Papa Francisco entre Roncalli e Bob Dylan: os tempos mudam, e nós também

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26 Outubro 2015

"Os tempos mudam, e nós, cristãos, devemos mudar continuamente." A mensagem que o papa escolheu divulgar a poucas horas do encerramento oficial do Sínodo não podia ser mais clara: o processo de renovação está apenas no seu início, o caminho está marcado, de algum modo, porque, como cantava Bob Dylan há meio século, "os tempos estão mudando, e a sua velha estrada está envelhecendo rapidamente" (The times they are a-changin'). E também para Bergoglio é hora de seguir em frente, no sinal do Evangelho.

A reportagem é de Francesco Peloso, publicada no sítio Linkiesta, 23-10-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O papa não cita o grande folk singer norte-americano, mas os dois dizem a mesma coisa. Uma opinião pública acostumada a associar à Igreja e, portanto, ao papa o passo bem meditado e a palavra prudente, fica confusa com Francisco, que, quando parece prestes a desacelerar, parte novamente em quinta marcha, sem se preocupar muito com os efeitos colaterais. Especialmente no momento em que ele vê surgir obstáculos ao seu redor ou é atacado por meios lícito e menos lícitos.

É um papa no meio do caminho entre Bob Dylan e João XXIII – "escutemos os sinais dos tempos"; um papa objetivamente capaz de falar em uma linguagem diferente de todos os pontífices que o antecederam, enraizado na modernidade, nas suas culturas, nas mensagens de paz, de mudança e de justiça que percorreram o mundo desde o segundo pós-guerra até os nossos dias.

"Devemos mudar – afirmou o papa na tradicional homilia em Santa Marta – firmes na fé em Jesus Cristo, firmes na verdade do Evangelho, mas a nossa atitude deve se mover continuamente de acordo com os sinais dos tempos."

"Somos livres – acrescentou –, somos livres pelo dom da liberdade que nos deu Jesus Cristo. Mas o nosso trabalho é olhar para o que acontece dentro de nós, discernir os nossos sentimentos, os nossos pensamentos; e o que acontece fora de nós e discernir os sinais dos tempos. Com o silêncio, com a reflexão e com a oração."

"Os tempos mudam – disse ainda –, e é próprio da sabedoria cristã conhecer essas mudanças, conhecer os diversos tempos e conhecer os sinais dos tempos, o que significa uma coisa e outra. E fazer isso sem medo, com a liberdade."

Os cristãos, explicou, não devem se conformar, não devem ser conformistas. Palavras dissonantes em relação às complicadas retóricas com as quais o Vaticano nos acostumou nos últimos anos; algo aconteceu, então, os tempos estão mudando até do outro lado do Tibre, mesmo que haja dificuldades e resistências.

E se, enquanto isso, a farsa do cirurgião japonês que teria visitado Bergoglio diagnosticando-lhe um tumor – por sorte benigno, mas no cérebro – se esvazia miseravelmente como uma mentira mal contada. Francisco e os seus colaboradores, porém, registraram bem a mensagem enviada através dessa espécie de carta-bomba midiática: a partir de agora, os opositores do papa vão tentar de tudo.

No entanto, aqueles que querem parar o processo de renovação da Igreja levado adiante por Bergoglio – uma mudança não apenas institucional, mas que interessa de perto sociedades e culturas ao redor do mundo – deverão se mover realmente às pressas, porque o bispo de Roma é um Usain Bolt da fé, e, enquanto ainda estarão sendo comentados pensativamente os resultados do Sínodo, ele já estará na África.

Em poucos dias, Francisco, o argentino, irá para o Quênia, a África Central e a Uganda (de 25 a 30 de novembro), depois abrirá um Jubileu da Misericórdia durante o qual a sua indicação de uma Igreja aberta e em diálogo com o mundo, às lidas com o poder e enfileirada ao lado dos pobres, será potencializada e multiplicada.

Mas nem por isso desaparecerão as referências à tradição de uma fé profunda, popular e ainda enraizada entre milhões de pessoas. Ao contrário, aquela chama que, em muitos lugares e periferias do planeta, está se apagando precisamente no conformismo será revitalizada. Além disso, também é preciso destacar que a faculdade dada pelo papa aos sacerdotes de todos os países de absolverem do pecado de aborto durante o Ano Santo, é uma fratura muito mais profunda do que qualquer comunhão aos divorciados recasados discutida na cúpula sinodal.

A aposta do Sínodo, depois, foi vencida em uma direção fundamental: a Igreja não é mais um monólito hierático e clerical, encastelado dentro dos corredores da Congregação para a Doutrina da Fé. Os bispos finalmente reencontraram a sua palavra e contaram uma realidade muito diferente de país para país, de continente para continente.

A África, muitas vezes apontada como o componente mais conservador do Sínodo, na realidade, trouxe consigo conteúdos potencialmente explosivos: como a Igreja deverá se regulamentar com temas como a poligamia (40 países africanos de um total de 53 a admitem), os casamentos de clãs e de interesse, as longas coabitações pré-matrimoniais e os casamentos em etapas decididos pelas famílias, a família ampliada e assim por diante?

E que sentido tem a nova disciplina sobre a nulidade matrimonial – que também facilita as separações – em territórios onde é preciso fazer dois dias de viagem para chegar na cidade onde se encontra, talvez, o tribunal eclesiástico? O direito canônico na África e na Europa pode ser o mesmo? Como lidar com as questões dos direitos das mulheres? Muitas perguntas mantidas debaixo do tapete por muito tempo viram à tona.

Enquanto isso, os cardeais alemães encontraram um acordo para evitar que as divisões fossem muito disruptivas. Os purpurados Walter Kasper e Gerhard Müller – respectivamente, líder dos progressistas e conservadores dentro do Sínodo – deram um passo para trás e, sob a orientação de autoridade do arcebispo de Viena, cardeal Christoph Schönborn, renunciando às recíprocas intransigências, encontraram uma solução intermediária.

A doutrina permanece intacta, mas os bispos devem poder discernir nas diversas situações, embora com cautela, mesmo quando se trata de decidir se deve ou não a comunhão a um casal de divorciados recasados civilmente, cuidando especialmente a sinceridade e a fé dos cônjuges que pedem o sacramento.

Esse é o caminho um pouco contorcido que o Sínodo poderia encontrar para sair do impasse dos muros contrapostos, e, depois, a última palavra cabe ao papa. Mas, certamente, a substância que está emergindo é outra: a Igreja é unidade na diversidade, e esta última já exige respostas diferentes para os problemas individuais de um canto ao outro do mundo. Portanto, o que mantém tudo unido é o Evangelho, não as instruções da Doutrina da Fé.

Por fim, foi o jovem cardeal de Montevidéu, Uruguai, o arcebispo Daniel Sturla, que deixou cair alguns lugares-comuns e que explicou como as questões levantadas dizem respeito, em primeiro lugar, aos pobres e não só a uma Europa saciada, em que a família tradicional está em crise.

É nas periferias, disse o arcebispo, nas camadas sociais mais marginalizadas que podemos encontrar uma jovem, uma mãe solteira, com dois ou três filhos de homens diferentes. Essa mulher não pode ser julgada ou condenada, é a ela também que devemos falar.

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