"O Family Day não é a melhor maneira para estar na mesma sintonia do Papa Francisco." Entrevista com Massimo Faggioli

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31 Janeiro 2016

Neste sábado, em Roma, no Circo Máximo, será realizado o "Family Day". Organizado pelo "Fórum das Famílias" para combater o projeto de lei Cirinnà sobre as uniões civis. "O projeto de lei deve ser reescrito, porque – segundo eles – não leva em conta o elemento mais frágil, a criança."

A reportagem é de Pierluigi Mele, publicada no blog Confini, 29-01-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Obviamente, tudo isso vai ter a sua influência no debate político que vai se abrir na próxima semana no Senado italiano, quando será iniciada a discussão para a aprovação do projeto de lei.

Esse é o segundo "Family Day", depois do de 2007. Desde então, muita coisa mudou. Particularmente no mundo católico. Falamos sobre isso, nesta entrevista, com o historiador do cristianismo Massimo Faggioli, professor associado da University of St. Thomas (em St Paul, Minnesota, EUA).

Eis a entrevista.

Professor Faggioli, neste sábado, o Fórum das Famílias organiza o chamado "Family Day" para reafirmar os valores da família tradicional contra o projeto de lei sobre as uniões civis. Na Itália, está em curso uma discussão com diversos posicionamentos transversais. A Igreja Católica, através dos seus pastores, também tomou uma posição. Você vê novidades em relação a 2007 na hierarquia católica e no laicato católico?

A maior novidade é que há o Papa Francisco, e, portanto, aquela compacidade fictícia sobre as palavras de ordem que havia em 2007 não existe mais hoje: muitos véus caíram na Igreja italiana, assim como na global. Os bispos estão lidando hoje com uma transição difícil do unanimismo dos 30 anos anteriores a uma nova era, a de Francisco, em que as questões da moral sexual não são mais o elemento dirimente na linguagem do magistério pontifício. Isso provoca tensões internas ao episcopado, que se veem também a partir das palavras cautelosas de Bagnasco sobre o "Family Day", mais cautelosas do que em 2007.

Mas, mesmo entre o laicato católico, há posições muito diferentes que hoje são evidentes: o apoio por parte dos movimentos católicos ao "Family Day" é menor do que em 2007, e, por sua vez, os movimentos sabem que devem reconstruir a sua relação com um papa que é diferente dos dois antecessores sobre a eclesiologia. É claro que o "Family Day" não é percebido como a melhor maneira para se colocar na mesma sintonia do Papa Francisco, que, nos discursos aos movimentos, exortou-os claramente a não se encerrarem em uma ideia limitada de Igreja e de mundo.

Falemos do Papa Francisco. Alguns leigos ficaram decepcionados com as suas afirmações, feitas durante a audiência aos juízes da Sacra Rota, sobre as uniões diferentes do casamento. Para outros, como Antonio Socci, crítico feroz de Bergoglio, tratou-se quase de um "milagre". Na sua opinião, essas afirmações do Papa Francisco devem ser tomadas como um apoio à manifestação de sábado? Ou são palavras que foram instrumentalizadas?

O Papa Francisco está consciente mais do que outros da tentativa de manipular ou instrumentalizar as suas palavras. Ele falou de casamento com as nuances certas, dizendo que os outros tipos de uniões são uma coisa diferente. Ele não falou de valores inegociáveis, nem da manifestação de sábado. E, mesmo que tivesse falado do "Family Day", isso ainda seria muito diferente de apelar aos parlamentares católicos para votarem de acordo com as indicações do magistério da Igreja – o que vimos no passado recente na Itália.

Francisco não acredita no choque entre culturas. O problema é que alguns dirigentes do catolicismo italiano (leigos e clérigos) parecem acreditar no recurso às ruas e não ter mais opções alternativas ao instrumento das ruas – que, aliás, não serviu bem a Igreja na década passada.

Uma palavra sobre os católicos do Partido Democrático. Você vê limites na sua ação?

A própria expressão "católicos do PD" evidencia que há um problema de colocação política de uma cultura, a do catolicismo político, que se empobreceu dentro do PD, mas também na Itália em geral e em toda a Europa – e a crise do catolicismo político na Europa faz parte da crise da União Europeia.

Trata-se de uma questão tanto de conteúdos (como a questão dos corpos intermediários e da Constituição) quanto de estilo (embarcar no PD personagens que não têm nada a ver com as culturas que fundaram esse partido). O PD (e o governo italiano) abundam de católicos, mas a sua linguagem, ação, estilo, rede de relações sociais e culturais são totalmente diferentes dos da geração anterior – tanto que se custa a ver continuidades entre as duas gerações.

É um catolicismo que parece desprovido de uma cultura teológica e espiritual própria, desprovida de testemunhas e de textos de referência. Em comparação com a nova geração jovem de católicos do PD, um político católico liberal como o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, parece quase uma espécie de De Gasperi.

Estamos em uma fase histórica da relação "Igreja-política", como você diz, nova em comparação com 2007. Uma fase caracterizada pelo fim do "ruinismo" e do "prodismo". Duas posições que entraram em confronto de modo duro nos últimos anos. Estamos, você diz, em uma fase pós-adulta. Pode nos explicar melhor? Isso significa que vai se abrir uma nova era para o catolicismo político?

Ao fim do ruinismo, corresponde, em certo sentido, também o fim do prodismo. O que resta daquele catolicismo politicamente adulto? A nova geração do catolicismo italiano se emancipou dos bispos, mas também daqueles que tinham se emancipado dos bispos. A nova geração, por um lado, não tem problema em desobedecer os bispos, mas, por outro, parece obedecer o "espírito do tempo" de modo acrítico. Não está claro qual será a próxima fase do catolicismo político – nem se haverá um futuro para o catolicismo político. Essa questão deve ser enquadrada, por um lado, na crise do paradigma ocidental do catolicismo, que é cada vez mais global, e, por outro, na crise epocal de fé na política.

Última pergunta: sobre o pano de fundo dos direitos civis, está o grande confronto-choque, como definia o historiador francês Émile Poulat, Igreja-modernidade. O Concílio Vaticano II disse palavras definitivas, ou seja, a escolha do diálogo. Qual é o esforço inovador do Papa Francisco sobre essa fronteira?

O Vaticano II apenas iniciou um discurso que, há 50 anos, ainda está em aberto, também porque Francisco o reabriu. Bergoglio tem uma visão complexa da modernidade, com os seus aspectos negativos, como se vê na encíclica Laudato si'. O importante de Francisco é que ele nunca olha para trás com nostalgia, mas está sempre projetado para o futuro. Essa atitude, por si só, é moderna.