50º aniversário de Nostra Aetate. A visão de um Rabino

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04 Novembro 2015

"Desde 1965, os líderes católicos têm emitido uma série de diretrizes específicas, ensinamentos, declarações, comunicados e documentos que vêm fortalecendo a bem-redigida Nostra Aetate. Na medida e quem os anos se passam e em que os católicos e judeus trabalham de maneira ainda mais estreita em questões de preocupação mútua, haverá mais “emendas” acrescidas ao texto original de 1965", escreve A. James Rudinassessor americano para assuntos inter-religiosos do Comitê Judaico, em artigo publicado por Religion News Service, 28-10-2015. A tradução de Isaque Gomes Correa

Eis o artigo.

O meu colega rabino, David Saperstein, conhecedor americano em assuntos relacionados à liberdade religiosa internacional, emitiu um relatório no começo deste mês, observando que “ao longo dos últimos anos tem havido um aumento constante na porcentagem de pessoas que vivem em países que (...) possuem sérias restrições à liberdade religiosa”.

Ao mesmo tempo, ele fez notar, “temos uma expansão enorme dos esforços inter-religiosos em quase todos os continentes no sentido de tentar e resolver estes desafios”.

Grande parte desta “enorme expansão dos esforços inter-religiosos” podem ser traçados à histórica declaração Nostra Aetate (latim para “Em nosso tempo”) que os bispos católicos adotaram há 50 anos na conclusão do Concílio Vaticano II.

O Papa Paulo VI promulgou a declaração no dia 28 de outubro de 1965 que transformou a relação da Igreja Católica com os judeus após 2000 anos de relações conturbadas, séculos repletos de intolerância religiosa e estereótipos hostis. De fato, tem havido mais encontros judaico-cristãos positivos desde 1965 do que houve nos primeiros 20 séculos de cristianismo.

Em um documento sucinto, com 624 palavras na tradução à língua inglesa, o ensino oficial do Concílio Vaticano II rejeitava a acusação obscena da culpabilidade judaica pela morte de Jesus e a falsa acusação de que os judeus são eternamente “amaldiçoados por Deus” pela crucificação de Jesus.

Além disso, diz a declaração, “na pregação da palavra de Deus” não se deve refletir preconceitos antijudáicos. Nostra Aetate deplora “todos os ódios, perseguições e manifestações de antissemitismo, seja qual for o tempo em que isso sucedeu e seja quem for a pessoa que isso promoveu contra os judeus”.

Ela também insta os católicos a desenvolverem um “mútuo conhecimento e estima” pelos judeus e pelo judaísmo, e estabelecer “estudos bíblicos e teológicos” bem como “diálogos fraternos” entre católicos e judeus. E pela primeira vez na história, os católicos foram chamados a se envolverem num diálogo judaico-católico e a reafirmar o respeito pelas religiões mundiais não católicas.

Hoje, alguns historiadores e líderes religiosos acreditam que a Nostra Aetate não foi longe o suficiente. Eles corretamente observam que o termo venoso “deicídio”, ou o assassinato de Deus, foi apagado do texto final. Eles salientam que não há menção do holocausto nem do papel central que o moderno Estado de Israel desempenha na vida dos judeus e em suas tradições religiosas. Os críticos também notam a carência de uma orientação específica em áreas fundamentais da pregação, do ensino, do ritual e da liturgia católicos.

Embora tais críticas possam ser verdadeiras, eu vejo a Nostra Aetate de forma diferente e ecoo a visão do Cardeal Walter Kasper, destacado líder católico e uma referência para as relações católico-judaicas.

Kasper escreveu que a Nostra Aetate e as suas muitas realizações positivas não devem ser percebidas como o “começo do fim” do antissemitismo religioso, mas, pelo contrário, como o “começo do começo” do desenvolvimento das relações positivas entre as duas das mais velhas comunidades de fé mundiais.

Nós ainda temos um longo caminho a percorrer no sentido de superar o preconceito, muitas vezes letal, do passado.

A Nostra Aetate pode, em certo sentido, ser comparada à Constituição dos Estados Unidos, que foi adotada a 228 anos atrás na Filadélfia. Este documento fundamental, tal como a declaração do Concílio Vaticano II, foi aprovado após um intenso debate, e os críticos da Constituição a acusavam de ser demasiado vaga, carecendo de detalhes e estando demais limitada em seu escopo.

Na realidade, as 10 primeiras emendas – a Carta dos Direitos dos Estados Unidos – foram logo adicionadas ao texto-base, e outros 17 foram acrescidos ao longo dos séculos. Mas, hoje, ninguém nega que esta Constituição tem mudado permanentemente a história do mundo e que centenas de milhões de pessoas foram beneficiadas com passagens dela.

Desde 1965, os líderes católicos têm emitido uma série de diretrizes específicas, ensinamentos, declarações, comunicados e documentos que vêm fortalecendo a bem-redigida Nostra Aetate. Na medida e quem os anos se passam e em que os católicos e judeus trabalham de maneira ainda mais estreita em questões de preocupação mútua, haverá mais “emendas” acrescidas ao texto original de 1965.

Porque as relações judaico-cristãs, como a Democracia americana, é um “trabalho em curso”, as palavras de abertura do poema “Rabbi Ben Ezra”, de Robert Browning, soam verdadeiras: “Envelheça junto de mim, o melhor ainda está por vir” (Grow old along with me, the best is yet to be, em tradução livre).

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