Francisco, "não tradicionalista" e "pós-liberal". Artigo de Andrea Grillo

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18 Janeiro 2016

Na diatribe entre tradicionalistas e progressistas, Francisco, de vez em quando, é capturado por um lado, para condenar o outro. Ele traz em seu coração uma tradição que pode ser captada apenas com um "doce estilo novo", que é, ao mesmo tempo, não tradicionalista e pós-liberal, para além das rigidezes tradicionalistas e para além das simplificações liberais.

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, leigo casado, professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, de Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, de Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua.

O artigo foi publicado no seu blog Come Se Non, 15-01-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A "colocação" de Francisco no quadro eclesial (e geopolítico) não pode ser facilmente reduzido a estereótipos. Prova disso é a bela entrevista com que Massimo Faggioli respondeu às boas perguntas do sítio Il Sismografo e publicada no mesmo blog no dia 14 de janeiro.

Emerge daí uma leitura convincente e aguda de algumas peculiaridades do Papa Francisco, cujo sentido poderia ser resumido assim: Francisco não precisa "discutir as interpretações do Vaticano II", porque sabe que o Concílio é "aquisição irreversível", que deve ser, acima de tudo, recebida e implementada.

E isso é proposto, por Francisco, através de uma série de atos corajosos, como a afirmação do primado da misericórdia, a reforma da Cúria Romana, a confiança em uma "política" que possa melhorar a experiência de justiça.

Em tudo isso, Francisco é bastante beneficiado por algumas condições totalmente particulares:

- Ele é o primeiro papa "filho do Concílio" e não "Padre conciliar". Isso o "desresponsabiliza do Concílio", podendo gozar dos seus frutos sem complexos de inferioridade ou de superioridade. Isso acontece por motivos biográficos, acima de tudo, além de por razões de formação;

- Ele é o primeiro papa não europeu, que vem do fim do mundo e que traz, para Roma, uma cultura civil e eclesial diferente;

- É um papa que, ao contrário de muitos dos seus antecessores imediatos, nunca estudou nem trabalhou estavelmente em Roma.

Esses três elementos "objetivos" contribuem para lhe sugerir uma determinação e uma força profética muito grandes na sua proposição de "atualizar" a Igreja Romana, acima de tudo na sua linguagem e nas suas estruturas centrais.

Nesse sentido, a "oposição a Francisco" percebe essa peculiaridade e levanta o tom, chegando a falar de "cisma" (mais ou menos subterrâneo).

Na realidade, a questão não é o cisma, mas a "cisão" entre Palavra de Deus, experiência dos homens e realidade eclesial (cfr. GS 46). Falam de cisma aqueles que estão tão apaixonados por essa cisão a ponto de considerá-la necessária para a fidelidade ao Evangelho. Pensa-se que é possível permanecer fiel ao Evangelho apenas se nos imunizamos tanto da Palavra de Deus, quanto da experiência dos homens!

É evidente que, diante dessa resistência, Francisco faça referência, continuamente, aos dois "polos" da vida eclesial – ou seja, a Palavra de Deus e a experiência dos homens – para tornar dinâmico e atualizado aquilo que parece estático e autorreferencial. Uma doutrina que não "embalsama" a Palavra de Deus e uma disciplina que saiba interpretar a experiência dos homens, sem projetar sobre ela preconceitos simples, parece ser o verdadeiro objetivo do papado, em bela continuidade com o projeto do Vaticano II.

Com isso, acredito eu, todos podemos concordar. E, na sua entrevista, Faggioli afirma com muita força essa "prioridade" de Francisco, que "não quer interpretar, mas implementar o Vaticano II".

Entendendo-se bem, isso significa que Francisco obviamente tem uma clara interpretação do Concílio, mas não está interessado em uma "discussão prévia", quase como uma suspensão da sua eficácia, para descobrir quais são as "verdadeiras" intenções conciliares. Ele sabe que essas diatribes, não raramente, são formas raras de oposição e de resistência ao próprio Concílio.

Surpreende, portanto, que, diante dessa posição límpida e positiva, Dom Agostino Marchetto tenha se pronunciado para desmentir Faggioli e levantar a a hipótese de que, em vez disso, o papa está muito interessado na discussão sobre o Concílio, trazendo, como "prova", duas cartas "pessoais", nas quais o papa felicita o arcebispo pelo seu trabalho de pesquisa histórica sobre o Concílio.

Parece-me bastante curioso que, diante das articuladas argumentações de Faggioli, se apresentem "cartas pessoais" como "provas" de uma "hermenêutica diferente" que deve ser atribuída até ao papa! Ninguém discute que A. Marchetto escreveu resenhas importantes sobre os trabalhos históricos alheios. E que tem uma respeitável "hermenêutica" própria do Concílio, que poderíamos definir como sub specie curiae.

Mas anexar cartas da Cúria para indicar qual seria a "verdadeira" hermenêutica do Concílio sustentada pelo Papa Francisco me parece ser um "lugar comum" daquele estilo e daquela "aura" que – como diz Faggioli – chegou o momento de superar.

O Prof. Faggioli se coloca muito além da diatribe conciliar, mas Dom Marchetto quer refutá-lo trazendo novamente toda a questão "para si mesmo": se poderia imaginar um exemplo mais flagrante de "autorreferencialidade"? Como é possível reduzir toda a questão do Concílio a breves "cartas pessoais" de circunstância? O que seria da história se pretendêssemos documentá-la com esse método?

Na diatribe entre tradicionalistas e progressistas, Francisco, de vez em quando, é capturado por um lado, para condenar o outro. Francisco traz em seu coração uma tradição que pode ser captada apenas com um "doce estilo novo", que é, ao mesmo tempo, não tradicionalista e pós-liberal, para além das rigidezes tradicionalistas e para além das simplificações liberais.

Um estilo que, ao recuperar o verdadeiro rosto da Igreja, a leva novamente a um profundo vínculo tanto com a Palavra de Deus, quanto com a experiência dos homens, sem nunca se dar ao luxo de reduzir uma à outra.

Nesse sentido, ele não cai nem na armadilha de uma experiência reduzida a doutrina, nem na de uma doutrina reduzida a experiência. E é justamente nesse equilíbrio que reside, hoje, o seu mais alto magistério, que não é feito para descontentar a todos, mas para reconciliar cada um, de modo dinâmico e clarividente. Para além do Vaticano II, assumido como irreversível, e avançando, de cabeça erguida, no caminho da sua resoluta implementação.

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