem mesmo para Bento XVI, se pode indultar a interpretação, também esta caricatural, do "pastor alemão", fechado e antimoderno.

Deixo de lado aquilo que Grillo chama de um ponto de vista "apologético" e que, talvez, melhor, poderia ser chamado de um ponto de vista de fiel da Igreja Católica: nesse plano eu admito, pura e simplesmente, um grande afeto e uma favorável simpatia (também, é claro, no meu próprio ponto de vista) ao Papa Ratzinger: que não me impedem, no entanto, de ser um entusiasta de Francisco. Mas, aqui, eu gostaria de desenvolver três observações como historiador.

Em uma perspectiva geral e laica

Acima de tudo, na análise da história da Igreja, devemos evitar, na minha opinião, dois reducionismos unilaterais opostos. O primeiro, ao qual me parece que Grillo se subjaz, é o de ver a história da Igreja quase sob uma redoma de vidro, separada da história geral e indiferente a ela: uma espécie de autorreferencialidade interpretativa, para a qual tudo se explica por lógica interna e em relação às vicissitudes e aos problemas endoeclesiais. Isto é, trata-se de um integralismo metodológico (embora na diferença entre um integralismo reformador e um conservador).

O segundo reducionismo unilateral é exatamente o oposto: é o laicismo metodológico de quem considera apenas as dinâmicas sociológicas e psicossociais da Igreja como estrutura de poder, análoga ao Estado, às instituições civis, aos sistemas políticos. Certamente, é possível estudar apenas um desses aspectos (ou apenas os eventos intraeclesiais ou apenas o desenvolvimento das formas jurídicas de poder); eu também às vezes fiz isso, mas não se pode elevar unilateralmente cada um deles como único e absoluto critério de interpretação histórica.

É melhor vê-los juntos (e, no entanto, saber que uma perspectiva geral deve abranger ambos). Isso significa, então, considerar a evolução histórica geral das últimas décadas, ao menos desde o fim do comunismo. Eu falo de pós-moderno, de neoliberalismo (com o seu acentuado individualismo) e também de niilismo, que, a meu ver, parece estar hoje amplamente presente na cultura e até mesmo nas mentalidades generalizadas. Eu entendo que a síntese pode parecer um esquematismo, até mesmo banalizante (e então não posso deixar de referir os meus livros para uma reconstrução histórica mais analítico).

No entanto, não me parece ser um diagnóstico muito diferente daquele – que eu compartilho – de Francisco na Evangelii gaudium: "generalizada indiferença relativista, relacionada com a desilusão e a crise das ideologias" (n. 61); "sociedade materialista, consumista e individualista" com um "individualismo reinante" (n. 63); "aumento progressivo do relativismo" (n. 64); "individualismo pós-moderno e globalizado" (n. 67); "esse relativismo prático é agir como se Deus não existisse" (n. 80); "se produziu uma 'desertificação' espiritual" (n. 86).

Essa contexto problemático, que já se perfilou no declínio do pontificado de João Paulo II, emergiu com uma força até mesmo devastadora posteriormente: as formas pastorais então presentes se revelaram inadequadas; a necessidade de uma mudança, evidente. É esse contexto histórico geral que marca, necessariamente, a característica histórica dos pontificados que se inscrevem nele e que, embora dentre outros problemas, se depararam, ambos, prioritariamente, com esse desafio decisivo, que implica um difícil mas inevitável reconhecimento da "complexidade" (teórica e prática). No caso do Papa Ratzinger, vejam-se a Deus caritas est, a Caritas in veritate, o Sínodo de 2012. Veja-se, no VII Encontro Mundial das Famílias (em Milão), a clara emergência do problema dos divorciados recasados e as importantes palavras de Ratzinger: não há receitas simples (não por acaso retomadas na Amoris laetitia).

Olhar ao longo período

Segunda observação. O sentido histórico de um pontificado, isto é, o discernimento entre os aspectos historicamente mais importantes e os menos significativos, é esclarecido em um período longo que inclui antecessores, mas também sucessores: isso também para além da "consciência reflexiva" dos próprios protagonistas, embora importante ( por exemplo, no caso do Papa Francisco, parece-me – como argumentei em um recente congresso romano – decisiva a sua "relação" com Paulo VI mais do que com os seus antecessores). Mas importam também os sucessores. Eis que, aqui, Grillo – e é paradoxal – desvaloriza a consideração do Papa Francisco e do significado do seu pontificado como chave de leitura para esclarecer o sentido histórico do pontificado do seu antecessor imediato.

