Cinco lugares onde a força política de Francisco pode fazer a diferença

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12 Janeiro 2016

Sumário

• O Papa Francisco tem um histórico de fazer a diferença na política mundial
• Um aceno de Francisco pode fazer a diferença no debate sobre imigração nos EUA
• Ele poderia influenciar os países europeus a manterem comprometidos com os refugiados
• Procurem por ele para continuar com as negociações na Colômbia e no caso do ISIS

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 11-01-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O papado de Francisco já se estende por quase quatro anos, e cada um dos três primeiros anos trouxe um avanço diplomático específico: uma ajuda em evitar uma ofensiva ocidental anti-Assad na Síria em 2013; a restauração das relações entre EUA e Cuba em 2014; e um apoio moral ao acordo climático de 2015 em Paris.

Na segunda-feira (11-01-2016), Francisco proferiu o seu discurso anual ao corpo diplomático acreditado no Vaticano, e muitos dos aí presentes provavelmente se viram perguntando na Sala Regia: Qual de nós vai ser o próximo?

Certamente, triunfos diplomáticos e políticos não crescem em árvores, e é completamente fora da realidade exigir de um papa um triunfo a cada ano.

No entanto, Francisco é um papa que está com pressa. Observando o cenário mundial nesse início de 2016, aqui apresento cinco lugares onde parece, pelo menos, possível que a sua força política consiga fazer a diferença.

A palavra-chave é “avanço”, não “engajamento”. Há uma lista muito mais extensa de frentes nas quais Francisco e o Vaticano estarão engajados, do conflito entre Israel e a Palestina à Ucrânia e à China, e outros. Mas o que estamos buscando são lugares onde as estrelas parecem alinhadas de tal modo que um aceno de Francisco, no momento certo, poderá significar uma diferença entre a mudança real e um retorno ao status quo.

Debates sobre imigração nos EUA

Uma questão pronta a figurar nas eleições americanas deste ano é a reforma imigratória, com as propostas de uma reforma ampla atualmente estagnadas no Congresso e, aparentemente, não passíveis de serem levadas em frente antes de novembro.

As promessas de Donald Trump de uma muralha enorme ao longo da fronteira do México e EUA e pela proibição da entrada de todos os muçulmanos no país vêm animando a base republicana, fazendo da percepção de ser duro nesse campo parece ser o teste decisivo para o sucesso nas eleições.

O Papa Francisco deve fazer uma escala no dia 17 de fevereiro na fronteira entre os dois países, na Ciudad Juárez junto à localidade de El Paso, onde se espera que ele, mais uma vez, manifeste o seu apoio aos direitos dos imigrantes.

O pontífice mencionou esta sua parada em Ciudad Juárez na segunda-feira dizendo que, na fronteira, estamos diante de uma “situação dramática”.

Não importa o quão remoto seja a possibilidade, mas a coincidência da viagem do papa com o período de eleições nos EUA abre uma janela na qual Francisco pode dar um impulso aos candidatos moderados em se tratando da reforma das leis imigratórias – se não no nível presidencial, pelo menos talvez em entre alguns concorrentes ao Congresso.

Em 1987, Ronald Reagan ficou de pé em frente ao Muro de Berlim e disse aos soviéticos: “Derrubem esse muro!” Dependendo do que Francisco dizer e fazer em Ciudad Juárez, a sua presença aí poderá ser lembrada como o seu momento equivalente: “Não construam este muro!”.

A crise dos refugiados na Europa

A Europa está se debatendo com a sua maior crise desde a Segunda Guerra Mundial, com a Organização Internacional para as Migrações informando que, até 21 de dezembro, mais de um milhão de refugiados e migrantes chegaram ao continente em 2015, a maior parte por mar, com a violência na Síria sendo a maior força motriz do movimento.

As políticas europeias, hoje, se definem pelo choque entre os representantes pró e contra a migração, com uma tendência crescente a favor de uma política de portas fechadas. Isso é verdade em vários países onde o catolicismo historicamente tem sido um agente social predominante, tais como a Polônia, a Hungria e a Áustria.

Em grande parte de seu discurso de segunda-feira Francisco dedicou a apelar pela “recepção e adaptação” destes novos desembarques – um claro sinal de que a crise da Europa é uma prioridade para ele em 2016.

“Por isso, desejo reiterar a minha convicção de que a Europa (…) possui os instrumentos para defender a centralidade da pessoa humana e encontrar o justo equilíbrio entre estes dois deveres: o dever moral de tutelar os direitos dos seus cidadãos e o dever de garantir a assistência e o acolhimento dos migrantes”, disse.

Se Francisco encontrar formas criativas de fazer estas coisas valerem em 2016, ele poderá ter um efeito na política do continente, talvez começando pela própria Itália.

Na segunda-feira, o pontífice convocou os italianos a não perderem o seu “tradicional sentido de hospitalidade e solidariedade” diante das “inevitáveis dificuldades do momento presente”.

