Amoris laetitia: "É o caos erigido a princípio com um canetaço". Entrevista com Robert Spaemann

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02 Maio 2016

O professor Robert Spaemann, 89 anos, considerado um grande conselheiro de São João Paulo II, coetâneo e amigo de Joseph Ratzinger, é professor emérito de filosofia da Ludwig-Maximilians-Universität de Munique, Alemanha. É um dos maiores filósofos e teólogos católicos alemães. Vive em Stuttgart. O seu último livro publicado na Itália é "Deus e o mundo Uma autobiografia em forma de diálogo", publicado pela editora Cantagalli em 2014. Nesta entrevista, ele faz uma interpretação distintamente crítica da exortação apostólica Amoris laetitia, do Papa Francisco.

A reportagem é de Anian Christoph Wimmer, publicada na edição alemã do sítio Catholic News Agency, 28-04-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Robert Spaemann é autor do livro Felicidade e Benevolência. Ensaio sobre Ética, publicado em 1996, por Edições Loyola, na coleção Filosofia.

Eis a entrevista.

Professor Spaemann, o senhor acompanhou com a sua filosofia os pontificados de João Paulo II e de Bento XVI. Muitos fiéis hoje se perguntam se a exortação pós-sinodal Amoris laetitia, do Papa Francisco, pode ser lida em continuidade com o ensinamento da Igreja e desses papas.

Para a maior parte do texto, isso é possível, embora a sua linha dê espaço a conclusões que não podem ser compatibilizadas com o ensinamento da Igreja. Em todo o caso, o artigo 305, junto com a nota 351, em que se afirma que os fiéis "no meio de uma situação objetiva de pecado" podem ser admitidos aos sacramentos "por causa de fatores atenuantes" contradiz diretamente o artigo 84 da Familiaris consortio de João Paulo II.

O que João Paulo II trazia no coração?

João Paulo II declara a sexualidade humana como "símbolo real da doação de toda a pessoa" e, mais precisamente, como "uma união não temporária ou 'à experiência'". No artigo 84, ele afirma, portanto, com toda a clareza, que a divorciados recasados, se desejam ter acesso à comunhão, devem renunciar aos atos sexuais. Uma mudança na práxis da administração dos sacramentos não seria, portanto, "um desenvolvimento" da Familiaris consortio, como o cardeal Kasper acredita, mas uma ruptura com o seu ensinamento fundamental, no plano antropológico e teológico, em relação ao matrimônio e à sexualidade humana.

A Igreja não tem o poder, sem que haja uma conversão anterior, de avaliar positivamente as relações sexuais, mediante a administração dos sacramentos, dispondo com antecedência da misericórdia de Deus. E isso continua sendo verdade, independentemente de qual seja o julgamento sobre essas situações, tanto no plano moral quanto no humano. Nesse caso, assim como para o sacerdócio feminino, a porta está fechada aqui.

Não se poderia objetar que as considerações antropológicas e teológicas citadas pelo senhor talvez sejam verdadeiras, mas que a misericórdia de Deus não está ligada a tais limites, mas se conecta à situação concreta de cada pessoa individual?

A misericórdia de Deus diz respeito ao coração da fé cristã na Encarnação e na Redenção. Certamente, o olhar de Deus envolve cada pessoa individual na sua situação concreta. Ele conhece cada pessoa individual melhor do que ela mesma se conhece. A vida cristã, porém, não é uma preparação pedagógica em que nos movemos em direção ao matrimônio como em direção a um ideal, assim como ela parece ser apresentada em muitas passagens da Amoris laetitia. Todo o âmbito das relações, particularmente daquelas de caráter sexual, tem a ver com a dignidade da pessoa humana, com a sua personalidade e liberdade. Tem a ver com o corpo como "templo de Deus" (1Cor 6, 19). Toda violação desse âmbito, por mais que possa ter se tornado frequente, portanto, é uma violação da relação com Deus, à qual os cristãos sabem que são chamados; é um pecado contra a sua santidade, e sempre e continuamente precisa de purificação e conversão.

A misericórdia de Deus consiste justamente no fato de que essa conversão é possibilitada continuamente e de novo. Certamente, ela não está ligada a determinados limites, mas a Igreja, de sua parte, é obrigada a pregar a conversão e não tem o poder de superar os limites existentes mediante a administração dos sacramentos, violentando, assim, a misericórdia de Deus. Isso seria presunçoso. Portanto, os clérigos que se atêm à ordem existente não condenam ninguém, mas levam em consideração e anunciam esse limite em direção à santidade de Deus. É um anúncio salutar.

Acusá-los injustamente, por isso, de "esconder-se por detrás dos ensinamentos da Igreja" e de "sentar-se na cátedra de Moisés (...) para atirar pedras contra a vida das pessoas" (n. 305) é algo que eu não quero nem comentar. Note-se, apenas de passagem, que aqui a passagem evangélica é aludida de forma enganosa. Jesus diz, de fato, sim, que os fariseus e os escribas se sentam na cátedra de Moisés, mas salienta expressamente que os discípulos devem praticar e observar tudo o que eles dizem, mas não devem viver como eles (Mt 23, 2).

