Darcy Ribeiro, na visão de Gilberto Vasconcellos: pensador rebelde e anti-imperialista

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21 Setembro 2015

"O anti-imperialismo e o nacionalismo popular são componentes decisivos das perspectivas do autor e do ilustre personagem convertido em objeto de pesquisa. Tomando a trajetória e o pensamento de Darcy Ribeiro como focos de análise, o livro reflete uma preocupação com o sentido histórico do país, sua inserção na divisão internacional do trabalho, suas mazelas e seus obstáculos para converter-se em uma nação soberana, um “povo” voltado “para si”, atento às suas especificidades e aos seus desafios. Abordando Darcy, o livro de Vasconcellos explora inúmeras questões concernentes aos caminhos e descaminhos do que já se chamou de projeto de Nação", escreve Roberto Bitencourt da Silva, professor, doutor em História (UFF) e mestre em Ciência Pública, em artigo publicado por Jornal GGN, 18-09-2015.

Eis o artigo.

“O que notabiliza Darcy é o esforço em construir uma teoria do Brasil e da América Latina que não fosse eurocêntrica”.

“O antagonismo entre Terceiro Mundo e imperialismo é mais presente do que o conflito entre camadas assalariadas e patronais nas nações avançadas”.

“Os brasileiros vivem de um projeto alheio: desde os senhores escravistas aos gerentes das multinacionais”.

Informações sobre o livro: 

Gilberto Felisberto Vasconcellos. “Darcy Ribeiro: a razão iracunda”. Florianópolis: UFSC, 2015, 258 p.

Recém-lançado pela editora da Universidade Federal de Santa Catarina, o livro “Darcy Ribeiro: a razão iracunda” revela um empreendimento intelectual difícil, mas sobremodo importante: analisa diferentes aspectos do pensamento social e político de Darcy Ribeiro – antropólogo, educador, estadista e “fazedor de universidades e escolas”. Uma tarefa seguramente complicada e hercúlea, haja vista a extensa produção bibliográfica do personagem, assim como as suas múltiplas facetas na vida pública e acadêmica.

O autor é Gilberto Felisberto Vasconcellos, sociólogo, jornalista e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora. Articulista de “Caros Amigos”, cunhou há anos a expressão “petucanismo”, uma provocativa palavra que visa identificar simetrias entre as cosmovisões políticas de PT e PSDB. Muito além de uma polarização entre os dois partidos hegemônicos das últimas décadas, Vasconcellos tem procurado explorar questões e problemas nacionais comumente desprezados pelo “petucanismo”, um fenômeno político adepto da solução dependente e subalterna do Brasil ao capital internacional.

Nesse sentido, se você compreende o Brasil dividido entre “coxinhas” e “petralhas” sugiro parar a leitura por aqui. Tanto o autor, quanto o personagem submetido ao rigoroso estudo, compartilham ideias e categorias de percepção sobre o Brasil que nenhuma relação guardam com a encarniçada – e cada vez mais indistinguível – controvérsia entre as agremiações políticas nascidas na São Paulo das multinacionais.

O anti-imperialismo e o nacionalismo popular são componentes decisivos das perspectivas do autor e do ilustre personagem convertido em objeto de pesquisa. Tomando a trajetória e o pensamento de Darcy Ribeiro como focos de análise, o livro reflete uma preocupação com o sentido histórico do país, sua inserção na divisão internacional do trabalho, suas mazelas e seus obstáculos para converter-se em uma nação soberana, um “povo” voltado “para si”, atento às suas especificidades e aos seus desafios. Abordando Darcy, o livro de Vasconcellos explora inúmeras questões concernentes aos caminhos e descaminhos do que já se chamou de projeto de Nação.

Livro denso e assentado na reflexão sobre diferentes categorias conceituais, torna-se impossível deixar de circunscrever minhas observações. Desse modo, privilegio dois temas assinalados por Vasconcellos, que me parecem ligados umbilicalmente e de enorme valia para a reflexão teórica e prática sobre a política brasileira, de um ângulo que deve interessar, estritamente, às esquerdas: o conceito darcyniano de “atualização histórica” e a análise do antropólogo sobre a singular estratificação social brasileira.

A “atualização histórica” corresponde à experiência de uma sociedade e de uma economia reflexa, isto é, que não produz tecnologia própria e cuja existência tende a ser norteada para satisfazer os imperativos políticos e econômicos das potências capitalistas. Fornecedora de matéria-prima, de recursos energéticos ou submetida a uma “industrialização recolonizadora”, o modo de ser da sociedade reflexa, (neo)colonizada, é remeter lucros e riquezas ao centro do capitalismo; uma extensão subordinada deste.