Explico-me com um exemplo da história, por assim dizer, "contrafactual". Vamos supor que, no conclave de 1963, Siri tivesse sido eleito – um Gregório XVII ou um Pio XIII – e que o Concílio Vaticano II tivesse sido imediatamente fechado, sem a aprovação de documentos. O que recordaríamos, como historicamente significativo, de João XXIII? A confirmação da excomunhão dos comunistas, o complexo banimento dos padres operários, a nomeação de Ottaviani como secretário do Santo Ofício, a reconfirmação do uso do latim na liturgia, o monitum em matéria bíblica e o de censura a Teilhard de Chardin, até mesmo o uso do camauro. E Grillo o repreenderia por ter colocado a preparação do Concílio, como de fato ocorreu, substancialmente nas mãos da Cúria, facilitando a "repressão" do Papa Siri.

Não aconteceu assim, nós sabemos. Mas são justamente o pontificado de Paulo VI e o êxito grandioso do Vaticano II que dão – certamente junto com as considerações históricas mais gerais – um outro e oposto (e muito verdadeiro) valor histórico ao pontificado roncalliano. Não que os aspectos antes indicados não tenham existido: mas nós os lemos como a persistência residual e final de aspectos históricos do passado, historicamente pouco significativos.

Eis, então, que o pontificado de Francisco nos ajuda a discernir os aspectos historicamente relevantes do pontificado de Bento XVI. Que, na minha opinião, e esquematizando, são os seguintes:

1. O reconhecimento (sem mais acobertamentos coniventes ou minimizações inaceitáveis) da pedofilia dos padres como sujeira na Igreja e, por isso, como "chaga da Igreja": ou seja, problema sistêmico, que inclui casos de fundadores como Maciel [dos Legionários de Cristo].

2. O contraste do niilismo (teórico) pós-moderno, entendido como ceticismo relativista, mas contraste realizado não com a tradicional rejeição do Moderno, mas sim de uma forma semelhante à de Habermas (com o qual Ratzinger dialoga): assim como Habermas busca – no kantianismo – uma resposta moderna ao pós-moderno, assim também Ratzinger a busca em grandes filosofias católicas "pró-modernas" (Rosmini e Newman, Guardini e Blondel), que são "filosofias da caridade".

3. Daí a beatificação de Rosmini (superando as condenações do Santo Ofício do fim do século XIX): leve-se em conta que todos os opositores do Vaticano II também sempre foram também opositores de Rosmini (consultem-se, ainda hoje, os sites tradicionalistas). Essa beatificação (juntamente, mas ainda mais do que a de Newman) é um evento epocal: verdadeiro ápice do pontificado.

4. Junto com esse desafio da metafísica da caridade ao niilismo, Bento XVI está ciente de que é preciso uma consequente e coerente mudança "prática" e a formula como verdadeira renovação na fé, em sentido de santidade ascética: como autossecularização da Igreja. Veja-se o discurso do dia 25 de setembro de 2011, em Friburgo (mas todos os discursos daquela viagem à Alemanha são significativos). É uma perspectiva, a meu ver, profunda e lúcida (e belíssima), mas dificilmente popularizável. Quando o Papa Ratzinger – esta é a minha leitura – se dá conta de que não tem as energias necessárias para guiar essa autossecularização eclesial, passa a bola.

5. A esse propósito, falar de "tomar a iniciativa de perder a iniciativa", parece-me (além de não generoso), minimizante e não adequado para a compreensão histórica. Sem dúvida alguma, tratou-se de um gesto "revolucionário" (que não tem precedentes históricos modernos, mas que – para qualquer historiador – é um verdadeiro "unicum" absoluto): para usar, laicamente, as categorias weberianas, ele transforma o poder papal de tradicional-carismático em racional-carismático. É a forma que reabre ao relançamento em grande estilo do Vaticano II (é impensável uma renúncia, não desestabilizadora, ao ministério petrino, senão no pleroma colegial da eclesiologia do Vaticano II).

