Será que o Papa Francisco acaba de dar o primeiro voto na corrida presidencial americana?

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01 Outubro 2015

"Um dos mais notáveis exemplos de habilidade retórica de Francisco ocorreu quando ele falou ao Congresso a respeito da necessidade de 'respeito absoluto pela vida em todos os seus estágios e dimensões'", escreve Paul Vallely, professor de ética pública na University of Chester (Inglaterra) e autor da biografia intitulada “Pope Francis: The Struggle for the Soul of Catholicism”, em artigo publicado por The Guardian, 28-09-2015. A tradução é de Sander Jeanne.

Eis o artigo.

Há três meses, no avião em que voltava da Bolívia – onde tinha denunciado o capitalismo desenfreado como um sistema que cheira a “esterco do diabo” –, o Papa Francisco foi perguntado por que ela parecia ter tão pouco a dizer às classes médias que trabalhavam duro e pagavam seus impostos. O pontífice respondeu dizendo que fora “um erro de minha parte não pensar sobre isso”.

Como se poderia esperar, em sua visita aos EUA Francisco voltou sua atenção para os ganhadores na economia global. Talvez eles não tenham se agradado totalmente do resultado.

Nos EUA, o papa mostrou sua maior habilidade como operador político até agora. Como sempre, ele falou tanto por meio de ações quanto por palavras. Contrabalançou cada evento ocorrido no palco principal – a Casa Branca, o Congresso, a Assembleia Geral da ONU – com uma visita aos sem teto, imigrantes ou apenados. O pequeno Fiat preto que usou lá era mais do que um símbolo de humildade. Era um recado claro a respeito da necessidade de que cada pessoa deixe uma pegada menor no planeta. Ele não terá deixar de se lembrar que Fiat voluntas tua é a expressão no latim eclesiástico antigo que significa “Seja feita tua vontade”.

Mas suas palavras foram magistrais. Ele repreendeu, de maneira gentil mas firme, os bispos americanos por sua abordagem “dura e causadora de divisões” para com as questões do aborto e do casamento gay, que estão em pauta na “guerra cultural” [embate entre conservadores e liberais) nos EUA. “Não vim para julgar vocês ou lhes dar lições”, disse Francisco a eles, antes de fazer exatamente isso. Sua censura pode ter sido implícita, mas era clara. Ele reiterou isso ao partir do país, exortando a Igreja Católica americana a ser mais tolerante e mais inclusiva.

Ele encarnou, em sua própria abordagem, o estilo mais brando que estava defendendo, mas, não obstante, foi firme ao apresentar mensagens que a direita americana não queria ouvir.

Os bispos americanos – um grupo significativamente mais conservador do que os leigos católicos americanos – tinham a esperança de que ele desse uma bronca no Obamacare [novo sistema de saúde americano proposto em 2010 pelo presidente Obama] por incluir a contracepção e a expectativa de que ele desancasse os tribunais americanos por aprovarem o casamento gay. Em vez disso, em Filadélfia Francisco situou os direitos religiosos no contexto das responsabilidades religiosas.

“A dignidade de cada indivíduo” deve ser colocada no contexto do “ideal de uma comunidade unida por amor fraterno”, disse o papa. O individualismo liberal, estava dizendo ele, deve ser contrabalançado pela solidariedade social. E expressou um forte apoio à imigração em um país onde o líder republicano na corrida presidencial, Donald Trump, defende que 11 milhões de imigrantes ilegais sejam arrebanhados e deportados.

Ao longo de toda a sua visita aos EUA, a abordagem do papa foi hábil e nuançada, mas desafiadora. Ele podia falar com brandura porque levava um grande porrete; tinha denunciado incisivamente o capitalismo desenfreado em seus documentos Evangelii Gaudium e Laudato si’, que tinham identificado causas comuns na indiferença do mundo rico para com o planeta e os pobres.

Em seu pronunciamento ao Congresso, ele abriu espaço para críticas passadas a esses documentos. Admitiu o poder criador de riqueza das empresas e o poder solucionador de problemas do empreendimento, da engenhosidade e da tecnologia humanos. Mas estes devem estar a serviço do bem comum, e não apenas buscar o lucro a curto prazo. Na atualidade, um número grande demais de pessoas pobres ficam para trás. O que também se faz necessário é diálogo, cooperação e consenso para substituir uma economia do egoísmo por uma economia do serviço.

