Crise de desenvolvimento e saídas para a América Latina

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05 Outubro 2015

"Os governos, mesmo os que se reivindicam de centro-esquerda, ainda que com retórica nacional-popular, terminam sendo governos de centro e fazendo-se valer da razão de Estado para impor internamente as condicionantes externas para as quais estão submetidos", escreve Bruno Lima Rocha, professor de ciência política e de relações internacionais.

Eis o artigo

Estamos diante de um momento ímpar na América Latina. Os chamados governos de centro-esquerda vivem uma crise de fim de ciclo e boa parte desta crise é gerada pela insistência no modelo de desenvolvimento baseado em aprofundar a interdependência, no caso agora com a China, reforçando a economia de tipo primária ou extrativista. Isto é uma cegueira de curto prazo, onde a sobrevivência do governo de turno termia fechando as portas possíveis para outros níveis de vida. O tema de fundo é o modelo de sociedade, modelos de sociedades, que queremos construir na América Latina. Pena que este debate fica sempre em segundo plano.

Concordo com vários colegas que criticam as opções ou a falta destas diante do pouco ou nenhum debate a respeito do desenvolvimento no Continente. Durante décadas, nosso país e os países Hermanos viveram esferas do sonho intenso, onde o desenvolvimento das forças produtivas – hipoteticamente - poderia levar ao conjunto da sociedade a libertar-se de sua maldita herança e estrutura colonial. Todos nós somos um pouco nacional-desenvolvimentistas porque o imaginário político latino-americano passa pelas construções das identidades do campo nacional-popular em cada território.

Estamos no campo nacional-popular dentro de todos os matizes das esquerdas latino-americanas porque a resistência aqui é antes de nada anti-colonial e, justo por isso, classista. Logo, como dizia Artigas: “só podemos contar com nós mesmos!”. Assim, as saídas elitistas não são válidas. As mazelas do andar de cima todos nós conhecemos. Uma classe dominante composta por frações de classe e elites dirigentes bastardas, complexadas de sua origem europeia como ex-párias da imigração ou quatrocentões que aqui chegaram para domar a mata, os gentios, os africanos sequestrado, fazer o Novo Mundo e voltar para a Metrópole com as burras cheias de dinheiro fruto da exploração da força de trabalho alheia. Hoje, não querem mais voltar para Portugal ou Espanha, mas simplesmente irem viver em Miami, a capital do Império para a América Latina. O problema não é o andar de cima, porque ali não há saída a não ser derrubar os palácios e virar a mesa. O problema está na concepção de desenvolvimento a ser reconstruída na base de nossas sociedades.

Portanto, o debate não é se temos ou não de debater o desenvolvimento, mas o tipo e o caráter do mesmo, incluindo o papel de uma economia ecologicamente sustentável sem reproduzir o ciclo que é nossa armadilha: extração de produtos primários; presença da potência econômica chinesa na construção de uma infra-estrutura interdependente; eterna ameaça dos Estados Unidos, de forma direta ou indireta; e, não menos importante, o caráter bastardo e colonizado das elites dirigentes e frações de classes dominantes latino-americanas já aqui citado.

Como é consenso na área das relações internacionais para aqueles e aquelas a professar uma teoria crítica enfatizada nas relações sul-sul, se a globalização verbaliza que os fatores de produção são transnacionais, esta afirmação não passa de uma falácia neoliberal. A circulação de riquezas se dá em escala global, assim como a expansão e presença de capitais. Mas, os fatores de produção e mesmo de consumo são essencialmente nacionais e têm uma capacidade de desenvolvimento autônomo muito maior do que nos quer fazer acreditar as mentiras sistemáticas do neo-imperialismo através da onipotência dos mercados financeiros e capitais voláteis.

Infelizmente, temos uma contradição permanente na América Latina. Os governos, mesmo os que se reivindicam de centro-esquerda, ainda que com retórica nacional-popular, terminam sendo governos de centro e fazendo-se valer da razão de Estado para impor internamente as condicionantes externas para as quais estão submetidos. Isto se nota na perigosa primarização de nossas economias, focando os esforços nacionais na extração de minério de ferro, cobre, estanho, óleo cru e gás natural, plantações sem fim de soja e outros grãos, além de toda uma postura de economia predatória onde a biodiversidade opera como discurso oficial, mas não como prática política concreta.

Temos biomas demais e política econômica com o protagonismo de povos originários, quilombolas, caboclos e caiçaras de menos. Todos os nossos países têm, em maior ou menor medida, na América do Sul e Central, Caribe e Antilhas, populações equivalentes a estas importantes parcelas de remanentes brasileiros como os acima citados. Ou seja, em todo o continente, a pobreza tem sempre pele escura e vê suas formas de vida e sobrevivência subordinadas a exportação de commodities primárias, tentando fazer “equilíbrio” na balança comercial ou perigosamente convidando ou atraindo transnacionais para explorar e fornecer infra-estrutura essencial para o desenvolvimento capitalista.

Vamos supor que houvesse de fato um consenso em nossas sociedades indicando que o “progresso material” deveria respeitar os biomas, o conjunto da biodiversidade, ter um desenvolvimento econômico não predatório e respeitasse as formas das populações originárias ou tradicionais. Caso isto ocorresse, tal consenso precisaria de uma equivalente força política de modo a impor esta pauta, vetar a agenda contrária e, no mínimo, arrancar conquistas na forma de políticas públicas e condicionamentos na política econômica de base capitalista. Definitivamente, é urgente a construção deste consenso, onde as formas de vida dos remanescentes da resistência anti-colonial sejam o modelo vivo de nossa necessária luta por uma segunda independência, latino-americana, nacional-popular e classista.

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