Às vésperas do Concílio de Creta, sob o sinal da etimasia

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20 Junho 2016

Um detalhe do logotipo do Santo e grande Concílio chama a atenção: no trono da etimasia, está deposto um manto. É o manto de justiça, do qual Cristo se revestirá para pronunciar o seu juízo, em grego, krisis. O dia 20 de junho, certamente, para a Igreja Ortodoxa, no sentido etimológico do termo, será um momento crítico.

A opinião é do dominicano francês Hyacinthe Destiville, professor do Institut Catholique de Paris e do Institut Supérieur d'Études Oecuméniques. É membro do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos e do Comitê Misto de Diálogo Teológico Católico-Ortodoxo da França.

O artigo foi publicado no jornal L'Osservatore Romano, 19-06-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O logotipo do Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoxa é o ícone da etimasia (do grego, hetoimasía), a "preparação" do trono. A imagem representa um trono vazio que simboliza a espera, por parte da Igreja, do retorno de Cristo no fim dos tempos, um tema escatológico muito antigo, particularmente caro à iconografia bizantina.

Esse célebre ícone também pode ser lido como um símbolo da Santíssima Trindade: o trono se refere ao Pai; o livro dos Evangelhos posto sobre o trono representa o Filho; acima, há uma pomba, símbolo do Espírito Santo. No marco circular que encerra a imagem, estão representadas 14 cruzes brancas, que indicam as 14 Igrejas ortodoxas autocéfalas.

Não se podia encontrar uma imagem mais adequada para simbolizar o Concílio que será aberto em Creta no dia 20 de junho, depois da celebração da solenidade ortodoxa do Pentecostes: um Concílio de "preparação", justamente, que deveria lançar as primeiras bases de uma sinodalidade reforçada das Igrejas ortodoxas, na espera de que, com a ajuda do Espírito Santo, todas possam participar dele.

Os últimos preparativos do Concílio foram realizadas no dia 17 de junho com a "pequena sinaxe" dos 10 primazes que se dirigiram, nesses últimos dias, à cidadezinha cretense de Kolymbari, que se tornou por alguns dias o centro da Ortodoxia mundial. Depois se terem se reunido para uma oração de doxologia no mosteiro de Gonia, os primazes, cada um acompanhado por dois bispos, chegaram à vizinha Academia Ortodoxa. O encontro, que tinha sido programado durante a última sinaxe de janeiro passado em Chambésy, teve como objetivo principal o de examinar a agenda do próximo Concílio, assim como o rascunho da mensagem final, preparada entre os dias 9 e 16 de junho por uma comissão especial.

Essa comissão especial, no seu comunicado do dia 11 de junho, afirmou que "a mensagem não só terá um impacto sobre a Igreja Ortodoxa no seu conjunto, mas também marcará uma etapa histórica na história do cristianismo". Levando-se em conta as incertezas que pesam sobre a adoção de diversos documentos pré-conciliares – em particular os mais controversos, sobre as relações com os outros cristãos e sobre o matrimônio – é provável que essa mensagem final seja, efetivamente, um dos frutos importantes do Concílio.

A sinaxe também foi uma ocasião para recordar a ausência de diversas Igrejas ortodoxas. Segundo o comunicado do escritório de imprensa do Concílio, os primazes, nos seus debates, declararam, "que estão descontentes com a ausência do Patriarcado de Antioquia e das Igrejas da Rússia, da Bulgária e da Geórgia" e "fizeram orações para que o Espírito Santo as inspire a participar do Concílio".

Com base nas informações do site oficial da Igreja Ortodoxa Sérvia, o patriarca sérvio Irineu, em particular, expressou o desejo de que os representantes das Igrejas ausentes possam se unir à celebração do Pentecostes, no domingo, na Catedral de São Mena, em Heraklion. A sinaxe, então, pediu que o Patriarca Ecumênico contate os primazes dessas Igrejas para renovar o seu convite.

