Uma liturgia fiel ao futuro: o "lava-pés" e a "tradução da tradição". Artigo de Andrea Grillo

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25 Janeiro 2016

Inevitavelmente, a profecia "transgride". A mudança do "lava-pés" é um pequeno exemplo de uma "fidelidade ao Evangelho" que não passa pela "obediência às rubricas", mas pela "obediência maior", que pôde parecer como uma "desobediência".

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, leigo casado, professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, de Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, de Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua.

O artigo foi publicado no seu blog Come Se Non, 22-01-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A publicação do Decreto com que a Congregação para o Culto Divino reforma a rubrica da "Missa in coena domini" relativa ao rito do Lava-pés abre um olhar renovado sobre a tradição litúrgica. A tradição litúrgica, para permanecer fiel à sua tarefa de mediação do Evangelho, deve olhar não apenas para trás, mas também para a frente, "para a luz do Evangelho e da experiência humana" (GS 46).

Há poucos dias, o Papa Francisco, na sua homilia cotidiana em Santa Marta, tinha advertido contra aqueles que se refugiam atrás de um "sempre se fez assim". De fato, esse não é um critério de "sã tradição". E, na mesma linha, há muito tempo já (talvez tempo demais?), ele havia escrito para a Congregação do Culto para que se revessem as rubricas do Lava-pés durante a celebração vespertina da Quinta-feira Santa.

O que aconteceu, em suma? O papa, há três anos já, tinha celebrado a solene missa da Quinta-feira Santa "na prisão", com presos e presas, em meio aos pecadores, com um gesto extraordinariamente eloquente, mas que as rubricas – estritamente falando – não podiam permitir.

Inevitavelmente, a profecia "transgride". Esse é um pequeno exemplo de uma "fidelidade ao Evangelho" que não passa pela "obediência às rubricas", mas pela "obediência maior", que pôde parecer – a olhos pouco interessados na história bíblica e nas histórias vividas por homens e mulheres – como uma "desobediência".

O murmúrio (romano ou não) sobre os "abusos do papa" foi bastante comedido, mas perceptível. Agora, a reforma da rubrica adapta a tradição à sua profecia e torna acessível a todas as comunidades – não só à Igreja de Roma e ao seu bispo – uma maior liberdade na interpretação da "lavagem" de acordo com a profecia evangélica.

Para que o "sinal" possa ser "plenamente significativo", ao longo da história, é inevitável que as rubricas sejam submetidas a uma revisão. Não há nada de estranho nisso. Estranho seria, ao invés, um enrijecimento irrazoável (mas cômodo e reconfortante) sobre rubricas não mais justificadas, nem pelo Evangelho nem pela experiência das pessoas.

Parece-me que, no rastro desse exemplo, podemos encontrar outros casos em que deveremos, mais cedo ou mais tarde, "sair do canto". De fato, não só o papa tem a possibilidade de ser profeta na Igreja. A profecia compete a cada batizado. Se o papa antecipou profeticamente uma rubrica que não existia, com o seu comportamento ritual, o mesmo acontece em determinados casos com o "povo de Deus" e com o seu "bom instinto".

Muitas comunidades, há tempos, vivem uma pequena "profecia eclesial" pelo modo como recebem e celebram o "rito da paz". Uma certa "liberdade" de movimento e uma certa "inspiração" no canto – quando mantido dentro de limites razoáveis e acompanhado por sabedoria e por clarividência – são "novidades" que, se olhadas com um olho indiferente por um Escritório, sempre podem ser reduzidos a "abusos". Pode-se até lamentar que "não se obedecem as rubricas", como se fazia – a meia voz – até mesmo com o papa.

Aqui também as rubricas estão muito atrás da realidade vivida pela Igreja. Colocar novamente no eixo as rubricas com o sensus fidei e com a tradição viva do povo de Deus é um trabalho inesgotável, no qual estamos todos envolvidos. Tanto aqueles que devem "registrar" a mudança, quanto aqueles que devem "assumi-la", incluindo aqueles que devem "vivê-la".

E não é evidente que sempre seja necessário um "primado da oficialidade", que sempre se deva começar apenas por cima e que se deva receber a autorização para todas as coisas... Grande parte da oficialidade que hoje consideramos como "normal" nasceu a partir de uma novidade, de uma transgressão, de uma profecia, de uma antecipação.

Assim caminha a Igreja, com os seus Pastores, às vezes, na frente de todos, às vezes no meio de todos e, às vezes, atrás de todos. E também não é sempre evidente que aqueles que estão na frente veem melhor do que os outros ou que aqueles que estão atrás queiram simplesmente frear ou "deixar-se levar"...

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