Um andamento "stop and go"

E eis-nos na terceira consideração histórica. Quem conhece a história da Igreja sabe bem que, a épocas de grande reforma, sucederam-se progressivamente fases de desaceleração, até o semi-imobilismo (Rosmini distinguia entre "épocas de marcha" e "épocas de estação"). Isso também aconteceu com a "reforma católica" do Concílio de Trento. E, então, houve momentos em que, a partir de dentro da Igreja e de modo não polemicamente hostil à sua hierarquia, místicos ou pastores, religiosos ou leigos relembraram a necessidade de relançar o movimento reformador: os historiadores falam, portanto, de momentos de "retomada tridentina".

Parece-me um dado histórico claro que tenha acontecido a mesma coisa com o Concílio Vaticano II. Progressivamente, o impulso reformador abrandou até quase parar totalmente. E quando começaram a emergir as primeiras vozes que relembravam a necessidade de retomar a reforma conciliar? Parece-me precisamente com o pontificado de Bento XVI. Certamente, eram vozes minoritárias e marginalizadas (mas não condenadas), que, com esforço – e não sem hostilidade para com elas –, conseguiam se expressar. Mas falavam, expressavam desconforto, relembravam a necessidade de um relançamento do Concílio e, às vezes, citavam justamente o papa.

Eu admito que não fiz pesquisas empíricas sobre esse aspecto e me baseio em impressões e recordações. Mas reivindico o fato de poder dizer algo por "conhecimento pessoal", de trazer ao menos um testemunho, remetendo a documentos escritos específicos (o meu livro Il brutto anatroccolo de 2008 e o posterior Più coraggio! de 2015, mas que reúne intervenções anteriores). Aqui, eu deveria me autocitar largamente, e certamente não é esse o caso. Gostaria apenas de lembrar que, na minha palestra no VII Encontro Mundial das Famílias em 2012, dentre outras coisas, eu afirmei: "As questões atinentes à sexualidade de casal, às diferenças de gênero, à discriminação homofóbica desenvolvem-se tanto como demanda por novos modelos familiares, quanto como forte interpelação à Igreja para que repense seriamente as formas do sacramento do matrimônio (incluindo as questões da sexualidade pré-matrimonial e matrimonial), o regime dos divorciados recasados, a possibilidade do acesso ao matrimônio para os sacerdotes e ao sacerdócio para os conjugados, realidades institucionais e canônicas novas, como as de um ministério ordenado feminino ou de coabitação entre pessoas do mesmo sexo".

Faço uma emenda: eu deveria ter falado de sacerdócio ministerial. Mas, no entanto, o significado era claro. Na realidade, se eu olhasse autobiograficamente para esses fatos, deveria dizer que o clima de fechamento prevalecente levava a pagar um preço (mais ou menos alto) para quem pronunciasse juízos desse tipo. Mas se, em vez disso, com uma autotranscendência, eu tento olhar para as coisas em perspectiva histórica, devo notar que, durante o pontificado de Bento XVI, foram expressadas exigências que encontrariam uma plena resposta (positiva) no pontificado posterior.

Em conclusão, pergunto-me se, talvez, também não seria o caso de considerar como Francisco se coloca subjetivamente: não em relação ao papa emérito – portanto, na chave unicamente pessoal do afeto –, mas em relação ao magistério do seu antecessor e ao seu pontificado. Uma resposta, talvez, está na Lumen fidei: ao decidir publicá-la, assumi-la (com integrações de seu próprio punho) e assiná-la.

Uma interrogação como simples fiel

Termino com uma pergunta – não como historiador, mas como fiel "de base" e de paróquia como eu sou – ao amigo Grillo, que mostra que tem por Francisco sentimentos e pensamentos não diferentes dos meus. Se é injusto (e não é católico) que aqueles que se sentem próximos do magistério de Ratzinger e se sentem ratzingerianos desvalorizem e critiquem o Papa Bergoglio e não se esforcem, de boa fé, por entendê-lo, mas, ao contrário, contrapõem Ratzinger a Bergoglio, não é igualmente injusto que aqueles que se sentem em sintonia com Bergoglio desvalorizem e critiquem Bento XVI e o contraponham a Francisco?

Na minha opinião (e de acordo com o meu sensus Ecclesiae, não sei se "apologético", como diz Grillo), os primeiros fazem um mau serviço ao Papa Ratzinger e obstaculizam um julgamento histórico equânime do seu pontificado, mas os segundos também, temo, não fazem um bom serviço a Bergoglio. Digo isso com simplicidade e simpatia amigável, não quero me achar um mestre: acredito, apenas, que todos faríamos bem se alimentássemos um pertencimento cordial à Igreja.

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