A arte das distâncias. Três livros afastam visão do indígena como bom selvagem

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01 Setembro 2015

"A missão da antropologia, desse outro ponto de vista, consistiria em 'ser a teoria-prática da descolonização permanente do pensamento' e em abandonar o paternalismo que reduz os assim chamados 'outros' a ficções da imaginação ocidental, sem lhes dar propriamente voz, e enxerga sempre o Mesmo no Outro", escreve Marcelo Leite, jornalista, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 30-08-2015.

Eis o artigo.

Está desinformado, se não mal-intencionado, quem vê no conjunto da antropologia cultural um empreendimento rousseauísta, voltado a construir e reconstruir a imagem de povos não ocidentais como "bons selvagens".

Essas pessoas em geral nunca pisaram numa aldeia indígena da Amazônia. Se o fizeram, olharam em volta com as viseiras oferecidas por vulgarizadores que escrevem best-sellers para provar que os selvagens são só selvagens, não têm nada de nobres e se reduzem a um espelho para enxergar o que de fato somos: seres violentos em sua própria natureza, que o progresso civilizatório no entanto se mostrou capaz de domar. Fim da história.

Muito caricaturalmente, bem ao estilo do que pontificam tais autores sobre gerações de antropólogos, esse é o cerne de várias obras assinadas por Napoleon Chagnon, Jared Diamond e Steven Pinker. Felizmente, há antídotos contra essa coqueluche editorial, mas é pouco provável que os afetados se disponham a parar de tossir ideias feitas contaminadas com o vírus do ultradarwinismo.

REMÉDIO

Uma vacina em dose tripla, quem sabe, poderá curar de vez o mal. A primeira tem aparência inofensiva e tema apropriadamente terapêutico: "Hwërimamotima Thë Pë ã Oni". Como?"

Traduzindo: "Manual dos Remédios Tradicionais Yanomami" [ISA - Instituto Socioambiental/Hutukara Associação Yanomami, 256 págs.], compêndio bilíngue organizado por Morzaniel Iramami Yanomami, Ehuana Yanomami, Bruce Albert, William Milliken e Vicente Coelho.

Os abraçadores de árvores, veganos, naturebas e holistas talvez se entusiasmem com a perspectiva de cura e purgação por meio das ervas da sabedoria selvática, mas não se trata disso. O livro não está à venda, destina-se ao uso cotidiano dos próprios ianomâmis (excepcionalmente, a pesquisadores que procurem o ISA), que querem preservar para os jovens um acervo de hábitos e conhecimentos em vias de se perder.

O trabalho resulta de duas décadas de estudo realizado em conjunto por índios ianomâmi e antropólogos. Lista 115 espécies de plantas e insetos usados por essa etnia do Norte do Brasil, na fronteira com a Venezuela. Três "patha thë pë" (anciãos), Justino, Lucas e Antônio, foram exaustivamente entrevistados por nove jovens pesquisadores indígenas, que contaram com apoio do ISA.

"Isto era quando tinha ainda gente que sabia curar, quando existiam ainda muitas mulheres idosas, quando os antigos ainda eram numerosos", rememora Justino no livro, "lá nas terras altas, quando não existiam brancos, quando não existiam garimpeiros".

Para o leitor ocidental comum, nada mais contraditório que um livro lançado para não ser lido, ou melhor, para não ser vendido (em outras palavras, com valor de uso para outrem, não tanto para ele). No entanto, do ângulo de uma antropologia voltada para o próprio conhecimento indígena, e não para a academia, faz sentido.

ANTICORPOS

Quem quiser ter acesso aos saberes ianomâmis, em busca talvez de anticorpos para as próprias toxinas intelectuais, pode valer-se de outra obra que será lançada nesta semana (na terça, 1º/9, a partir das 18h, com debate na Livraria Cultura do Conjunto Nacional): "A Queda do Céu - Palavras de um Xamã Yanomami" [trad. Beatriz Perrone-Moisés, Companhia das Letras, 720 págs., R$ 69,90, e-book R$ 39,90], de Davi Kopenawa e Bruce Albert.

O antropólogo francês Bruce Albert pisou pela primeira vez em terra ianomâmi em 1975, quando se construía a rodovia Perimetral Norte e a etnia enfrentava sua terceira onda de epidemias. Ele descreve a obra como "resultado de um complexo empreendimento colaborativo na junção frágil de [...] dois universos culturais".

SOBREVIVÊNCIA

Albert conheceu Kopenawa em 1978. Ali começou uma amizade. Ele escolheu tornar-se um pesquisador engajado nos esforços de sobrevivência dos ianomâmis em lugar de seguir a carreira acadêmica tradicional em seu país natal após alguns meses ou anos de trabalho de campo.

A amizade evoluiu para o projeto de dar voz ao próprio Kopenawa, que se tornara um xamã, e disseminar em outras línguas sua reflexão cosmológica sobre a destruição da floresta amazônica e o risco de uma catástrofe (a "queda do céu" do título), como a mudança do clima da Terra.

O antropólogo passou a gravar as conversas com o xamã em 1989, na língua ianomâmi. Ao longo de duas décadas, transcreveu-as e traduziu para o francês o que descreve como história de vida, autoetnografia e manifesto cosmoecológico: "Uma versão até aqui inaudita –contada com intensidade poética e dramática, assim como perspicácia e humor– da confrontação histórica entre ameríndios e as franjas de nossa 'civilização'".