Houve pontos fracos em sua abordagem cautelosa. Elogiar os bispos americanos por sua “coragem” ao lidar com casos de abuso sexual pareceu uma reação bizarra às críticas dos sobreviventes de que a igreja ainda não está fazendo o suficiente. Sua afirmação de que “Deus chora”, feita após se encontrar com vítimas, não é substituto para uma ação mais rápida para disciplinar tanto os sacerdotes predadores quanto os bispos que os acobertam. Ele prometeu “seguir o caminho da verdade aonde quer que ele leve” e disse que “os clérigos e bispos serão responsabilizados”. Mas o progresso do Vaticano nesses dois aspectos é dolorosamente lento.

A canonização do controvertido missionário Junípero Serra, que muitas pessoas indígenas consideram um pecador, e não um santo, pareceu mal-avisada. E embora Francisco tenha se esforçado para endossar calorosamente o trabalho das religiosas americanas – tendo posto fim a anos de investigações do Vaticano sobre elas por darem prioridade ao trabalho com os pobres e marginalizados, em vez de moverem uma campanha contra o aborto –, ele ainda parece não fazer muita ideia de como promover o papel das mulheres na igreja. Dizer que está na hora de a igreja valorizar “a imensa contribuição” tanto das religiosas quanto das leigas não é suficiente.

Mas em outras áreas sua mensagem foi provocativa e clara. A necessidade de acolher tanto refugiados quanto migrantes econômicos foi inculcada repetidamente, quando ele afirmou ousadamente: “Não devemos nos espantar com o número deles, mas vê-los como pessoas.” E duras foram suas palavras sobre as pessoas que lucram com o comércio de armas – os EUA são o maior exportador mundial de armas – em busca de “dinheiro encharcado de sangue, muitas vezes de sangue inocente”.

Também de outras formas ele foi incisivo. Na Catedral de São Patrício – que tinha acabado de passar por uma reforma que custou US$ 177 milhões, incentivada pelo Cardeal Timothy Dolan, que vive em uma mansão situada na Avenida Madison –, o papa lembrou sacerdotes, irmãs e membros de ordens religiosas que deveriam viver com simplicidade e prevenir-se contra o argumento de que os confortos mundanos os ajudariam a servir melhor.

Um dos mais notáveis exemplos de habilidade retórica de Francisco – que declarou em sua primeira entrevista como papa que a igreja tinha estado “obcecada” demais com o aborto – ocorreu quando ele falou ao Congresso a respeito da necessidade de “respeito absoluto pela vida em todos os seus estágios e dimensões”.

Os republicanos, acostumados, a partir dos dois papas anteriores, com o endosso papal de sua opção em termos de políticas públicas, preparavam-se para aplaudir, mas viram Francisco voltar-se incisivamente para a esquerda com uma denúncia inflexível da pena de morte. Foi um golpe de mestre em termos políticos. A palavra “aborto” não aflorou uma vez sequer em seus lábios, para desgosto da direita americana.

Em contraposição a isso, a mudança climática foi virtualmente a primeira coisa que o papa mencionou ao desembarcar do avião. Ela atinge os pobres em primeiro lugar e da pior forma, disse ele à ONU. O clamor dos pobres e o clamor do planeta são um só clamor. E Francisco foi além da abordagem de papas anteriores ao aprofundar-se em detalhes até um nível sem precedentes. Os objetivos do desenvolvimento sustentável seriam “um importante sinal de esperança”. Há necessidade de uma reforma da ONU, especialmente do Conselho de Segurança e das agências financeiras internacionais, para assegurar que os países pobres “não sejam submetidos a sistemas de empréstimo opressivos”. O acordo nuclear entre os EUA e o Irã deve ser aplaudido. E ele se concentrou especificamente nas negociações vindouras sobre o clima em Paris.

Esse papa é um especialista em tática e em moral. Tudo isso poderia ter um impacto significativo nos EUA. Politicamente, houve um deslocamento que poderia mostrar ser crucial em termos dos 25% do eleitorado que se identificam como católicos.

Sob os dois pontífices anteriores, os republicanos podiam contar com o endosso papal para suas posturas contrárias ao aborto e ao casamento gay. Em contraposição a isso, os democratas católicos estavam em uma situação mais complicada, andando sobre uma corda bamba entre a expressão de respeito pelo papa e, ao mesmo tempo, por seu eleitorado em relação a essas questões.

Francisco inverteu isso; são as preferências dos democratas em termos de políticas públicas que ele endossou – no tocante à desigualdade, à imigração, à pena de morte e à mudança climática. Os democratas foram tirados do ostracismo pelo papa, enquanto os republicanos dizem que se sentem “descartados”. Os bispos católicos quase certamente se sentirão menos ávidos de endossar os republicanos e recusar a comunhão aos democratas do que no passado.

Pode bem ser que o papa tenha uma influência decisiva na corrida de 2016 para a Casa Branca.

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