'O medo domina o trabalho', diz filho de vítima de barragem de Mariana

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06 Janeiro 2016

O primeiro dia útil do ano de 2016 foi terrível por vários motivos para Emerson Aparecido dos Santos, de 30 anos. Foi difícil acordar para trabalhar em 4 de janeiro, mas não por causa das festas de fim de ano. Não houve festa para ele e sua família. Vítima indireta da tragédia do rompimento da barragem da Samarco, em Mariana (MG), Santos tinha muito peso para carregar no caminho ao trabalho.
Depois de uma eternidade em casa, ele finalmente voltava para a mina de Alegria, em Ouro Preto (MG), na véspera da data em que o desastre de Mariana completou dois meses - o acidente ocorreu em 5 de novembro. Nestes dois meses, sua principal tarefa foi procurar o corpo do pai, desaparecido por conta do mar de lama da barragem da Samarco. Ainda não o encontrou.

A reportagem é de Carlos Eduardo Cherem, publicada por Portal Uol, 05-01-2015.
 
Foi com essa carga emocional que Santos, auxiliar técnico de manutenção na mina de Alegria, voltou ao trabalho nesta segunda-feira (4). E encontrou um ambiente muito diferente no trabalho."O negócio é o medo. Mudou tudo na empresa. O ambiente mudou demais. O pessoal tem medo de outro desastre. Antes a gente não pensava nisso."
 
O pai, o motorista de caminhão-pipa Aílton Martins dos Santos, 55, empregado de empresa terceirizada da Samarco, desapareceu na lama da barragem rompida de Fundão, que fica a cerca de 25 quilômetros da mina de Alegria, onde Santos trabalha há nove anos.
 
O complexo de Alegria, por sua vez, a exemplo da Samarco, também pertence à brasileira Vale e à anglo-australiana BHP Billiton, e enviava rejeitos para o reservatório da barragem que ruiu. O acidente matou 17 pessoas e duas estão desaparecidas, entre elas Aílton dos Santos.
 
"Voltar ao trabalho foi muito difícil, e piorou muito quando encontrei um pessoal que participou das buscas (em Mariana)", lamentou Emerson.
 
Conformado, ainda acredita que poderá encontrar o corpo do pai. "Acho que está dentro ou próximo do caminhão soterrado. A Vale prometeu arrumar um detector de metais para ajudar nas buscas, realizadas até hoje por bombeiros de Minas Gerais." Emerson chegou a sobrevoar a área atrás de seu pai.
 
A vida praticamente parou para o auxiliar de manutenção em 5 de novembro, o dia das barragens. Liberado imediatamente para ir a Mariana, correu em busca de alguma pista do pai. Apesar de ter recebido o salário normalmente durante o período, Emerson teve de gastar dinheiro do próprio bolso para se hospedar na cidade da barragem.
 
"Até 11 de dezembro, fiquei hospedado num hotel em Mariana. Depois disso, comecei a ir e voltar para casa todo dia", afirmou. Ele mora em Catas Altas (MG), a cerca de 40 quilômetros de Mariana.
 
Catas Altas, por sua vez, fica a aproximadamente, 45 quilômetros da mina de Alegria, onde ele trabalha de 7h30 às 16h30, de segunda-feira a sexta-feira. Sua remuneração mensal é de R$ 2.293. É casado e não tem filhos. "Minha mãe, por enquanto, está recebendo o salário do meu pai, mas nunca recebi nenhuma ajuda da Samarco".
 
Mesmo com as dificuldades e a dor do desaparecimento, Emerson Santos não se queixa. "A Vale é uma empresa muito boa para trabalhar. Tem estabilidade, plano de saúde. É claro que vou ficar. Comecei lá aos 21 anos, a família ficou orgulhosa."
 
Para a família - a família, a mãe Mirtes Rodrigues dos Santos, 57, e dois irmãos solteiros -, foi um alívio e uma alegria quando, em 8 de outubro de 2015, Aílton, após alguns meses desempregado, começou o trabalho na barragem de Fundão. "(Meu pai) não tinha completado nem um mês no serviço. Minha mãe recebeu o primeiro salário (R$ 1.600) após o acidente e o desaparecimento."
 
Vale informou nesta terça-feira (5) que os empregados da companhia são constantemente informados sobre as questões do desastre por meio de seus informativos internos e do site valeesclarece.com.br. Ainda de acordo com a mineradora, funcionários com cargos de chefia do complexo Mariana, onde fica a mina de Alegria, fizeram cerca de 70 conversas com os empregados da mina de Alegria, quando se colocaram à disposição para tirar dúvidas.
 
"Após o acidente na Samarco, a Vale fez uma verificação detalhada das condições estruturais de suas barragens. Nenhuma anomalia foi detectada", informou a mineradora.
 
Em relação às barragens da Samarco que ainda correm risco, embora pequenos, a mineradora informou "que estão sendo realizadas intervenções para reforçar as estruturas remanescentes e ampliar o fator de segurança".