Nascido em 1956, Kopenawa teve mais que o seu quinhão de violência e selvageria. Perdeu quase todos os parentes em 1967, numa epidemia de sarampo, levado para a área do rio Toototobi pela filha de um pastor da Missão Novas Tribos (um ano antes de ser lançado "Yanomamö: The Fierce People", livro em que o americano Napoleon Chagnon retrata os ianomâmis como amorais e truculentos).

Trabalhou para a Funai, pegou tuberculose dos brancos e já se iniciara havia uma década como xamã na comunidade Watoriki quando ocorreu o infame massacre de Haximu (1993). Essa história –e a controvérsia sobre a veracidade dos fatos– correu o mundo.

Na reconstituição do livro, garimpeiros matam a tiros três jovens ianomâmis. Guerreiros da etnia se vingam abatendo um garimpeiros com disparos, crivando-lhe o corpo com flechas e abrindo-lhe o crânio a machadadas. Em represália, uma coluna de 15 garimpeiros mata 12 índios: duas mulheres, um velho, uma moça, três adolescentes, duas bebês e três meninos com idades de 6 a 8 anos.

Kopenawa contou a Albert que, se os homens brancos não tivessem aparecido na floresta quando era criança, ele provavelmente teria crescido para se tornar um guerreiro. Flecharia outros ianomâmis quando estivesse com raiva e quisesse vingança. "Já pensei em fazer isso. No entanto, nunca matei ninguém", diz o xamã no livro.

"Se eu flechar um dos nossos, aqueles que cobiçam nossa floresta vão dizer que eu sou mau e desprovido de sabedoria. Não farei isso, porque são eles que nos matam com suas doenças e espingardas. E é contra eles que devo voltar minha raiva, hoje!"

O argumento parece bem razoável. O que move Davi Kopenawa é a recusa da assimilação pela cultura com que seu povo fez contato por meio de padres, missionários e garimpeiros. Violentos ou não em seu "estado de natureza", até aqui os ianomâmis só tiveram motivos para se defender dos não índios.

O xamã viajou pelo mundo e concluiu que grandes cidades confundem as cabeças dos brancos com seus ruídos e máquinas. "Seus pensamentos são quase sempre obstruídos e cheios de fumaça. Eles dormem sem sonhos, como machados abandonados no chão de uma casa."

"Hoje os homens brancos acham que deveríamos imitá-los em todos os aspectos. Mas não é isso que queremos. Aprendi seus costumes desde a infância e falo um pouco de sua língua. Mas não quero me tornar um deles. Acho que só poderemos nos tornar homens brancos quando os homens brancos se tornarem eles próprios ianomâmis."

"PRIMITIVOS"

Essa troca de pontos de vista, de certo modo, é o ideal perseguido pela antropologia, a filha bastarda do colonialismo que chegava às aldeias dos povos ditos "primitivos" seguindo as pegadas das tropas europeias.

Ideal nunca realizado, sustenta Eduardo Viveiros de Castro em seus livros, como "Metafísicas Canibais" [a sair, pela Cosac Naify, 320 págs., R$ 45, ou R$ 36 em pré-venda online com entrega a partir de 4/9].

O antropólogo do Museu Nacional/UFRJ formulou uma doutrina inovadora e muito falada, mas um tanto difícil de apreender por cabeças cartesianas: o "perspectivismo ameríndio". Viveiros de Castro propõe que os mitos de nossos indígenas encerram um pensamento original. Em lugar de naturalizar a cultura (como buscam fazer os neodarwinistas ao garimpar em terreno primitivo as pepitas da natureza humana), culturalizam e socializam o mundo natural.

Num resumo de novo quase caricatural da ideia, todos os animais –homens inclusive– se relacionam em diferentes planos de existência, entre os quais só os xamãs podem transitar, trocando de pele nos sonhos ou, no caso de xamãs ianomâmis, sob efeito de "yekuana" (pó de casca da árvore virola soprado em suas narinas).

A relação social primordial é a predação. O homem é a onça do peixe, por assim dizer. Estamos todos na mesma canoa, como escrevi numa coluna em abril deste ano ("Páscoa animal").

Em "Metafísicas Canibais", a pergunta que persegue Viveiros de Castro é sobre a dívida da antropologia para com os povos que estuda: seria a evolução da disciplina fruto unicamente de movimentos no campo intelectual e acadêmico?

"Não poderíamos efetuar uma rotação de perspectiva que mostrasse que os mais interessantes conceitos, problemas, entidades e agentes propostos pelas teorias antropológicas se enraízam no esforço imaginativo das próprias sociedades que elas pretendem explicar?" –questiona.

A missão da antropologia, desse outro ponto de vista, consistiria em "ser a teoria-prática da descolonização permanente do pensamento" e em abandonar o paternalismo que reduz os assim chamados "outros" a ficções da imaginação ocidental, sem lhes dar propriamente voz, e enxerga sempre o Mesmo no Outro.

É um desafio e tanto temperar-se nessa "arte das distâncias". Quem não se dispuser ao tratamento pode sempre buscar alívio na panaceia dos best-sellers que se comprazem em exorcizar o bom e velho selvagem.

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