“O oligopólio bancário age como uma quadrilha organizada”. Entrevista com François Morin

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Por: André | 04 Agosto 2015

Os bancos “sistêmicos” desempenham um papel nefasto nas sociedades do mundo, ao mesmo tempo que transformaram a democracia em refém dos seus interesses privados. Pela primeira vez, transformou-se o equilíbrio de poder entre o público e o privado.

 
Fonte: http://bit.ly/1UjuFmY  

O mundo, a política, as democracias e as finanças são dominadas por uma hidra mundial composta por 28 grandes bancos internacionais, cujas políticas fixam o curso não apenas das finanças, mas também das democracias parlamentares. Este é o argumento implacável e rigorosamente demonstrado pelo economista francês François Morin (foto) no livro-pesquisa que acaba de publicar na França: L'hydre mondiale: L'oligopole bancaire (A hidra mundial. O oligopólio bancário, Lux Editeur).

Professor emérito de ciências econômicas na Universidade de Toulouse, François Morin foi membro do conselho geral do Banco da França e do Conselho de Análise Econômica. “A hidra mundial” é um conglomerado de 28 bancos coordenados entre si – “interconectados” – que administra o mercado de câmbio, as taxas de juros, cria os produtos tóxicos pagos depois pelos Estados, ou seja, pelos cidadãos, influencia nas políticas econômicas e modela as democracias à sua vontade.

O livro de François Morin – também autor de Um mundo sem Wall Street? – revela dados bancários inéditos sobre o poder desta hidra globalizada, cujo poder, pela primeira vez na história, transformou o equilíbrio de poder entre o público e o privado. Manobras fraudulentas, pactos secretos, lobby contra a democracia, manipulação dos mercados, estes bancos “sistêmicos” desempenham um papel nefasto nas sociedades do mundo, ao mesmo tempo que transformaram a democracia em refém dos seus interesses privados.

Basta um dado para medir seus braços: estes 28 bancos detêm recursos superiores aos da dívida pública de 200 Estados do mundo. As pesquisas realizadas em 2012 demonstraram, em parte, os meandros de suas manobras secretas. François Morin completa a pesquisa com um livro de uma grande solidez analítica onde os dados, expostos sem o crivo da ideologia, fluem como um oráculo do que virá. Hoje, os Estados são diminuídos, perderam sua soberania monetária e têm diante de si um gigante hiper vigoroso. Atualmente, 90% da moeda é criada pelos bancos, contra apenas 10% pelos bancos centrais.

Pois bem, esse oligopólio manipula como lhe convém os dois parâmetros fundamentais da moeda: a taxa de câmbio e a taxa de juros. “Os Estados são ao mesmo tempo reféns da hidra bancária e também disciplinados por ela”, disse Morin. Entre os 28 bancos do oligopólio, há 14 que “produzem” os produtos derivados tóxicos, cujo valor chega a 710 bilhões de dólares, ou seja, o equivalente a dez vezes o Produto Interno Bruto mundial.

O autor insiste na aposta da mobilização mundial para recuperar a dimensão política sequestrada pelo setor financeiro privado e não cessa de advertir que continuamos em “estado de emergência” porque no horizonte vão se formando as figuras do quebra-cabeça de um novo cataclismo. A hidra bancária transformou-se em um oligopólio de vandalismo para a economia mundial e a estabilidade das sociedades.

A entrevista é de Eduardo Febbro e publicada por Página/12, 02-08-2015. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Você demonstra a existência de um oligopólio composto por 28 bancos que estão exclusivamente a serviço dos seus próprios interesses. Em que condições e em que momento surgiu este oligopólio?

Este oligopólio começou a emergir em meados da década de 1990. A liberalização completa dos mercados de capitais permitiu a criação de vastos mercados monetários e financeiros em escala planetária. Os grandes atores bancários dessa época se adaptaram a este estado do mundo. É preciso assinalar que esta liberalização completa do mercado de capitais intervém depois de duas liberalizações precedentes, que ocorreram na década de 1970: a do mercado de câmbio e da taxa de juros. O oligopólio é criado quando estes três processos se tornam sistêmicos em escala mundial, isto é, quando a queda de um deles pode provocar um cataclismo financeiro mundial.

Como este oligopólio influenciou na crise argentina de 2001?

Há uma relação. Este oligopólio conta, em sua formação, com 14 bancos que fabricam produtos (financeiros) derivados, em especial produtos que dependem da taxa de câmbio. Pois bem, a maioria das crises sistêmicas que conhecemos a partir de 1990, seja nos países do Sudeste Asiático, no Brasil ou na Turquia, foram crises provocadas pela especulação internacional, pelo movimento de capitais. Este movimento foi, além disso, ampliado pelos produtos derivados criados com a taxa de câmbio.

