Dez anos depois dos banlieues: "Uma nação racializada". Entrevista com Eric Fassin

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19 Novembro 2015

Dez anos atrás, exatamente no dia 8 de novembro de 2005, o então presidente Jacques Chirac tinha declarado o estado de emergência nos 25 departamentos onde tinha se concentrado a revolta dos jovens dos banlieues. Hoje, a um mês das eleições regionais dos dias 6 e 13 de dezembro, com a ameaça de uma possível conquista de duas presidências (Nord-Pas de Calais-Picardia e Provença-Côte d'Azur) pela Frente Nacional, a presidência Hollande e o governo Valls parecem paralisados, quase incapazes de dar respostas e enviar sinais a um país perdido.

A reportagem é de Anna Maria Merlo, publicada no jornal Il Manifesto, 10-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O sociólogo Eric Fassin, professor de ciências políticas que recentemente publicou, dentre outras coisas, Démocratie précaire. Chronique de la déraison d’Etat (Ed. La Découverte, 2012) e Gauche, l’avenir d’une désillusion (Ed. Textuel, 2014), analisa o enorme vazio escavado pelos socialistas no poder, que se mostraram incapazes de se opor à deriva "racialista" que está ganhando espaço na França.

Eis a entrevista.

Em dez anos, algo mudou na situação dos jovens? As razões para a revolta ainda estão presentes ou intervenções, grandes ou pequenos, por parte do governo e das entidades locais moveram um pouco os parâmetros?

As condições econômicas pioraram, tanto no mercado de trabalho quanto no que diz respeito ao bem-estar social nos bairros populares, e para os "jovens" isso é ainda mais difícil. Mas também as condições políticas se degradaram. Em 2005, no momento das "revoltas", o então presidente Chirac denunciou "o veneno das discriminações" e insistiu no fato de que "qualquer que sejam as origens, os filhos dos bairros difíceis são todos filhos e filhas da República". Mas, em 2015, com um presidente socialista, não resta mais muito da política de luta contra as discriminações. Não apenas a justiça absolveu os policiais incriminados depois da morte de Zyed e Bouna dez anos antes, mas o primeiro-ministro, Manuel Valls, também se recusa a impor à polícia a obrigação de fornecer um recibo (que ateste que foi realizado um controle de polícia) para lutar contra os controlos baseados na cor da pele. Como o Estado não faz nada para pôr fim a essa situação, os "jovens" tiram as consequências disso: não veem nenhuma diferença profunda entre Nicolas Sarkozy e François Hollande. Como poderiam ainda acreditar na política?

Há a impressão de uma progressiva invisibilidade dos banlieues como parte de uma coletividade republicana. Os discursos midiáticos e políticos se concentram nos "franceses de origem", fala-se do sofrimento da "França periférica", e a voz dos banlieues é pouco escutada. Na sua opinião, por que a sociedade agora vira as costas para essa parte da sociedade?

Opor a "França periférica", suburbana, aos "banlieues" significa racializar a questão social; fazer como se houvesse, por um lado, as classes populares e, por outro, as minorias raciais, e, portanto, como se as classes populares fossem brancas e como se as minorias não pertencessem ao povo. Isso não só é falso (as minorias estão sobrerrepresentadas nas classes populares), mas é muito perigoso. Por que esse jogo é feito? As políticas neoliberais postas em ação tanto pela direita quanto pelos socialistas despedaçaram os vínculos dos partidos com a sua base popular. Mas, na esquerda, muitos acreditam que, para restabelecer os vínculos com o povo, deve-se responder à sua pressuposta insegurança cultural. Em vez de responder à insegurança econômica, são atiçadas as tensões identitárias. Com o pretexto de populismo, isso mostra um grande desprezo pelas classes populares.

Todos poderiam concordar em considerar o desemprego como a causa ou uma das principais causas da crise dos banlieues (e não só). Por que são privilegiadas as questões culturais e religiosas quando se lida com essa situação?

A economia é apenas um lado do problema; o outro é a político. O problema não é só a inação nem a ação política, mas também o discurso, a grade de leitura. Por um lado, na direita, mas também entre os socialistas, muitos se recusam a falar da islamofobia; mas, por outro lado, esses mesmos não deixam de estigmatizar os muçulmanos: é a ladainha dos debates sobre o véu islâmico, os pratos à base de carne de porco na mesa, as mesquitas. Longe de resolver o problema, eles o fomentam, para manter a fronteira entre "nós" e "eles". É um meio para criar um "nós", explorando o medo e o ressentimento. O pior é que muitos, na esquerda, se deixaram levar por essa lógica negativa. Por exemplo, falam muito da República; mas não é mais questão de "integrar", mas sim de "integrar-se". Ou seja, que os "jovens", estrangeiros ou franceses, são um problema e que isso é problema deles, não nosso.

Mais em geral, a um mês das eleições regionais, com a ameaça de uma onda de votos para a extrema direita, como você responde à pergunta feita pelo artista Anish Kapoor (depois do vandalismo contra uma de suas obras, em Versalhes): o que está acontecendo neste país?

Não se trata apenas de racismo, nem unicamente da extrema direita. A situação é bem mais grave: estamos assistindo a uma racialização da nação. Quando a deputada europeia Nadine Morano afirma que "a França é um país judaico-cristão de raça branca", é claro, até mesmo na direita, isto é, no seu campo, as pessoas protestaram. Mas, infelizmente, essa ex-ministra revela o que está acontecendo – ontem com Nicolas Sarkozy, hoje com François Hollande. Evidentemente, não é questão de lhe dar razão, mas é preciso admitir que Morano diz de modo cru o que fazem os nossos políticos que, ao contrário, se apresentam como os paladinos de um antirracismo moral. Os governos sucessivos racializaram a França, deixando agir (ou fomentando) as discriminações, abandonando os bairros à relegação, organizando a segregação. Depois dos ataques contra o Charlie Hebdo e o Hyper Cacher em janeiro, Manuel Valls disse: "Um apartheid territorial, social, étnico se impôs no nosso país". Por um lado, isso significava reconhecer a realidade; por outro, porém, era uma negação da explicação e, portanto, da responsabilidade. O apartheid não se impôs sozinho; é o resultado de uma política. A racialização da sociedade francesa é a consequência de uma política de racialização. É o que denunciamos com o coletivo "Retomemos a iniciativa", tentando mostrar que é possível superar a racialização que hoje ameaça até mesmo o antirracismo.

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