Um jesuíta no Japão: a história do missionário que se disfarçou de samurai

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13 Junho 2016

Ele tinha chegado ao Japão ilegalmente, de Manila, em 1708. Tinha se disfarçado de samurai – um dos muitos truques que os missionários cristãos utilizavam para evitar serem reconhecidos – e andava pelos campos em torno de Kagoshima, o mesmo porto de desembarque de Francisco Xavier, quando um agricultor, não entendendo a sua língua, denunciou-o às autoridades, desmascarando-o.

A reportagem é de Cristian Martini Grimaldi, publicada no jornal L'Osservatore Romano, 08-06-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Estamos falando do jesuíta Giovanni Battista Sidotti, que morreu em 1714, um dos últimos missionários cristãos que atuou sob o xogunato Tokugawa, e cujos restos mortais foram recentemente identificados pelas autoridades do bairro Bunkyo, em Tóquio, que, em abril passado, anunciaram a sua descoberta.

Os pesquisadores do Museu Nacional da Natureza e das Ciências realizaram as análises de DNA, além de uma análise antropológica, e concluíram que os restos pertenciam a um homem de meia-idade, com mais de 1,70 metro e italiano. Com base nas semelhanças físicas e em outras provas de tipo documental, estabeleceram que se tratava do missionário da Sicília.

Akio Tanigawa, professor de arqueologia da Universidade Waseda, que liderou a equipe de investigação, disse que as autoridades de Tóquio anunciaram a sua descoberta com base em testes forenses de três séries de achados escavados em julho de 2014, no local onde antes ficava a "residência dos cristãos", ou seja, o lugar onde eram presos aqueles que eram pegos praticando o culto estrangeiro. Como se sabe, o Japão, naquela época, proibia a prática do culto cristão.

Eis a entrevista.

Como os achados vieram à tona?

No lugar da escavação, despontava o dormitório para os empregados de uma empresa japonesa, e há dois anos ela foi destruída completamente para dar lugar a um edifício de apartamentos. Naquele ponto, os restos mortais que se encontravam a apenas um metro abaixo do solo foram trazidos à luz. Junto com os restos de Sidotti, também foram encontrados os de dois japoneses, um homem e uma mulher, ou seja, as duas pessoas que tinham sido atribuídas para os seus cuidados durante a sua "estadia" naquela residência. Durante sua estada em Edo, Sidotti tinha conseguido converter o casal ao cristianismo. E foi justamente essa descoberta por parte das autoridades que o condenou.

Como mudou a sua condição antes e depois da descoberta dessa conversão por parte das autoridades?

Ele foi imediatamente transferido para uma cela de isolamento. Nesse ponto, a qualidade e a quantidade das suas rações alimentares mudou drasticamente. Antes, de fato, ele gozava de uma ótima saúde, sinal de que a sua comida era de bom nível. Sidotti morreu de fome justamente depois dessa passagem crucial.

Se os japoneses conhecem Sidotti, isso se deve principalmente a um livro, escrito por Arai Hakuseki, ou seja, uma das pessoas com as quais ele teve mais contatos.

Arai Hakuseki, nascido em 1657 e falecido em 1725, estudioso e político, isto é, conselheiro do xogunato Tokugawa, publicou as suas conversas com o missionário italiano na sua obra intitulada Seiyo Kibun. Nesse texto, Hakuseki descreve os vários aspectos do mundo ocidental. Em particular, os dois discutiam muito sobre temas científicos, astronomia e física, mas também de religião. Hakuseki estava muito interessado no cristianismo, mas discutia a respeito em termos estritamente racionais, lógicos, e, por isso, não compreendia os seus fundamentos.

Em que medida a presença de Sidotti em Edo contribuiu para a abertura do Japão à cultura ocidental?

Por exemplo, depois da sua morte, recomeçou-se a traduzir livros de ciência e astronomia ocidental, não os religiosos, obviamente, mas mesmo esse fato é indicativo da influência que tiveram aquelas conversas entre Sidotti e Hakuseki para modificar a atitude do xogunato, em um sentido menos integralista, em relação à cultura europeia. Na "residência cristã" de Edo, constatou-se que apenas duas pessoas se hospedaram lá, e são dois italianos, Giovanni Sidotti, precisamente, e Giuseppe Chiara. Chiara é famoso principalmente porque foi tomado como modelo de Shusaku Endo no seu romance Silêncio, em que se descrevem as dificuldades dos primeiros missionários e fiéis cristãos no Japão justamente durante o período de Edo, que vai de 1603 a 1867. No entanto, Chiara teve uma vida muito longa e morreu aos 84 anos, em comparação com os 47 de Sidotti.

A partir dos restos mortais de Sidotti, esperam-se novas descobertas para o futuro?

Analisamos os seus restos mortais para entender especificamente do que era composta a sua dieta, e, como reconstruímos com a tecnologia 3D toda a massa craniana, o lado esquerdo, de fato, parecia faltar inteiramente. Talvez, no futuro, também poderemos reconstruir como se parecia o rosto do missionário.

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