Aquilo que Leonel Brizola, companheiro de lutas de Darcy, classificava como “perdas internacionais”, nos lembra Vasconcellos, ilumina precisamente o processo espoliativo sobre a periferia do capitalismo. É apenas tendo em vista o combate a tal processo que podemos compreender os reconhecidos esforços de Darcy em valorizar a educação pública. A emancipação nacional demanda domínio técnico-cientifico e gente capaz de produzi-lo. Nada a ver com a prevalecente cantilena desencarnada e a histórica sobre a “redenção social” pela escola. Não gratuitamente, cantilena limitada a uma retórica demagógico-eleitoreira.

Ademais, o processo de “atualização histórica”, particularmente por meio da instalação de empresas multinacionais, delineia severos limites à geração de empregos no Brasil. Dotadas de tecnologia própria trazida de fora, pouco absorvem força de trabalho, gestando a ambiência favorável à superexploração do trabalho e ao monopólio do mercado consumidor interno. Problema que, na concepção de Darcy, conforma um povo cuja vida não é ordenada para si, mas sim sujeito à condição de “proletariado externo” do imperialismo. Uma ampla marginalização social e econômica reside na experiência das sociedades dependentes e subalternas.

Implicação direta, como salienta Vasconcellos, é a existência de uma estratificação social peculiar: uma burguesia nacional que não merece esse nome, pois mera testa de ferro das multinacionais. Feitores da superexploração dos trabalhadores, sem projeto próprio de sociedade, seguem na esteira subordinada e acumpliciada dos imperativos do capital internacional. Na parte de baixo da pirâmide, uma minoria de trabalhadores portadores de alguns direitos e submetidos a baixos salários, pouco propensa a uma prática política que transcenda os limites corporativos do sindicalismo, consoante, identifica o autor, análise desenvolvida por Darcy.

Mais abaixo, amplas camadas sociais subalternas marginalizadas. A “ninguendade”, a “população excedentária”, vivendo de bicos e cujo sonho é ser explorada por um patrão, ter um emprego. De acordo com Vasconcellos, na ótica original de Darcy Ribeiro, o conceito marxista de “exército industrial de reserva” não se aplica ao Brasil, pois os marginalizados são “inempregáveis”, “carne descartável”.

É o “povão” abandonado à própria sorte e cuja solução, aos olhos da casta dominante interna, é a fome, o “genocídio”. Com isso, Vasconcellos darcynianamente destaca outra especificidade do capitalismo tupiniquim: o “excedente” de mão de obra não foi, nem será dirigido para a migração em outras praias, como amenizaram seus problemas sociais internos os países industrializados. Ou “genocídio” ou “socialismo”, eis a alternativa para o país e o “povão”, consoante o belo livro. Mirar a atenção no “povão”, forjando laços de solidariedade com os estratos de cima da classe trabalhadora, eis uma tarefa decisiva para as esquerdas. Mas, difícil, por conta da televisão financiada pelas multinacionais e das igrejas, ambas persuasivas. Um aspecto dramático na luta pela ruptura com a opressão imperialista.

Mobilizando a teoria social darcyniana, para Vasconcellos, os extremos da contradição social brasileira dão-se entre o “povão” e o capital estrangeiro. Contudo, o “nacionalismo foi recalcado pela ofensiva do neoliberalismo das privatizações internacionais”. Trata-se da “invisibilidade de um poder externo”, configurando “o fenômeno mais insano da contemporaneidade brasileira”. O sujeito compra a mercadoria produzida ou formatada pelos gringos e identifica-se com o estrangeiro, satiriza o autor. Todavia, Vasconcellos sugere ser possível uma retomada política e intelectual de preocupações com viés nacionalista. Isso porque o “ocaso inevitável dos combustíveis fósseis colocará o território dos trópicos no epicentro energético da história neste século XXI”, em especial com a biomassa.

Nesse sentido, vale observar que o atual drama humanitário dos refugiados líbios e sírios deve-se à ação do imperialismo norte-americano e de seus títeres europeus, França e Inglaterra, em busca do controle sobre o petróleo. Assim como a atual balcanização do Oriente Médio e do norte da África, fenômeno similar pode encontrar-se no horizonte brasileiro e, de resto, latino-americano, como pontua Vasconcellos. Seguramente não serão as baboseiras liberalóides e entreguistas que poderão responder a desafios e riscos de tamanha grandeza. 

Por esse e outros motivos, o livro “Darcy Ribeiro: a razão iracunda” representa uma excelente fonte de reflexão, não somente em relação ao passado, como também tendo em vista o tempo presente e os dilemas futuros da Nação e de nuestra América.

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