“O Papa disse que suspender a visita à África Central seria dar a vitória aos violentos”

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Por: André | 23 Novembro 2015

“Eu perguntei à delegação de Bangassou se queriam desistir da viagem para Bangui. Todos me disseram que não, que vão peitar seja o que for! A delegação partirá nesta segunda-feira, 23 de novembro, em um caminhão com 69 pessoas, cada uma com seu badget. São 750 quilômetros de barro, terra vermelha e solavancos.”

 
Fonte: http://bit.ly/1XjeplR  

O relato é de dom Juan José Aguirre, bispo de Bangassou, África Central, em artigo publicado por Religión Digital, 21-11-2015. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

Jogos de futebol podem ser suspensos na Europa. Mas os africanos são especiais. O Papa Francisco disse que suspender a visita à África Central, no próximo dia 29 de novembro, seria um fracasso, seria como dar a vitória aos violentos. E as orações dos fiéis sobem como o incenso, para que tudo saia bem.

Com todas as precauções possíveis, mas esperamos o Papa em Bangui, após sua visita ao Quênia e Uganda. Uma multidão imensa terá os olhos fitos naquele religioso de batina branca que aparecerá na porta do avião às 10h, vindo da Uganda e do Quênia, as primeiras duas etapas da sua primeira visita à África.

Olhando para Francisco entre a multidão estará o meu amigo Admed, pois muitos muçulmanos também aguardam por esta visita como as águas de maio. Entre eles estará o imã da mesquita central de Bangui, o imã Kobina Layama, um homem simples, humilde e com uma grande capacidade de perdão e de dizer claramente as coisas. Toda a classe política esperará por ele. Da África Central e dos países limítrofes, inclusive as conferências episcopais. Protestantes e fiéis de diversas seitas estarão ali, porque está no ar que esta visita transpirará mel para todos.

A agenda do Papa contempla uma visita à Mesquita muçulmana da Avenida Koudoukou, zona muito “quente” há muitos anos. Aconselham-no para que encontre a comunidade muçulmana em outro lugar “menos complicado” para ele e seu séquito, mas, sobretudo, para os milhares de fiéis que acompanharão o Papa Francisco para onde for e que, naquele bairro, podem deparar-se com uma bomba-relógio. Ele também irá ao Centro Batista e Evangélico, a um campo de refugiados, a um orfanato e, sobretudo, abrir a porta Santa na catedral de Bangui. A fórmula é coragem com prudência, o olhar posto no Deus da fé, na força demonstrada mil vezes pelo Jesus que “andou sobre as águas” aplacando as ondas furiosas que agitavam a barca.

Eu perguntei à delegação de Bangassou se queriam desistir da viagem para Bangui. Todos me disseram que não, que vão peitar seja o que for! A delegação partirá nesta segunda-feira, 23 de novembro, em um caminhão com 69 pessoas, cada uma com seu badget. São 750 quilômetros de barro, terra vermelha e solavancos. No caminhão, várias estão dispostas cadeiras para as 10 irmãs e os 15 padres que fazem parte dos peregrinos que se deslocam para ver o Papa e receber suas bênçãos. Em Bambari, na metade do caminho, embarcará a delegação dali, uma cidade que fica em uma encruzilhada de caminhos, onde a espiral de violência nas últimas semanas foi horrível. Aqueles que não vão sentados, devem fazer o trajeto de pé, em simbiose com o balanço do caminhão. São, no mínimo, três dias de viagem, se não houver complicações.

“Complicação” é um eufemismo. No caminho, devem passar por barreiras de rebeldes armados até os dentes, onde podem ser parados ou agredidos (é preciso passar por cerca de 20), defrontar-se possivelmente com tiroteios indiscriminados tanto na zona muçulmana como na dos anti-balaka, embora a maior preocupação seja passar pela zona mbororo (peulhs itinerantes que controlam uma área de 200 quilômetros, que foram atacados inescrupulosamente e agora se vingam dos viajantes), até chegar ao asfalto, a 120 quilômetros da capital, onde pode acontecer de tudo, por conta de salteadores inescrupulosos.

Meu vigário-geral e meus padres me proibiram expressamente de subir no caminhão por causa dos meus três infartos e outros problemas no coração. Irei de avião. Iremos ao encontro de Francisco com alegria, confiantes em que sua presença é obra do Espírito Santo capaz de ressuscitar cadáveres.

Em Bangassou, estamos há uma semana preparando a viagem. Alguns peregrinos estão tremendo como gelatina. Ir, neste momento, para Bangui é entrar no vespeiro que já dura meses. E, de passagem, mexer com as vespas. Os rebeldes podem jogar uma granada no meio da multidão, como fizeram no dia 04 de novembro em uma concentração de universitários. Dessa vez não explodiu. Era de fabricação chinesa. Mas quem sabe se haverá uma próxima.

Estamos preparando a viagem com a oração. A oração de 69 corajosos! Fazemos a oração do peregrino russo, a da frase (mantra) repetida com as contas do rosário, lentamente, sinceramente, atentamente, com amor e colhendo sempre paz interior. Tudo para que o medo não seja mais forte que a nossa esperança. A esperança paira no ar. Mas também um temeroso respeito, porque a capital vive há meses uma espiral de violência que 12 mil homens das Nações Unidas e 900 soldados franceses da Sangaris não foram capazes de frear.

A África Central fragmentou-se nos últimos três anos. Linhas vermelhas apareceram em todo o país dividindo muçulmanos e não muçulmanos, dividindo a capital em outras zonas. Há uma epidemia de violência que não para, que gangrena uma sociedade com cheiro de podridão e tensa como a corda de uma arapuca. A visita do Papa Francisco está sendo vivida como uma visita contra o relógio, rezando para que a lista de assassinatos não ultrapasse os 120 mortos e 300 feridos que tivemos em poucas semanas e para que a violência cesse pela força da sua chegada.

O imã Kobina Layama me abraça toda vez que me vê. Não por ocaso, faz dois anos, pela força de Deus, salvei-lhe a vida. Estávamos indo com o meu carro ao aeroporto com o arcebispo quando várias centenas de exaltados, armados com facões e paus, pararam o veículo para linchar o imã. Fechei as portas com o mecanismo eletrônico e me postei na porta para que ninguém tocasse no meu hóspede. Disseram-me que ninguém queria machucar a mim e ao arcebispo, mas que queriam o imã. O embate durou uma hora. O arcebispo dom Nzapalaïnga também lutou pela vida do seu amigo. Por sorte, escapamos, o pobre imã deitado sobre o capacho e protegido pelos vidros escuros. Cada vez que me vê me dá dois beijos e pede à sua esposa para que tire o véu para que eu a abençoe.

O Papa Francisco virá ao nosso encontro falando de paz e reconciliação. Nós vivemos nos últimos três anos em um labirinto. Ainda não encontramos a saída. Oxalá, o Papa nos ensine outra saída, talvez por cima, como diz o poeta argentino Marechal que de “todo labirinto se sai por cima”. Oxalá, Francisco nos ajude a nos situar no degrau de cima e nos deparar com um novo itinerário que nos tire desta violência infernal. Ou, simplesmente, que nos abra a porta do Jubileu da Misericórdia na catedral da Imaculada de Bangui para que, passando por ela, Jesus nos recolha, qual Bom Samaritano, nos cure e nos leve à pousada da reconciliação.

Bangassou, 20 de novembro de 2015.

+ Dom Juan José Aguirre,

Bispo de Bangassou (África Central)

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