Uma oportunidade para Francisco trazer novamente esta sua mensagem vai vir na Polônia em julho, quando ele vai a Cracóvia para a Jornada Mundial da Juventude. Um movimento de direita tem ameaçado não aceitar o compromisso de acolher imigrantes como parte de uma ação da União Europeia, mas isso dependerá do apoio católico, e uma vergonha papal poderá igualmente fazer a diferença.

Colômbia

As negociações de paz em Havana visando terminar com mais de cinco décadas de conflito na Colômbia estão programadas para serem reatadas na quarta-feira (13 de jan.), e o presidente colombiano Juan Manuel Santos recentemente comprometeu-se que elas permanecerão em “sessão permanente” até que um acordo seja feito, com o desejo de se chegar a um desfecho até março.

O governo das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, ou FARC, já chegaram a acordos sobre reforma agrária, participação política, drogas e plantio, e uma reparação às vítimas da violência. O último ponto dessa agenda diz respeito à implementação de um cessar-fogo bilateral permanente, incluindo um baixar armas por parte das FARC.

Francisco tem um interesse pessoal nessas negociações, reconhecendo, em resposta a uma pergunta durante uma coletiva a bordo de seu avião em setembro passado quando voltava dos EUA, que havia falado duas vezes por telefone com Santos sobre o assunto.

Antes ainda, em sua escala em Cuba, o pontífice diretamente abordou as negociações durante uma missa na Praça da Revolução de Havana, dizendo que “não temos o direito de nos permitir outro fracasso na Colômbia”.

Dada a conexão latino-americana e o fato de que tanto o governo Santos quanto as lideranças das FARC vêm pagando tributo pelo apoio que Francisco lhes tem dado, é inteiramente possível pensar que, se eles chegarem a um impasse, bem poderão se voltar ao pontífice em busca de ajuda.

Se sim, e um acordo de paz for alcançado e implementado, Francisco poderá, mais uma vez, ser chamado de um jogador fundamental nas relações internacionais.

República Centro-Africana

A primeira rodada de votação das eleições presidenciais na República Centro-Africana em 30 de dezembro foi, em grande parte, pacífica, uma surpresa para muitos em um país que tem sofrido com uma onda de violência entre milícias muçulmanas e cristãs rivais.

O segundo turno ocorrerá em 31 de janeiro. Supondo que a calmaria relativa se mantenha e dependendo de como ela terminar, o país poderá ter condições de iniciar a sua reconstituição.

Francisco ganhou bastantes amigos na República Centro-Africana com a sua visita de dois dias em novembro passado. Um momento-chave veio quando visitou uma mesquita em uma região da capital nacional, Bangui, dominada por forças jihadistas, apesar dos apelos em cancelar o evento, uma vez que se configurava como muito arriscado.

Alguns analistas creditam a visita do papa e a sua mensagem de reconciliação com essa mudança na atmosfera do país.

“Ela desempenhou um papel definitivo em acalmar os ânimos diante das eleições”, disse Alex Fielding, analista da Max Security Solutions.

Dificilmente está escrito nas estrelas que as eleições terão um final feliz, visto que, pelo menos, 20 dos 30 candidatos à presidência no primeiro turno denunciaram a contagem dos votos como uma farsa.
Mas se elas forem bem-sucedidas, Francisco receberá muitos créditos aqui também, especialmente se ele, hoje, concordar em fazer algo mais, talvez dar um telefonema diplomático, algo que tem feito a diferença.

Iraque e Síria

Obviamente, Francisco não tem condições de pôr abaixo o ISIS por si mesmo, especialmente depois que o grupo islâmico radical vem repetidamente ameaçando o Vaticano, inclusive postando uma imagem da Praça de São Pedro na capa de sua revista online em novembro numa advertência nem um pouco sutil.

O que Francisco pode fazer, no entanto, é encorajar os países ocidentais a se comprometerem na pressão contra o grupo extremista, principalmente em termos de proteção das minorias vulneráveis da região, incluindo a pequena porém significativa presença cristã no Oriente Médio.

De certo modo, seria uma postura contraintuitiva vindo de um “Papa da paz”, mas Francisco está sendo encorajado pelos seus próprios bispos na região, os quais vêm insistindo que os seus rebanhos enfrentam o risco de um “genocídio”. O pontífice trouxe esse assunto em seu discurso de segunda-feira.

“Também aqui penso nos cristãos do Médio Oriente desejosos de contribuir, como cidadãos de pleno direito, para o bem-estar espiritual e material das respectivas nações”, declarou.

Em dezembro, uma pesquisa feita pela agência Gallup mostrou que, pela primeira vez, uma minoria de americanos, 53%, apoia uma guerra contra o ISIS e está provavelmente será uma questão presente nas eleições deste ano também.

Francisco já disse que “é legítimo deter um agressor injusto”. Uma nova dose de exortação moral por parte do papa poderia ajudar a colocar os pedidos por uma ação mais incisiva no topo das prioridades, e não somente nos EUA.

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