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Por: André | 24 Agosto 2015

O Papa Francisco colocou-se à frente dos “movimentos populares” anticapitalistas. Mas, ao mesmo tempo, entregou o IOR à multinacional Promontory, suspensa nos últimos dias pelo Estado de Nova York.

A reportagem é de Sandro Magister e publicada por Chiesa.it, 21-08-2015. A tradução é de André Langer.

Quando se trata das superpotências mundiais das finanças o Papa Francisco se desdobra. Por um lado, confere-lhes implacáveis golpes, como fez na encíclica Laudato si’ – embora sempre de forma genérica – sem que nunca se possa saber exatamente se sob o seu machado caem também Mario Draghi e o Banco Europeu, Christine Lagarde e o Fundo Monetário Internacional, Janet Yellen e o Reserve Federal.

Por outro lado, chama ao Vaticano precisamente o Gotha da tecnocracia mundial para colocar ordem em suas desastrosas finanças, começando pelo IOR, o Instituto para as Obras de Religião, de fato já entregue ao Promontory Financial Group, com sede central em Washington.

Rolando Marranci, atual diretor-geral do banco vaticano, era do Promontory. Elizabeth McCaul e Raffaele Cosimo, que trabalham no Promontory – ela dirige a sedes de Nova York e ele é encarregado da Europa –, foram nomeados “senior adviser”. Dos Estados Unidos veio também Antonio Montaresi, para assumir como Chief Risk Officer. E trabalha no Promontory, após um período de aprendizagem no Goldman Sachs, Louis-Victor Douville de Franssu, cujo pai, Jean-Baptiste, é o atual presidente do IOR.

O Promontory goza de uma posição única no mundo. Opera no limite entre o público e o privado, como um controlador e regulador fantasma que as autoridades americanas usam para penetrar, mediante suas agências de consultoria, nas operações mais opacas dos bancos de todos os países.

Seu fundador e dirigente, Eugene A. Ludwig, era superintendente no escritório de moedas durante a presidência de Bill Clinton e ele foi seguido por outros ex-dirigentes da U.S. Securities e da Exchange Commission.

Mas esta fama de impecável braço secular da lei que o Promontory conquistou ao longo dos anos, inclusive no Vaticano, caiu por terra no dia 03 de agosto passado, quando o Departamento de Serviços Financeiros do Estado de Nova York suspendeu as operações futuras da sociedade neste Estado. O motivo: o Promontory não bloqueou as transferências de capital para Dubai realizadas pelo banco inglês Standard Chartered em favor de beneficiários iranianos, mesmo sabendo que este país é objeto de sanções.

A suspensão não afeta a atividade que os homens do Promontory seguem desenvolvendo no Vaticano, mas não deixa de ser um forte golpe à sua imagem. A sociedade anunciou que entrou com um recurso na Suprema Corte do Estado de Nova York. Por parte da Santa Sé, não houve nenhum comentário, mas é fácil imaginar a irritação de Jorge Mario Bergoglio.

O incidente reforçará ainda mais no Papa Francisco a convicção de que o mundo está nas mãos de um império transnacional do dinheiro, que tem no lucro o seu único objetivo e no “descarte” das crescentes multidões de pobres o seu instrumento.

Bergoglio não conhece Thomas Piketty e leu o seu cultuado livro O Capitalismo no Século XXI, mas subscreve suas teses de fundo, isto é, o aumento estrutural das desigualdades.

No dia 12 de julho passado, interrogado à queima-roupa por um jornalista alemão no voo de volta do Paraguai, Francisco admitiu o “erro” negligenciar em suas análises a classe média, mas acrescentou que ela “é cada vez menor”, ao ser estrangulada pela polarização entre ricos e pobres.

Pouco importa se os números reais digam o contrário. O Papa escolheu de que lado está. El convocou para estar ao seu lado – uma vez no Vaticano e outra vez na Bolívia, em Santa Cruz – aqueles que ele chama de “movimentos populares”, que são na realidade os antiglobalização, os Não-Expo, os Ocupa Wall Street, os Indignados, os Cocaleiros, em suma, a multidão dos rebeldes ao domínio do capital, nos quais ele vê a vanguarda de uma nova humanidade.

A expressão da visão política de Francisco encontra-se em seus dois discursos dirigidos aos “movimentos populares”. Não é por acaso que o mais próximo ao Papa nesta matéria, o prelado argentino Marcelo Sánchez Sorondo, tenha recrutado Naomi Klein, estrela mundial dos antiglobalização, para comentar, no Vaticano, a Laudato si’.

No dia 13 de março passado, no abarrotado Teatro Cervantes, de Buenos Aires, Gianni Vattimo invocou, entre aplausos, uma nova Internacional ao mesmo tempo comunista e “papista”, com Francisco à frente.

Mas a utopia do Papa é mais argentina que pós-marxista. Seu traço mais característico é o populismo, a identificação com um povo considerado bom, o das “periferias” das cidades e do mundo, o do “subsolo do planeta”, o dos “bairros populares, onde subsistem valores já esquecidos nos centros enriquecidos”.

São palavras de Bergoglio, mas poderiam ser de Juan Domingo Perón.

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