A crise argentina de 2001 foi uma crise acelerada por estes produtos que permitem à especulação internacional poder ganhar muito e rapidamente. Quando a Argentina, em 2001, se afastou do dólar, houve uma forte especulação autorizada pela globalização dos mercados financeiros e pelos produtos derivados que, naquele momento, eram fabricados pelos grandes bancos internacionais. Catorze desses bancos especularam contra a Argentina.

Entre as revelações de seu livro, a mais surpreendente é que você demonstra que o peso destes 28 bancos ultrapassa a dívida pública mundial.

O poder real destes 28 bancos, ou seja, sua capacidade de mobilizar recursos financeiros, é enorme: o balanço global do conjunto destes bancos é, em 2012, superior à dívida pública de 200 Estados. Por um lado, isto mostra o poder fenomenal destes bancos e, por outro lado, lamentavelmente, a fragilidade dos Estados, que estão super endividados. Há, pois, uma fragilidade diante da força fenomenal que está diante deles.

Em que momento da nossa história recente esse oligopólio se converte naquilo que você chama de “hidra mundial”?

Começa quando nos damos conta de que esses bancos se põem de acordo entre si, que praticam uma espécie de colusão. Esses bancos agem como uma quadrilha organizada para influenciar coletivamente os principais preços da finança mundial, em especial as taxas de câmbio e as taxas de juros. As primeiras pesquisas sobre estes bancos são recentes. Remontam a 2012 e mostram que essas práticas de colusão começam realmente em 2005. Concretamente, entre os anos 1990 e 2005 o oligopólio começa a se formar e, a partir de 2005, suas práticas tornam-se comuns. Estamos na presença de um ator coletivo que se torna devastador para a economia mundial. É uma hidra devastadora.

A interconexão entre os membros do oligopólio se estende a muitos campos...

Eles agem em vários mercados. O mercado de câmbio é um dos maiores do mundo, porque hoje há seis bilhões de dólares que são trocados diariamente. Em 2012, descobriu-se que cinco bancos controlavam 51% desse mercado. Mas também manejam o mercado das taxas de juros a curto prazo e o mercado de certos produtos derivados. Este é um pouco o leque de seus atos criminosos pelos quais pagaram multas que são, em relação aos seus lucros, insignificantes.

Em que medida as ações deste oligopólio explicam as políticas de austeridade que estão em curso em quase todas as partes?

Em primeiro lugar, pela não aceitação da realidade do superendividamento dos países europeus. Quando se observa os dados, não restam dúvidas: antes da crise, o endividamento europeu era de 60% do PIB. Mas a partir de 2007, exatamente quando começa a crise, esse endividamento aumenta brutalmente. O superendividamento atual está ligado às causas da crise financeira e não ao esbanjamento nas finanças públicas, como nos querem fazer crer. Hoje se acredita que mediante políticas orçamentárias rigorosas vai se combater o superendividamento, mas isso é totalmente falso.

A crise é uma consequência do comportamento dos grandes bancos durante a crise do subprimes (produtos financeiros especulativos). Caso se queira reduzir a dívida pública atual e futura, seria preciso agir sobre esses comportamentos. Mas estes bancos continuando agindo da mesma maneira que no passado. Sem crescimento e sem inflação o superendividamento nunca será resolvido, menos ainda com políticas orçamentárias de austeridade. Estamos em um beco sem saída.

Você afirma que os Estados são reféns desses bancos.

Sim. Os Estados não ousam questionar as práticas desses grandes bancos. Estas instituições desenvolveram lógicas financeiras muito perigosas. São responsáveis pela instabilidade monetária e financeira internacional, mas os Estados estão desarmados frente a este oligopólio que é capaz de derrotar as legislações elaboradas para desarmá-lo. A lógica financeira que existia antes da crise de 2007 persiste.

De fato, este oligopólio constitui uma ameaça para as democracias. Pior ainda, modela-as à sua vontade.

Está claro que no momento em que os Estados deixam de ter uma margem de manobra, estão submetidos às oligarquias orçamentárias e, acima, como ocorre desde a década de 1970, perdem sua soberania monetária, tudo isto converge para um enfraquecimento progressivo das nossas democracias. Quando a arma monetária desaparece, quando não se conta mais com a arma orçamentária, o Estado fica diminuído diante das potências econômicas que o enfrentam e o denominam. Hoje, na maioria dos grandes países, as democracias caem e perdem sua solidez diante de um mundo econômico e bancário superpoderoso.

A sensação global que a leitura do seu livro deixa é que o cataclismo sempre nos espreita.

