Uma Igreja do "mas também"? Os ideais de um catolicismo simplificado. Artigo de Andrea Grillo

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02 Junho 2016

Somos filhos de uma história muito mais complexa, que não deve se envergonhar da sua "maravilhosa complicação". Um catolicismo simplificado não ajuda a viver. Ou, melhor, às vezes, pode chegar até a agredir a vida! Graças a essa tradição não simplificada – que, em todo o caso, depois do Vaticano II se afirmou, apesar de tudo – pudemos logo reconhecer Francisco como papa e – também graças a ele – podemos agora discutir, com liberdade e respeito, os seus estilos e linguagens.

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, leigo casado, professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, de Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, de Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua.

O artigo foi publicado no seu blog Come Se Non, 31-05-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Com bela sinceridade, Aldo Maria Valli escreveu as suas perplexidades sobre as "aberturas" do Papa Francisco, fotografando-as, substancialmente, como um perigoso "cedimento às lógicas mundanas". Sem querer, desse modo, Valli parece se inclinar – embora com muita circunspecção e com o benefício da dúvida – com aqueles que preferem uma Igreja autorreferencial em relação a uma Igreja em saída. Se sair, a Igreja corre o risco de se enfiar diretamente na toca do lobo... enquanto se tranca com duas voltas...

Eu acredito que, nas palavras de Valli, expressam-se, com dignidade e com equilíbrio, alguns preconceitos históricos da Igreja Católica dos séculos XIX e XX. Devemos considerá-los e responder a eles com igual honestidade e clareza, se formos capazes.

Tento concentrar a minha atenção no coração da argumentação de Valli, que assinala justamente a passagem de uma lógica do "aut-aut" a uma lógica de "et-et", que, no entanto, na sua opinião, corre o risco de ser compreendida como lógica do "não, mas também sim". Enquanto o et-et salvaguardaria a complexidade, integrando o novo, a lógica do "sim, mas também não" relativizaria tudo, banalizando tudo.

Aqui, parece-me, coloca-se o ponto preconceituoso do raciocínio de Valli. Como o et-et pode degenerar em "sim, mas também não", então, pareceria melhor se manter na "fortaleza" do aut-aut. Aqui está o ponto fraco do raciocínio, em que a inércia da nostalgia e da presunção, a partir da qual todos nós viemos nos últimos 30 anos, corre o risco de produzir, de fato, uma aliança do medo e de criar uma barreira defensiva à aceitação da complexidade.

O Vaticano II já tinha indicado, com absoluta clareza, que esse caminho – que poderíamos dizer "do antimodernismo" – já estava definitivamente excluído. Fazer valer um "objetivo" em oposição ao "subjetivo" não tem futuro algum. Ilude apenas aqueles que não acreditam nisso. Não aprendemos ainda, 50 anos depois? Deixamo-nos persuadir pelas táticas e estratégias de imunização da complexidade, postas em campo nos últimos 30 anos? Aqui, parece-me que Valli, de quem eu sinceramente admiro a franqueza, continua sendo vítima de um modelo nostálgico e pré-moderno de Igreja, que não fascina só ele, evidentemente, mas do qual me parecia que ele tinha se distanciado, em diversas ocasiões.

É óbvio que as leituras dessa "novidade" – que não é o modernismo em lugar do antimodernismo, mas é outro modo de abordar a questão – podem ser totalmente distorcidas, e que o "mundo" as mistura à sua própria maneira. Mas talvez isso nos deveria fazer hesitar? Uma leitura redutiva da profecia nos incomoda, talvez? Se o Pai sai para acolher o filho mais novo, somos obrigados, justamente, a nos associar, todos, ao escândalo do filho mais velho? Sentimo-nos constrangidos com um papa que leva a sério o "sujeito"? Estamos condenados, justamente, a ter esquemas mentais que leiam o sujeito como subjetivismo, a liberdade como liberalismo e o moderno como modernismo? Ainda somos vítimas desses paradigmas elaborados há mais de um século e que há 80 anos já estavam em crise?

Se o pontificado de Francisco, há mais de três anos, levou a sério a complexidade – a ponto de chamá-la de "maravilhosa complicação" –, deveríamos, talvez, temer que isso nos complica a vida e a cabeça? Não seria o caso, talvez, de que essa "simplificação" da tradição, à qual estamos tão ligados, corresponde ao nosso modo burguês de viver a fé no centro da Europa, perturbados apenas pelos migrantes em ataque e pelas ofertas especiais das grandes lojas? Não seria o caso, talvez, de que a vigilância deve ser exercida não apenas sobre o "mas também", mas sobre a contínua tentação de nos refugiar no aut-aut do imobilismo e do medo? Por que não há nada melhor do que nos refugiar, no nosso mundo eurocêntrico, na consciência de uma fé "totalmente outra", que nos pede coisas "totalmente outras" e que afronta a nossa liberdade, negando-a, quase violentando-a, mas produzindo apenas fundamentalismo? Pois bem, com essa redução da profecia ao "totalmente outro", podemos nos consolar com a nossa impotência e esculpir formas de vida totalmente autossuficientes.