Durante a sinaxe, também foi lida a mensagem do Patriarca de Moscou, Kyrill, dirigida naquele mesmo dia "aos primazes e aos representantes das Igrejas ortodoxas locais reunidas na ilha de Creta". Kyrill escreve: "Não devemos nos deixar perturbar pelo fato de que os pareceres das Igrejas irmãs sobre a convocação do Santo e Grande Concílio foram discordantes", e, citando as palavras do apóstolo Paulo, acrescenta: "É necessário que ocorram divisões entre vocês, para que se manifestem aqueles que são os verdadeiros crentes no meio de vocês" (1Coríntios 11, 19).

Com efeito, "as Igrejas, tanto aquelas que decidiram ir a Creta, quanto aquelas que se abstiveram, tomaram a decisão em consciência, por isso é bom considerar a sua posição com respeito".

De sua parte – explica o patriarca Cirilo – a Igreja Ortodoxa Russa "sempre se baseou na convicção de que a voz de cada Igreja ortodoxa local, pequena ou grande, antiga ou recente, não deve ser ignorada".

Pois bem, "a falta de acordo da Igreja de Antioquia à convocação do Concílio significa que não chegamos a um consenso pan-ortodoxo". Além disso, "não podemos ignorar as vozes das Igrejas da Geórgia, da Sérvia e da Bulgária, que se pronunciaram a favor de um adiamento da data do Concílio".

No entanto – prossegue o Patriarca de Moscou – "com um pouco de boa vontade, o encontro de Creta pode ser um passo importante para a resolução das polêmicas existentes". Na realidade, "pode dar a sua contribuição para a preparação desse Santo e Grande Concílio que vai unir todas as Igrejas ortodoxas autocéfalas locais, sem qualquer exceção, e será o reflexo da unidade da Santa Igreja Ortodoxa de Cristo", conclui Kyrill, antes de assegurar aos primazes a sua oração durante os próximos "dias de trabalho".

É interessante notar que, na mensagem, o Patriarca de Moscou não utiliza a palavra "Concílio" para designar a próxima assembleia e não parece, portanto, considerar que o Santo e Grande Concílio pode se reunir sem a totalidade das Igrejas ortodoxas. No entanto, devemos nos alegrar com o fato de que, apesar das dificuldades, os contatos entre as Igrejas irmãs ortodoxas prosseguem ativamente. No fim das contas, até mesmo as trocas de mensagens entre os primazes das Igrejas fazem parte da conciliaridade.

Essa conciliaridade é vivida e expressada, acima de tudo, na liturgia eucarística celebrada cotidianamente. Os primazes das Igrejas autocéfalas concelebraram a Divina Liturgia no dia 18 de junho, em torno do Patriarca Teodoro II, de Alexandria, segundo por cargo nos dípticos, na Igreja da Anunciação de Kissamos, não muito longe de Chania.

No domingo, 19, concelebram a liturgia de Pentecostes na Catedral de São Mena de Heraklion, igreja primacial em Creta, sob a presidência do Patriarca Ecumênico Bartolomeu (1)  O ofício será seguido de um almoço oferecido pelo presidente da República helênica, Prokópis Pavlópoulos. Por fim, no dia 20 de junho, na Academia Ortodoxa de Creta, será aberto o Concílio, preparado e esperado há muito tempo.

Um detalhe do logotipo do Santo e Grande Concílio chama a atenção: no trono da etimasia, está deposto um manto. É o manto de justiça, do qual Cristo se revestirá para pronunciar o seu juízo, em grego, krisis. O dia 20 de junho, certamente, para a Igreja Ortodoxa, no sentido etimológico do termo, será um momento crítico.

Nota da IHU On-Line:

1. - A homilia proferida pelo Patriarca Bartolomeu, no domingo de Pentecostes, 19 de junho de 2016, pode ser lida na íntegra, em grego, francês e inglês, clicando aqui.

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