Francisco entra 2016 exaltando um subestimado “oceano de misericórdia”

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05 Janeiro 2016

Ainda que, às vezes, o Papa Francisco possa se apresentar como um profeta do Antigo Testamento em suas críticas às injustiças e abusos de poder, desta vez ele adentrou o Ano Novo exaltando todo o bem existente no mundo de hoje, referindo-se a ele como parte de um “oceano de misericórdia”, invisível e subestimado.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 01-01-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Em uma virada quase poética, ele insistiu que um “oceano de misericórdia” parece contradizer o “rio de miséria, alimentado pelo pecado”, evidente ao se ler as manchetes diárias.

Francisco não tirou os seus olhos das realidades do mundo, reconhecendo, em sua oração do Angelus na sexta-feira (1º de jan.), que “todos sabemos que com o Ano Novo nem tudo mudará, e que tantos problemas de ontem permanecerão também amanhã”.

Embora os cristãos acreditam em um Deus de amor, disse Francisco, este Deus não usa uma “varinha mágica” para simplesmente fazer desaparecer os problemas.

Francisco não pôde deixar passar o fato que de as multidões em muitos de seus eventos estão sendo muito menores neste ano, com as autoridades vaticanas dizendo que houve uma redução de 30% no mês de dezembro em relação a 2014, tendência que decorre claramente do medo em torno dos ajuntamentos públicos na Europa após os ataques terroristas a Paris em novembro.

O pontífice reconheceu que tais forças podem parecer esmagadoras.

“A ‘plenitude do tempo’ parece desmoronar perante as inúmeras formas de injustiça e violência, que ferem diariamente a humanidade”, declarou ele durante uma celebração eucarística pela Solenidade de Maria Santíssima, Mãe de Deus, na Basílica de São Pedro.

“Como é possível que perdure a prepotência do homem sobre o homem? Que a arrogância do mais forte continue a humilhar o mais fraco, relegando-o às margens mais esquálidas do nosso mundo?”, falou.

Nesta aparente situação de desespero, sugeriu ele, é quando entra em cena um “oceano de misericórdia”.

“Todos nós somos chamados a mergulhar neste oceano, a deixar-nos regenerar, para vencer a indiferença que impede a solidariedade. A graça de Cristo, que realiza a expectativa da salvação, nos impele a sermos seus cooperadores na construção de um mundo mais justo e fraterno, onde as pessoas e as criaturas possam viver em paz, na harmonia da criação primordial de Deus”, continuou.

A sua insistência em ressaltar o lado positivo do mundo atual ficou claramente expresso numa sessão na Véspera do Ano Novo junto aos jovens do grupo Pueri Cantores, que reúne membros de corais católicos advindos de todas as partes do mundo. O coral internacional de 6 mil membros cantou para o pontífice na quinta-feira (31 de dez.).

Durante uma sessão informal de perguntas e respostas, perguntaram ao papa se todo os males que se vê nos noticiários vão continuar ainda existindo quando os jovens de hoje forem adultos no futuro. Em resposta, ele argumentou que, embora haja realmente muitas tragédias no mundo, há também uma reserva de coisas boas subestimadas.

“Há muitas coisas boas no mundo, e questiono-me: Por que estas coisas boas não são publicizadas?”, declarou o papa. “Parece que as pessoas gostam mais de ver as coisas negativas ou de ouvir as más notícias”, acrescentou.

“Pensemos na África, por exemplo. Há muitas coisas más, mas também temos missionários, sacerdotes, irmãs, que passam suas vidas inteiras pregando aí o Evangelho, na pobreza”.

“Existem tantas famílias santas, tantos pais que educam bem os filhos”, disse, perguntando-se por que elas não têm destaques nos meios de comunicação.

“Se tu quiseres boas qualificações – quer enquanto jornalista, apresentador de TV ou seja o que for –, mostre somente as coisas ruins”, continuou o papa. “Isso porque, com as coisas boas, as pessoas se chateiam. Ou então não sabem apresentar e fazer bem as coisas, mostrar bem as coisas boas”.