A questão levantada por Valli, portanto, é fundamental. Mas não diz respeito aos "riscos" do estilo pontifical de Francisco, mas, ao contrário, aos riscos de uma incompreensão sua. Francisco reintroduziu um estilo autenticamente católico do "et-et", redescobrindo o primado do tempo sobre o espaço e da realidade sobre a ideia. Isso não significa, de fato, renunciar nem aos necessários enraizamentos, nem às boas ideias, mas pensá-las e promovê-las no contexto de uma "sociedade aberta", sem idealizar nem mesmo esse tipo de sociedade, mas reconhecendo-a abertamente como marcada, até mesmo fortemente, pela "cultura do descarte".

O que eu temo, no discurso proposto com honestidade por Valli, é que ele pode se basear em um equívoco: ou seja, na hipótese de que a Igreja pode anunciar o Evangelho ficando fora da cultura contemporânea e olhando-a, por assim dizer, de fora e de cima. Essa é a raiz de todo antimodernismo.

Sem ser modernista, o Concílio Vaticano II nos ensinou a não confiar mais nessa solução "antimodernista". Por isso, foi acusado de "modernismo", não só por Lefebvre. Por isso, hoje, corremos o risco de fazer o mesmo com Francisco. Como ele leva a sério o desafio de uma condição cultural e social em que a liberdade dos sujeitos e a consciência dos indivíduos não podem ser contornadas, parece-nos que ele é condescendente demais com as lógicas relativistas, e, por isso, não gostamos mais dele. Ainda sonhamos, talvez, com uma Igreja em que as relações são simplesmente opcionais? Ou com uma autoridade que simplesmente se impõe?

Sobre esse ponto, que é visceral, o texto de Valli me deixa perplexo e levanta outra pergunta: o que Valli responderia à senhora luterana? Ou ao casal em segunda união? E, por fim, não é de se admirar que Valli cite um discurso de Bento XVI de 2010 sobre o tema da consciência. Porque, justamente naquele texto, fica evidente como aquilo que, para Bento XVI, é um problema, para Francisco é uma oportunidade.

Por outro lado, o modo apologético com que Bento XVI usava as notas – citando até Nietzsche, mas apenas para demonstrar que, em uma carta à irmã, ele entendia equivocadamente o termo "fé" – e como Francisco as usa – valorizando até pensadores ou filmes não católicos – demonstram uma abordagem diferente à cultura contemporânea. O primeiro principalmente desconfiava, enquanto o segundo também tem sempre alguma coisa a aprender... eis uma diferença sobre a qual Valli não se detém, correndo o risco de permanecer vítima do preconceito antimoderno, que julga a relação com a consciência e com a liberdade quase em contumácia.

Por outro lado, parece-me que o critério com que Valli escolheu os exemplos demonstra precisamente essa dificuldade fundamental. O que a sua hermenêutica interpreta como "não, mas também sim" é a banalização de um princípio moral do discernimento, que talvez se gostaria de excluir, para tornar a realidade mais "confiável" e menos complexa. Se, além disso, ao lado de questões sérias, colocam-se questões muito menos sérias – como  a coexistência de um papa que exerce o ministério com um papa que renunciou a tal exercício –, então fica evidente que, justamente a partir da série de exemplos, emerge a lógica de fundo: a nostalgia dos bons velhos tempos em que os papas não renunciavam, os católicos e os luteranos não se casavam entre si, os cônjuges não se divorciavam, e as religiões se ignoravam ou se combatiam. Essa, sim, era uma Igreja séria, branca ou preta, toda "sim, sim e não, não"!

O verdadeiro problema não é que o papa caminhe segundo o Concílio Vaticano II, mas que no povo de Deus – mas especialmente naqueles que deveriam interpretá-lo – se leia o et-et na forma desgraçada de um "não, mas também sim" muito confuso.

Eu acredito que Valli fez bem em dizer abertamente a sua reação. Não é preciso esconder as emoções. Não seria mal se as argumentações, que ele expôs com sinceridade, fossem postas à prova da nossa tradição e cultura comuns. Que não só é a antimodernista dos séculos XIX e XX.

Se Deus quiser, somos filhos de uma história muito mais complexa, que não deve se envergonhar da sua "maravilhosa complicação". Um catolicismo simplificado não ajuda a viver. Ou, melhor, às vezes, pode chegar até a agredir a vida!

Graças a essa tradição não simplificada – que, em todo o caso, depois do Vaticano II se afirmou, apesar de tudo – pudemos logo reconhecer Francisco como papa e – também graças a ele – podemos agora discutir, com liberdade e respeito, os seus estilos e linguagens.

Só essa discussão já poderia atestar com eficácia que não nos abaixamos a um "não, mas também sim," mas estamos subindo novamente de um "aut-aut" simplificado a um "et-et" inevitavelmente complicado.

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