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06 Abril 2016

Em recente artigo publicado na revista Foreign Affairs online, J. Olidort coloca o tema que, segundo ele, é um dos aspectos não captados pelo governo dos EUA, e mais amplamente pelo Ocidente, na gestão das relações internacionais com a Bacia do Oriente Médio, desde, pelo menos, o começo da revolução iraniana de 1979. Iniciando por aqueles acontecimentos dos anos 80, de fato, "a teologia foi estreitamente conectada à política moderna do Oriente Médio". É interessante notar uma espécie de correspondência simétrica no entrelaçamento religião-política entre aquelas regiões e os próprios Estados Unidos.

O artigo é de Marcello Neri, publicada por Settimana News, 02-04-2016. A tradução é de Ramiro Mincato

Foi sempre em 1979 que Jerry Falwell fundou o grupo de pressão política Moral Majority, recolhendo nele o húmus e a atmosfera do evangelicalismo americano daqueles anos. A articulação, pois, da retórica pública sobre um cenário de precisa narrativa teológica, fez ressoar o desenvolvimento das assim chamadas culturas de guerra, desenvolvidas nos anos seguintes. Hoje, começamos a perceber o cenário teológico narrativo das transformações fundamentalistas, tanto no Oriente Médio, como no nosso Ocidente. Somente que chegamos com cerca de quarenta anos de atraso, e estamos praticamente privados de ferramentas corretas, não só para interpretá-lo, mas também para desenvolver um discurso e ações políticas adequadas - isto é, capazes de impactar sobre aquelas narrações teológicas de fundo que inervam sua difusão.

Um segundo passo crucial é identificado por Olidort nos anos seguintes à reação do governo Bush aos ataques terroristas em solo norte-americano, de 11 de setembro de 2001. Centrado na "construção de um sofisticado aparato de forças militares em nível global", a resposta política e militar não foi capaz de "explicar como as redes terroristas foram adaptando seu quadro teológico diante da política externa dos EUA". Em 2003, Abu Musab al-Suri, figura central na Al Qaeda, publicou um pesado volume intitulado A Chamada à Resistência Islâmica Global, que contém sua visão de como o movimento jihadista deveria desenvolver-se ante a reação política e militar dos Estados Unidos e aliados. Em apêndice ao texto recolheu também uma centena de páginas com "declarações do Profeta Maomé, descrevendo a vinda, agora iminente, do apocalipse". Este apêndice, de acordo Olidort, tornar-se-á, mais tarde, um importante material sobre o qual "o Daesh plasmará sua própria narrativa" teológica.

O fogo de uma teologia apocalíptica, como fio condutor de uma narrativa de finalidade política, enquanto representante de sua realização, é o que, de acordo com o autor, o Ocidente não leva em conta. Se é verdade que o "Daesh governa", mesmo sem ser Estado, sua força de atração não reside neste ponto de vista político, mas sim no fascínio de suas premissas narrativas teológicas: "A atração do Daesh a potenciais recrutas encontra-se principalmente em sua particular narrativa apocalíptica e na promessa de uma pura utopia Salafista". O primeiro passo necessário seria, portanto, o de encontrar uma maneira, nos países do Oriente Médio, onde se alarga o poder do governo não Estatal do Daesh, de "anular a narrativa teológica que o Daesh promove".

Mas esta não é uma tarefa fácil. Porque não é apenas uma questão de competência política, estratégica, militar, humanitária, diante do Daesh. Evidentemente são instrumentos, estes que o Ocidente parece utilizar, às vezes ineptos e frequentemente dispersos. O fato é que essas políticas, sejam hard ou soft, precisam ser acompanhadas por competência teológica e pelo conhecimento de como funcionam estas narrativas teológicas dentro dos grupos que se condensam ao redor da constelação do Daesh. "É importante, de fato, compreender como o grupo utiliza os textos islâmicos para dar forma à sua mensagem apocalíptica. Mas, não só. Do ponto de vista da política externa, é altamente instrutivo compreender a literatura teológica sobre a qual se baseia o próprio Daesh".

O poder de atração do Daesh, conforme a análise do Olidort, deve ser procurada não tanto em nível ideológico, mas em sua capacidade de interceptar a dimensão espiritual e a demanda espiritual dos seus potenciais seguidores: "A teologia possui evidente dimensão espiritual e pode exercitar influência que vai além das dimensões políticas e econômicas” da vida humana. O fato é que nós, como Ocidente, não estamos equipados para responder neste nível. Nós não temos, nem conhecimento, nem competência nestas áreas. Por muito tempo esquecemos de como funciona a gramática espiritual humana entre nós, para tentarmos compreender aquela das pessoas e populações de diferentes origens culturais. Se tentássemos aterrissar no plano do espiritual, a que se dirige a teologia, não seriamos "críveis"; e, de qualquer modo, não temos as "instituições" aptas a fazê-lo.

Devemos, portanto, contentar-nos com uma solução mais pragmática, pelo menos para o momento. Ditas com as palavras de Olidort: "Os instrumentos diplomáticas de Washington, que incluem elementos tradicionais, como o soft e hard power, poderiam obter algum benefício da adição daquilo que poderíamos chamar de "poder da imagem", em que se considere como as ações dos Estados Unidos (tanto soft como hard) são percebidas e reinterpretadas dentro das populações locais, particularmente por meio de narrativas teológicas".

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