O papa exortou os seus jovens ouvintes a jamais esquecerem que “no mundo existem coisas ruins, más, e este é o trabalho do diabo contra Deus; mas existem coisas santas, coisas santas, coisas grandes que são obra de Deus”.

“Existem santos escondidos”, declarou.

(A certa altura, o papa disse aos jovens coristas que ele não canta, pois “iria parecer um burro”.)

Além de lembrar a Santíssima Maria, o primeiro dia do ano é também designado pela Igreja Católica como o Dia Mundial da Paz, observância introduzida pelo Papa Paulo VI em 1967. Em seu Angelus, Francisco argumentou que a paz deve ser “conquistada”, não apenas no nível geopolítico, mas também no nível pessoal.

“[A paz] é uma verdadeira luta, um combate espiritual, que tem lugar em nosso coração”, disse ele.

“Porque a inimiga da paz não é somente a guerra, mas também a indiferença, que nos faz pensar somente em nós mesmos e que cria barreiras, suspeitas, medos, isolamentos”.

Todos os anos o pontífice emite uma mensagem por escrito para marcar o Dia Mundial da Paz, cujo texto é divulgado com antecedência. Nesse ano, o Vaticano publicou a mensagem de Francisco no dia 15 de dezembro; nele o papa manifesta esperança pela compaixão, solidariedade e misericórdia em triunfar por sobre a “globalização da indiferença”, tanto em relação a Deus como em relação aos mais necessitados.

Como uma alternativa, ele mais uma vez instou a misericórdia, tema do Ano Jubilar especial lançado por ele em 8 de dezembro.

“A misericórdia é o coração de Deus”, escreveu Francisco. “Por isso deve ser também o coração de todos aqueles que se reconhecem membros da única grande família dos seus filhos; um coração que bate forte onde quer que esteja em jogo a dignidade humana, reflexo do rosto de Deus nas suas criaturas”.

Na sua mensagem, Francisco tomou posição em vários temas de natureza política, pedindo por uma abolição mundial da pena de morte, por um alívio às dívidas dos países mais empobrecidos e ações mais eficazes de proteção ao meio ambiente.

“A indiferença pelo ambiente natural, favorecendo o desflorestamento, a poluição e as catástrofes naturais que desenraizam comunidades inteiras do seu ambiente de vida, constrangendo-as à precariedade e à insegurança, cria novas pobrezas, novas situações de injustiça com consequências muitas vezes desastrosas em termos de segurança e paz social”, escreveu.

O pontífice advertiu que as injustiças acabam alimentando a violência.

“Quando as populações veem negados os seus direitos elementares, como o alimento, a água, os cuidados de saúde ou o trabalho, sentem-se tentadas a obtê-los pela força”, falou. Pediu então por “gestos concretos” aos que têm os direitos ao “trabalho, terra e teto” negados.

Francisco fez questão de visitar prisioneiros em Roma e em suas viagens ao exterior, e em sua mensagem instou a uma reforma prisional, incluindo a possibilidade de alternativas ao encarceramento e a um melhor tratamento às pessoas que esperam por um julgamento.

Na sexta-feira de tarde (1º de dez.), Francisco foi até a Basílica de Santa Maria Maior, em Roma, para abrir uma Porta Santa em vista do Ano Jubilar da Misericórdia. Este ato marcou a última das quatro principais basílicas papais em Roma a terem suas portas pelo pontífice.

O Vaticano geralmente considera o dia 6 de janeiro com o fim do recesso, dia em que se comemora a festa da Epifania. Nele, Francisco irá celebrar uma missa na Basílica de São Pedro.

Depois disso, ele terá um mês de janeiro bastante ocupado, com destaque para a sua alocução anual ao corpo diplomático presente no Vaticano no dia 11 de janeiro, normalmente considerado como o discurso mais importante do ano proferido pelo papa em se tratando de política externa.

No dia 17 de janeiro, Francisco se tornará o terceiro pontífice a visitar a sinagoga de Roma e a se encontrar com a comunidade judaica da cidade, dando sequência a uma marcante visita feita por São João Paulo II, em 1986, e uma outra pelo Papa Bento XVI, em 2010.

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