O papa quer que não nos concentremos em frases individuais da sua exortação, mas que se leve em conta toda a obra no seu conjunto.

Do meu ponto de vista, concentrar-se nas passagens citadas é totalmente justificado. Diante de um texto do magistério papal, não podemos esperar que as pessoas se alegrem com um belo texto e ignorem as sentenças decisivas, que mudam de forma substancial o ensinamento da Igreja. Nesse caso, há apenas uma clara decisão entre o sim e o não. Dar ou não dar a comunhão: não há meio termo.

O Papa Francisco, no seu texto, repete que ninguém pode ser condenado para sempre.

Acho difícil de entender o que ele quer dizer. É claro que à Igreja não é lícito condenar pessoalmente ninguém, muito menos eternamente – o que, graças a Deus, nem mesmo se pode fazer. Mas, quando se trata de relações sexuais que contradizem objetivamente o ordenamento de vida cristão, então eu realmente gostaria de saber do papa depois de quanto tempo e em que circunstâncias uma conduta objetivamente pecaminosa muda para uma conduta agradável a Deus.

Aqui, portanto, realmente se trata de uma ruptura com a tradição do ensinamento da Igreja?

O fato de que se trata de uma ruptura é algo que fica evidente a qualquer pessoa capaz de pensar e que leia os textos em questão.

Como foi possível chegar a essa ruptura?

Já se tinha visto que Francisco se coloca a uma distância crítica em relação ao antecessor João Paulo II quando ele o canonizou junto com João XXIII, no momento em que considerou como supérfluo, para este último, o segundo milagre que, ao contrário, é canonicamente exigido. Muitos, com razão, perceberam essa escolha como manipuladora. Parecia que o papa queria relativizar a importância de João Paulo II. O verdadeiro problema, porém, é uma influente corrente da teologia moral, já presente entre os jesuítas no século XVII, que defende uma mera ética situacional.

As citações de Tomás de Aquino produzidas pelo papa na Amoris laetitia parecem sustentar essa linha de pensamento. Aqui, porém, ignora-se o fato de que Tomás de Aquino conhece atos objetivamente pecaminosos, para os quais não admite qualquer exceção ligada às situações. Entre estas, incluem-se também as condutas sexuais desordenadas. Como já fizera nos anos 1950 com o jesuíta Karl Rahner, em um discurso seu que contém todos os argumentos essenciais, ainda hoje válidos, João Paulo II recusou a ética da situação e a condenou na sua encíclica Veritatis splendor.

A Amoris laetitia também rompe com esse documento magisterial. A esse propósito, além disso, não nos esqueçamos de que foi João Paulo II que colocou como tema do seu próprio pontificado a misericórdia divina, que lhe dedicou a sua segunda encíclica, que descobriu em Cracóvia o diário da Ir. Faustina e, em seguida, a canonizou. Ele é o seu intérprete autêntico.

Que consequências o senhor vê para a Igreja?

As consequências já podem ser vistas agora. Crescem a incerteza, a insegurança e a confusão: das Conferências Episcopais até o último pároco na selva. Apenas alguns dias atrás, um sacerdote do Congo me expressou todo o seu desconforto diante desse texto e da falta de indicações claras. De acordo com as passagens correspondentes da Amoris laetitia, na presença de "circunstâncias atenuantes" não mais bem definidas, podem ser admitidos à absolvição dos pecados e à comunhão não só os divorciados recasados, mas todos aqueles que vivem em qualquer "situação irregular", sem que devam se esforçar para abandonar a sua conduta sexual e, portanto, sem a plena confissão e sem conversão.

Cada sacerdote que se atenha ao ordenamento sacramental em vigor poderia sofrer formas de intimidação por parte dos próprios fiéis e ser posto sob pressão pelo próprio bispo. Roma pode agora impor a diretriz segundo a qual serão nomeados apenas bispos "misericordiosos", que estejam dispostos a suavizar a ordem existente. O caos foi erguido a princípio com um canetaço. O papa deveria saber que, com tal passo, ele divide a Igreja e a leva a um cisma. Esse cisma não residiria na periferia, mas no próprio coração da Igreja. Que Deus nos livre disso.

Uma coisa, porém, me parece certa: aquela que parecia ser a aspiração deste pontificado – que a Igreja supere a própria autorreferencialidade, para ir ao encontro das pessoas com coração livre –, com este documento papal, foi aniquilado por um tempo imprevisível. Devemos esperar um impulso secularizador e uma nova redução do número dos sacerdotes em grandes partes do mundo. Pode-se facilmente verificar, há algum tempo, que os bispos e as dioceses com uma atitude inequívoca em matéria de fé e de moral têm o maior número de vocações sacerdotais. Devemos recordar, aqui, aquilo que São Paulo escreve na Carta aos Coríntios: "Se a trombeta produzir um som confuso, quem se preparará para a guerra?" (1Cor 14, 8).

O que vai acontecer agora?

Cada cardeal individual, mas também cada bispo e sacerdote é chamado a defender no próprio âmbito de competência o ordenamento sacramental católico e a professá-lo publicamente. Se o papa não está disposto a introduzir correções, caberá ao pontificado posterior colocar novamente as coisas no seu lugar oficialmente.

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