Sínodo: a riqueza de uma Igreja plural e complexa. Artigo de Enzo Bianchi

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14 Outubro 2015

Estamos aprendendo que ser católico significa justamente ser capaz de reconhecer o direito das diferenças culturais. Estamos aprendendo que a unidade da Igreja deve permitir que ela seja plural e complexa.

A opinião é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal La Stampa, 11-10-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O Sínodo já é um evento eclesial há uma semana: já se ouviram vozes individuais dos Padres sinodais, já começaram os debates, o diálogo mais estreito nos diversos grupos linguísticos que contam com a presença de bispos unidos pela língua de intercâmbio, mas, às vezes, de extração, formação e experiências pastorais muito diferentes entre si.

É possível, por exemplo, que em um grupo linguístico italiano confluam juntos do Leste Europeu, de jovens Igrejas minoritárias de outros continentes ou membros da Cúria Romana...

Das intervenções, pouco se sabe, porque, querendo garantir a cada Padre plena liberdade de expressão, preferiu-se por não publicá-las no L'Osservatore Romano, como ocorreu por ocasião de outros sínodos. Essa medida sábia não vai contra a transparência; ao contrário, permite que cada um faça ouvir a própria voz com parrésia, sem ser logo catalogado pela mídia como pertencente a uma "fileira" e não a outra, com um consequente pré-conceito sobre a opinião expressada.

Mas justamente porque ainda não nos foi permitido medir e interpretar o andamento das intervenções, podemos fazer mais considerações sobre o Sínodo, necessárias para compreendê-lo como evento eclesial. Este Sínodo, desejado e convocado pelo Papa Francisco, já parece ser uma continuação do Concílio que terminou há 50 anos: ele não tem a mesma autoridade e continua sendo, por enquanto, um órgão meramente consultivo, mas prossegue como um Concílio, cum Petro e sub Petro, isto é, com o sucessor de Pedro e sob a sua orientação.

É um Sínodo que se deu um tempo amplo, dois anos, tentou desencadear e garantir um caminho sinodal nas Igrejas locais através de questionários submetidos aos bispos para que consultassem o povo de Deus, evento que nunca havia ocorrido anteriormente. As respostas confluíram em Roma, embora de modo desigual, porque algumas Igrejas, como a italiana, não investiram nisso energias e iniciativas, com exceção de algumas raras dioceses.

Graças a esse trabalho preparatório, o Sínodo, ao contrário dos anteriores, é sentido e seguido não só pelos fiéis, mas também pelo mundo não eclesial, embora muitas vezes se mostre incapaz de compreender qual é realmente a temática sobre a qual os bispos debatem.

O Papa Francisco não só pede uma "Igreja em saída", não só chama a todos – na Evangelii gaudium n. 46 e em múltiplas homilias e discursos – a edificar uma Igreja com as portas abertas, mas quer ad intra uma Igreja munida de um instinto da fé (sensus fidei) que a possa tornar eloquente no mundo. Encontro e diálogo são duas palavras recorrentes no Papa Francisco, que expressam bem a dinâmica sinodal.

Encontro e diálogo: essas palavras tão amadas e proclamadas por Paulo VI – postas no coração da encíclica Ecclesiam suam – retomam, depois de décadas, um novo vigor e dão a entender que hoje a Igreja tem uma consciência mais forte de ser católica, universal e, por isso, de ser composta por diversas Igrejas locais ou, mais ainda, regionais, que parecem ser diferentes, até mesmo não contemporâneas, com diferenças culturais que uma vez não eram levadas em conta na monolítica concepção romana, mas que hoje parecem não ser mais reprimíveis nem ignoráveis.

Trata-se de uma novidade pouco considerada e nem sempre ressaltada, mas hoje as Igrejas regionais (África subsaariana, Extremo Oriente, Oriente Médio, América do Norte e do Sul...) têm sensibilidades diferentes e uma voz particular quando se expressam: as culturas pesam na unidade católica, e os bispos se sentem não mais prefeitos de Roma, mas porta-vozes do povo confiado aos seus cuidados pastorais.

Estamos aprendendo que ser católico significa justamente ser capaz de reconhecer o direito das diferenças culturais. Estamos aprendendo que a unidade da Igreja deve permitir que ela seja plural e complexa.