Sim, o cataclismo está por vir, fundamentalmente porque os grandes bancos não mudaram sua lógica financeira. Estamos diante de grupos privados que agem segundo seus próprios interesses e que são hiper poderosos. Por conseguinte, as mesmas causas produzem os mesmos efeitos. A instabilidade financeira persiste, e como as dívidas públicas só aumentam em todos os países desenvolvidos, nos defrontamos com a ameaça crescente de uma explosão da bolha das obrigações. As dívidas são constituídas por obrigações financeiras e, como a dívida aumenta, há um momento em que a bolha explodirá e teremos um cataclismo financeiro muito mais grave do que aqueles vividos até agora, já que os Estados, devido às suas políticas de rigor fiscal, não poderão intervir. Não se mudou nem um pingo a lógica profunda da globalização dos mercados e também não se quis romper o oligopólio. É evidente que estão reunidas todas as condições para que tenhamos outro cataclismo.

Você ressalta também um fato que parece de ficção científica: esse oligopólio conseguiu transformar a dívida privada em dívida pública.

Em 2007, 2008, os grandes bancos detinham os produtos tóxicos, mas, em vez de reestruturar esses bancos, em vez de fazê-los pagar pelas consequências dos efeitos comportamentais, os Estados intervieram para recapitalizar os bancos ou nacionalizá-los. Em suma, essas obrigações, que representavam uma dívida privada, transformaram-se em dívida pública. Foram pagos pelos contribuintes.

É a primeira vez na história da humanidade que o equilíbrio de poder entre o privado e o público é mudado?

É a primeira vez que temos um mundo tão globalizado onde os capitais podem deslocar-se de um lado para o outro do planeta à velocidade da luz, e onde há atores tão poderosos frente aos Estados. No passado, houve confrontos entre o poder financeiro e o poder político, mas é a primeira vez na história que esse confronto se dá em escala mundial. Essa é a novidade...

Então, revolução, mobilização cidadã... Por onde transitar com uma sociedade global que perdeu seu poder, sua capacidade de ação decisiva, que entregou sua consciência democrática e cidadã em troca do novo estatuto de consumidor planetário?

Lamentavelmente, o que vai acontecer é que, caso não se fizer nada, haverá uma nova crise financeira. E esta atitude passiva, apática, pode acarretar enormes transtornos, cujos efeitos políticos e sociais seriam dramáticos precisamente porque esse transtorno não foi antecipado pelas forças políticas e sociais. Sem dúvida, fazem-se necessárias mobilizações cidadãs. Não será fácil. Olhe o que aconteceu na Grécia, com o primeiro-ministro Alexis Tsipras e o partido Syriza. Os empecilhos ainda não terminaram. Vimos um governo aceitar um acordo no qual não acredita. Isto nos mostra até que ponto a democracia foi questionada! Na Espanha, com o movimento Podemos, talvez ocorra o mesmo.

Não creio que se possa dizer antecipadamente que as mobilizações cidadãs iniciarão as mudanças que esperamos. Talvez, com as redes sociais e os movimentos, possamos esperar que se inicie um processo. Necessitamos de uma palavra política forte capaz de sintetizar o mundo de hoje e, também, lançar a consigna capaz de abrir o caminho para as mudanças reais. As contradições que vimos na Grécia são o ponto de incandescência destas questões. Nada terminou. Como se diz popularmente, se gostamos da temporada “um” na Grécia, vamos adorar a temporada “dois”! O certo é que sem ação coletiva não sairemos disto. Como imaginar o que vem, como contornar esta relação de forças totalmente desigual entre as potências bancárias e os Estados enfraquecidos?

Reconheço que as democracias estão em perigo, mas creio que a única solução passa por uma reconquista política, que pode tomar várias formas. Nos últimos anos, os Estados foram abandonando progressivamente sua soberania política, monetária e orçamentária. Devemos levar em conta a realidade da globalização do mundo. Os Estados precisam recuperar sua margem de manobra, sua soberania, mas dentro de um marco organizado, em escala planetária. Isso supõe que os Estados atuem coletivamente organizando, por exemplo, uma grande conferência do tipo Bretton Woods (1944).

Outro caminho consiste em que os cidadãos incitem os Estados a agir, em todo o mundo, com movimentos diversos. No entanto, antes de mais nada, estas opções supõem que se tome consciência do estado do mundo, das relações de força existentes. É indispensável que a política volte ao primeiro plano da gestão dos assuntos econômicos. A moeda deve ser um bem público e não um bem privado.

Em suma, trata-se de adormecer o consumidor e despertar o cidadão globalizado. Neste contexto, a crise grega é a explosão visível da degradação das democracias ocidentais.

Os gregos têm algo muito forte em sua história milenar: sempre tiveram o sentido do político. Desde os primórdios da democracia na Grécia, os debates sempre foram muito ricos, até violentos. É isso que deve ser despertado, hoje, no mundo. Os gregos estão nos mostrando como se faz política. Encontramo-nos em estado de emergência.

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