Indígenas resistem ao “espírito do mal”

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07 Janeiro 2016

Ao entardecer no rio Tapajós, um dos principais afluentes do Amazonas, os indígenas munduruku reiniciam o ritual da pesca nessa bacia rica em peixes, seu alimento tradicional. Mas o “espírito do mal”, como eles denominam a Hidrelétrica São Luiz do Tapajós, pode deixá-los órfãos.“O rio é como nossa mãe. Nos dá alimentos e dele tiramos o pescado. Uma mãe alimenta com leite materno, o mesmo ocorre com o rio”, afirmou DelsianoSaw, professor na aldeia SawréMuybu, localizada entre os municípios de Itaituba e Trairão, no Estado do Pará.

“Vão encher o rio, e os animais, os peixes, acabarão. As plantas que os peixes comem, as tartarugas, também acabarão. Tudo desaparecerá quando fizerem a inundação por causa da hidrelétrica”, destacou Saw à IPS.Com uma represa de 722 quilômetros quadrados e queda de 35,9 metros, a hidrelétrica inundaria uma área de 330 quilômetros quadrados, incluindo essa aldeia de 178 habitantes.

A reportagem é de Fabiana Frayssinet, publicada por Envolverde, 05-01-2016. 

Segundo os planos do governo, São Luiz do Tapajós terá potencial de 8.040 megawatts (MW), sendo a principal de um complexo de sete hidrelétricas, projetadas para essa bacia hidrográfica para serem construídas até 2024. Mas a licitação da obra, calculada em US$ 7,7 bilhões, foi adiada novamente por questionamentos ao processo de licenciamento ambiental.

“O efeito acumulativo é incomensurável. Especialistas da área ambiental afirmam que isso causaria a morte de um rio. Nenhum rio sobrevive a um complexo de sete represas”,opinou à IPS Maurício Torres, sociólogo da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa).

O Tapajós, que desemboca no rio Amazonas, percorre 871 quilômetros em uma das áreas mais preservadas da selva subtropical úmida, onde o governo reduziu áreas protegidas para construir essas hidrelétricas, proibidas em unidades de conservação. Ali vivem 12 mil indígenas munduruku e 2.500 habitantes ribeirinhos que resistem ao “megaprojeto”, outra palavra que, nesse caso, os munduruku incorporaram da língua portuguesa, para utilizar em seus reiterados protestos.

Este é historicamente um povo guerreiro e, embora cotidianamente incorporem costumes brasileiros, pintam o rosto quando têm que ir às grandes cidades expressar sua resistência ao projeto.O cacique Juarez Saw denuncia que não foram consultados, como obriga o Convênio 169 da Organização Internacional do Trabalho, ratificado pelo Brasil. O processo de legalização dessas terras indígenas foi interrompido. “Não vamos sair dessa terra. Existe uma lei que diz que uma pessoa não pode ser trasladada, a não ser em caso de uma doença que esteja matando os povos indígenas”, pontuou à IPS.

A aldeia fica em um lugar sagrado para os munduruku, onde, segundo sua história, nasceram e foram enterrados seus antepassados. “É algo que vai nos prejudicar, não só o povo munduruku que vive há tantos anos ao longo do Tapajós, mas a floresta, o rio. É de doer o coração”, disse o xamã Fabiano Karo. A entrevista acontece na cabana cerimonial onde o sacerdote cura “males do corpo e do espírito”, para os quais teme ficar sem antídotos quando a água avançar sobre a aldeia e extinguir, entre outras, suas ervas de cura.

Estudiosos dessa bacia hidrográfica alertam que a inundação provocaria uma perda significativa da cobertura vegetal, além de um aumento na emissão de gases-estufa, devido à decomposição de plantas e árvores debaixo da água. A bacia abriga uma rica diversidade de ecossistemas, com espécies únicas de plantas, aves, peixes e mamíferos, muitas em extinção.

“Pode ocorrer um impacto muito grande, especialmente na fauna aquática, porque muitos peixes amazônicos têm ciclos reprodutivos com migrações das partes baixas para as altas dos rios”, explicou à IPS o ecologista Ricardo Scuole, da Ufopa. “Grandes estruturas, como diques e barreiras artificiais, geralmente dificultam, quando não impedem, a imigração reprodutiva dessas espécies”, acrescentou.

A aldeia tem 300 hectares e estima-se que a hidrelétrica a reduzirá a uma ilha. Maria Parawá não sabe quantos anos tem, mas não tem dúvidas de que todos eles foram vividos junto ao rio. “Tenho medo da inundação porque não sei para onde ir. Tenho muitos filhos e netos para criar e não sei como os manterei”, disse a indígena à IPS com ajuda de um tradutor, porque, como muitas mulheres da aldeia, não fala português.

A poucas horas de SawréMuybu fica Pimental, com cerca de 800 habitantes, às margens do rio Tajapós, que vive da lavoura e da pesca artesanal. Em suas ruas ressoam os passos dos imigrantes nordestinos que povoaram essa região no final do século 19, na época dourada da extração de borracha. O povoado poderia desaparecer do mapa, literalmente, com a inundação da hidrelétrica. “Com o impacto da represa, toda nossa história pode ir por água abaixo”, lamentou Ailton Nogueira, que preside a Associação de Moradores de Pimental.

O consórcio responsável pela construção da usina, encabeçado pela Empresa Brasileira de Eletricidade, oferece transferir seus moradores para 20 quilômetros de distância. Mas, como para os munduruku, o rio e a pesca representam “um saber patrimonial” para esses povos, segundo o sociólogo Maurício Torres.

“É um saber construído durante milênios, passando de geração a geração. Um saber que tem pelo menos dez mil anos. Quando se represa um rio e ele se transforma em um lago, se está transformando vertiginosamente esse meio e invalidando esse saber patrimonial responsável pela sobrevivência dessa região”, ressaltou Torres à IPS.

As hidrelétricas do Tapajós são estratégicas para o governo porque abasteceriam de energia a zona Centro-Oeste e Sudeste, a mais rica e industrializada do Brasil. “São uma necessidade para o país. Sem elas, daqui em diante teremos um apagão”, afirmou José de Lima, diretor de Planejamento do município de Santarém, no Pará.

Porém, o Movimento Tapajós Vivo, presidido pelo sacerdote católico Edilberto Sena, questiona a necessidade de energia. “Por que tantas hidrelétricas no rio Tapajós? É a grande pergunta porque nós não precisamos dela. São as grandes mineradoras que necessitam dessa energia, são os mercados de São Paulo e do Rio de Janeiro que precisam dela”, enfatizou à IPS.

Cai a tarde em SawréMuybu e as famílias se reúnem no igarapé (riacho). Entre banhos, as mulheres lavam roupas e utensílios domésticos. Desde crianças, os homens aprendem a pescar, caçar e obter água para sua aldeia. Para a comunidade, é da água que surge a vida. E “ninguém tem direito de mudar” o curso da vida, afirmou o xamã Karo.

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