Portanto, é fisiológico que essas diferenças venham à tona no Sínodo através de debates entre posições às vezes até distantes. No Concílio Vaticano II, isso tinha ocorrido entre Roma e a periferia, mas no Sínodo, ao contrário, isso ocorre entre as próprias Igrejas, por causa da sua geocultura diferente.

O Sul do mundo não vive o que os europeus vivem, a evolução das sociedades é tão díspar a ponto de se poder dizer que nelas nos inspiramos e nos deparamos com antropologias muito variadas, e isso se reflete inevitavelmente no debate sobre os temas sinodais.

A grande graça da Igreja Católica também é um grande desafio, do qual o sucessor de Pedro é o máximo responsável, por ser servo da comunhão: trata-se de conseguir manter na unidade da fé todos os católicos, permitindo-lhes, ao mesmo tempo, a pluralidade das formas de expressão da fé, da liturgia, da pregação, da missão e das urgências ditadas pela própria história e pela específica situação econômica, social e política. Ora, justamente a instituição da "família" é vivida de modos muito diferentes, e isso deve ser levado em conta.

Convém, no entanto, ressaltar que a longa preparação deste Sínodo favoreceu muitas polarizações, e há quem esteja predisposto a ele como se se tratasse de ir para a batalha. Não devemos nos escandalizar com isso: os conflitos, como nos ensinam as vicissitudes da Igreja nascente narradas no Novo Testamento, podem ser uma ajuda para o aprofundamento da fé e a evangelização, se não degeneram em divisões, partidos, lobbies ou até mesmo cismas.

Por isso, o Papa Francisco falou de surpresa na Aula sinodal, advertindo os Padres: nada de lógica de lobby, nada de "hermenêutica conspirativa", nada de presunção de ter que salvar a Igreja de perigos e traições. O Sínodo não é acéfalo: é um evento posto sob a orientação do Espírito Santo, reunido em torno da hegemonia do Evangelho, presidido pelo papa, servidor da comunhão. Ceder à tentação da polarização, recorrer a estratégias ou ameaças, usar tons peremptórios, afirmações sem respostas impede que o Espírito Santo atue e achata tudo em práticas políticas mundanas.

"O Sínodo não é um gueto", afirmou o bispo Celli, e um prelado canadense advertiu a "não ser uma seita". Toda lógica que lê conspirações por toda a parte, que se nutre de medo não ajuda "fazer caminho juntos" (syn-odos), mas alimenta a desconfiança recíproca e o juízo expressado com linguagem belicosa contra a outra "parte": então, até mesmo problemáticas que pertencem apenas à disciplina são lidas como questões de fé, verdades eternas para as quais vale a pena combater.

Por fim, uma pergunta: por que este Sínodo levanta muitas contestações? Isso não aconteceu com os dois Sínodos dos quais eu participei como perito nomeado por Bento XVI. Acho que posso dizer que não é apenas o tema que acender os ânimos, mas sim a descoberta ocorrida sob o Papa Francisco de que a Igreja Católica não é mais monolítica, que ela não fala mais a uma só voz, que se tornam legítimas as diferenças ao se expressar a única fé.

Poderíamos dizer que o Papa Francisco deu voz às Igrejas locais. Muita polêmica, até mesmo aqui na Itália, é conduzida por forças nem sempre constituídas por cristãos com a vida eclesial, mas por não cristãos que temem não ter mais diante de si a Igreja de sempre, às vezes grande inimiga, às vezes adorada como instituição mundana que dá identidade cultural ao Ocidente.

Sim, muitos temem que as diferenças que emergem no Sínodo, depois, sejam vividas de direito nas Igrejas, causando confusão entre os fiéis, abrindo para novas presenças até agora estranhas. Em um mundo que não tem ideias fortes, que sofre mudanças, alguns querem uma Igreja que viva ao contrário, uma contracultura, até mesmo de elite e não mais de povo: então, é melhor a identidade forte e precisa, é melhor a uniformidade que dá tanta segurança, é melhor se confiar à autoridade, do que ter que exercer a liberdade e fazer o esforço de escolher como aderir ao Evangelho e viver no mundo.

O Papa Francisco, ao contrário, embarcou em outro caminho, autêntica realização do Vaticano II: aquilo que o Papa João XXIII chamava de "aggiornamento" [atualização] e Paulo VI, "diálogo", é assumido por ele com convicção e também se torna "caminho sinodal", feito pelo papa, pelos bispos e por todo o povo de Deus.

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