A caminhada implicada em “Amoris Laetitia” pode jamais terminar

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13 Abril 2016

O documento papal sobre a Igreja Católica e a família moderna que o Vaticano divulgou semana passada é a culminância de dois anos de debates francos na Igreja. Ele seria uma boa oportunidade de o Papa Francisco resolver finalmente algumas questões em aberto que se seguiram após o seu esforço em ter um diálogo franco sobre temas contenciosos.

O comentário é de David Gibson, publicada por Religion News Service – Crux, 10-04-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Com tanta coisa em jogo, vários campos ideológicos se puseram a analisar cada frase do documento para ver se um ou outro havia vencido num ponto particular e, como esperado, o veredito sobre o documento – uma exortação papal de 264 páginas intitulada Amoris Laetitia (A Alegria do Amor) – foi uma mistura total.

As esperanças de alguns do campo progressista de que o pontífice poderia suavizar a doutrina católica sobre o matrimônio e o divórcio, ou de alguma forma sinalizar uma aprovação às uniões homoafetivas, sempre estiveram fora da realidade; na verdade, muitos progressistas manifestaram a sua decepção com a exortação até mesmo quando a ênfase do papa na flexibilidade pastoral em detrimento da rigidez teológica assinalou uma reorientação fundamental do catolicismo para longe de um foco restrito às regras.

A reafirmação de uma doutrina antiga sobre o matrimônio foi, no mínimo, uma consolação aos conservadores que há muito temiam um tipo de mudança desejada pelos progressistas, embora muitos focaram suas atenções em outros elementos, tais como as aberturas deixadas por Francisco no sentido de que os fiéis divorciados e recasados venham a participar da Comunhão.

Mas a realidade trazida no documento – uma realidade que poderia perturbar os tradicionalistas mais do que qualquer outra coisa – é que o papa quer claramente que os debates sobre os ensinamentos católicos e as práticas pastorais continuem e, talvez, continuem a evoluir.

Francisco sinalizou essa vontade logo no início de “A Alegria do Amor”, documento histórico que essencialmente é uma versão estendida de uma série de encontros de alto nível convocado pelo papa e lançado em fevereiro de 2014, evento que concluiu com três semanas de debates intensos em Roma no último mês de outubro.

“Ao mesmo tempo, a complexidade dos temas tratados mostrou-nos a necessidade de continuar a aprofundar, com liberdade, algumas questões doutrinais, morais, espirituais e pastorais”, escreveu Francisco.

Segundo ele, a reflexão “honesta, realista e criativa” dos pastores “ajudar-nos-á a alcançar uma maior clareza”; Francisco também rejeitou “o desejo desenfreado de mudar tudo sem suficiente reflexão ou fundamentação” até a “atitude que pretende resolver tudo através da aplicação de normas gerais ou deduzindo conclusões excessivas de algumas reflexões teológicas”.

Francisco igualmente endossou um tipo de “opção local” no ministério, salientando aos pastores de cada país ou região que “é possível buscar soluções mais inculturadas, atentas às tradições e aos desafios locais”.

“Quero reiterar”, escreveu ele, “que nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais. Naturalmente, na Igreja, é necessária uma unidade de doutrina e práxis, mas isto não impede que existam maneiras diferentes de interpretar alguns aspectos da doutrina ou algumas consequências que decorrem dela”.

Em outras palavras, não olhem para Roma em busca de uma solução para todo e qualquer desafio, e não deixem de buscar maneiras de acolher a cada um – e a cada uma – que se sente afastado/a da Igreja porque suas vidas pessoais não se conformam com o ideal católico.

Nenhuma família é perfeita, diz o papa, e a própria Igreja tem muito a aprender com elas na medida em que as acompanha ao longo de suas dificuldades.

Tão importante quanto isso, na exortação Francisco enfatiza repetidamente a primazia da consciência individual e da capacidade dos fiéis sinceros em discernir – com a ajuda de um pastor ou por meio da própria experiência – sobre se estão aptos, por exemplo, a participar da Sagrada Comunhão mesmo na condição de divorciados e recasados.

Para muitos, a consciência é uma espécie de carta curinga na teologia católica, um conceito que os críticos dizem permitir uma possibilidade altamente perigosa de ação moral.

Francisco, porém, diz que o conceito é essencial e que tem sido ignorado por muitos há bastante tempo.

De acordo com ele, “nos custa deixar espaço à consciência dos fiéis, que muitas vezes respondem o melhor que podem ao Evangelho no meio dos seus limites e são capazes de realizar o seu próprio discernimento perante situações onde se rompem todos os esquemas”.

“Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las”.

Este com certeza não é o toque de clarim que a direita católica queria ouvir.

“É exatamente a ambiguidade já conhecida deste papa o que muitos consideram animadora, enquanto outros a consideram exasperadora”, escreveu Thomas Williams, teólogo conservador e ex-padre que deixou o clero para se casar, em uma crítica à exortação.

“As pessoas do lado de dentro, e do lado de fora, da Igreja sempre admiraram a clareza dos ensinamentos”, afirma Williams no texto publicado no sítio Crux. “Concordem ou não, pelo menos as pessoas sabiam onde ela se posicionava; no entanto, nem sempre isso é o caso com Francisco”.

Outros já veriam a abordagem diferenciada de Francisco como estando precisamente em conformidade com a tradição da Igreja, de desenvolver a doutrina ao longo do tempo à luz das realidades históricas cambiantes e do movimento gradual – guiado pelo Espírito Santo – que “nos [conduz] à verdade completa”, como diz Francisco.

O Cardeal Walter Kasper, teólogo alemão aposentado que dispôs um quadro intelectual ao foco do papa na misericórdia em detrimento da condenação, gosta de dizer que Francisco “não quer conseguir resultados de curto prazo”.

“Ele não quer ocupar cargos”, escreveu Kasper, 83, “mas sim quer pôr em movimento um processo e criar uma dinâmica que dará frutos no tempo certo”.

Esta é uma fórmula a que alguns darão as boas-vindas, enquanto outros a rejeitarão. Com certeza, porém, ela aponta para uma maior – e não menor – efervescência na Igreja.

Talvez não esteja claro para onde exatamente a doutrina e a prática pastoral podem estar sendo conduzidas sob o comando de Francisco, e nada leva a crer que mudanças eventuais venham a agradar os progressistas que, hoje, estão desapontados.

Mas o compromisso com a fé é essencial para a visão que este papa tem para a Igreja. “O caminho se faz caminhando”, Francisco gosta de dizer.

Se esta caminhada faz parte da peregrinação da fé, ela está longe de terminar. Na verdade, ela pode jamais ter um fim.

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