Um Foro de São Paulo no pior momento da esquerda sulamericana

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30 Julho 2015


Começou nesta quarta-feira (29/7), na capital do México, o 21º Encontro do Foro de São Paulo, num momento em que os projetos políticos de esquerda na região, especialmente os da América do Sul, enfrentam sua grande encruzilhada.

Um evento fadado a ver travada a agenda progressista pura, com diversas questões e problemáticas sobre a mesa sendo relegadas pela urgência em se discutir como frear a avançada conservadora e seu afã por recuperar o poder em diversos países.

A reportagem é de Victor Farinelli, publicada por CartaCapital, 29-07-2015.

Foro 1

Curiosamente – e há quem duvide de que isso seja mera coincidência –, todos os países da América do Sul governados por frentes de esquerda ou de centro-esquerda passam por crises políticas atualmente, com questionamentos aos governos ou diretamente aos presidentes, alguns defendendo abertamente a interrupção de seus mandatos. É interessante verificar quatro fatores desse cenário.

O primeiro é o fato ser sediado num México onde a esquerda está mais dividida que nunca – o que talvez seja valioso como metáfora do que acontece um pouco em vários países da região –, incapaz de aproveitar os desatinos da mais uma gestão desastrosa do PRI. Um dos principais anfitriões do atual evento é o PRD (Partido da Revolução Democrática), que rachou no ano passado, e perdeu seu principal líder político. Andrés Manuel López Obrador, duas vezes candidato presidencial, deixou o partido para se somar a um novo referente da esquerda mexicana o Morena (Movimento de Regeneração Nacional).

Outra circunstância importante é como a crise econômica mundial, e como é compreensível ela fortaleça a insatisfação popular, e que os governos paguem a conta dessa insatisfação, mas é pelo menos estranho o fato dessa insatisfação se manifestar menos, e sobretudo menos violentamente, em países governados pela direita, como Colômbia e Paraguai, que enfrentam a mesma crise e onde o descontentamento também existe – claro que a Colômbia também enfrenta a oposição das FARC, que não pode ser considerada pacífica, mas é dentro de outro contexto.

O terceiro fator, que não colabora tanto para as teorias conspiratórias, é que, se por um lado, a esquerda tem razão em reclamar de uma maior agressividade dos movimentos de direita nos últimos tempos, por outro, seria errado colocar nisso a culpa pela perda de popularidade dos governos, já que, em muitos casos, esses mesmos governos também pagaram pelos erros que cometeram, e geralmente esses erros foram os que levaram à perda da principal base de apoio.

O caso de Brasil é talvez o mais emblemático da região nesse sentido. A análise é conhecida, e já foi feita por muitos, mas vale repetir: em 12 anos de governo, mesmo nos momentos em que se equivocou, o PT jamais deixou que se tocasse nos direitos trabalhistas. A luta por esses direitos foi a que gerou o partido, lançou nacionalmente o seu maior líder histórico e o levou ao poder. Lula respeitou esse acordo informal com seu eleitorado e Dilma conseguiu sua reeleição quando apontou a esse eleitorado cativo, dizendo que “os direitos trabalhistas não se tocam nem que a vaca tussa”.

Mas, uma vez reeleita, ela nomeou um ministro da Fazenda neoliberal e lançou o pacote de medidas desenhadas por ele, que atentam contra direitos conquistados pelos trabalhadores. Os movimentos contra a corrupção somente se aproveitaram, mobilizando os que sempre estiveram contra os governos do PT, mas o que coloca realmente a gestão em cheque é o fato de que aqueles que votaram em Lula e Dilma nesses últimos doze anos se sentem decepcionados ou traídos, e muitos já não estão dispostos a defender o governo ou o partido do governo.

Algo parecido acontece no Equador, onde o governo enfrenta problemas após o lançamento da nova Lei de Heranças, que aumenta os impostos de maneira gradual, cobrando mais das maiores fortunas legadas. Uma medida que seria facilmente defendida pelas esquerdas, se não fosse pelo fato de o governo ter impulsado, semanas antes, outro novo projeto, a nova Lei da Justiça do Trabalho, que inclui medidas que afetam direitos sindicais históricos e que diminui sensivelmente a verba estatal para a previdência. A medida dividiu os movimentos sociais no país, principalmente o movimento sindical, e essa divisão colaborou para haver menos reação às manifestações da direita contra a Lei de Heranças.

No Chile, uma Michelle Bachelet que iniciou seu mandato prometendo mover os pilares do neoliberalismo ortodoxo – construídos pelos Chicago Boys, durante a ditadura –, combatendo a ideia de que tudo é bem de consumo e reinstalando no país o conceito de direitos sociais, começa a claudicar e a aceitar o discurso de moderação dos aliados do PDC (Partido Democrata Cristão), diminui a aposta na gratuidade da educação pública e se distancia da possibilidade de uma Assembleia Constituinte para enterrar a carta magna de Pinochet, e com isso, também vê sua popularidade desmoronar. Importante destacar, no caso chileno, que as forças que criticam a presidenta não pedem abertamente a sua derrubada – como no Brasil, no Equador e na Venezuela –, e isso claramente se deve a que o país tem o precedente mais doloroso do mundo sobre as consequências desse tipo de golpe. Mas sim surgiram rumores muito estranhos na imprensa chilena, em meados de abril, dizendo que Bachelet havia considerado a hipótese de renunciar, os que, embora desmentidos, aumentaram a pressão sobre o seu governo.


Venezuela e Argentina são crises mais antigas, e talvez também as mais urgentes, já que enfrentam eleições cruciais neste segundo semestre. Na Argentina, cujo pleito presidencial será em outubro, o kirchnerismo decidiu nomear seu candidato preferido para a sucessão de Cristina Fernández, em vez de deixar ele ser eleito nas primárias de agosto, como estava programado – e além disso, escolheu Daniel Scioli, o mais popular, mas também o mais moderado, ou menos progressistas dos candidatos da esquerda, gerando certa frustração nas bases.

A Venezuela terá eleições parlamentárias em dezembro, e uma derrota do chavismo pode colocar Maduro em maus lençóis, não só por uma eventual perda da maioria na Assembleia Nacional, mas porque uma demonstração de força eleitoral pode levar a oposição a apostar no referendo revocatório em 2016 – acusada de ditatorial, a constituição venezuelana é uma das mais democráticas do continente, e permite à oposição solicitar um referendo para questionar o presidente quando ele chega à metade do seu mandato, como o Hugo Chávez teve que enfrentar em 2004, e Maduro chegará à metade do seu mandato no ano que vem.

Pode-se dizer que Bolívia e Uruguai vivem problemas menores, já que não enfrentam crises políticas mais agudas nem ameaças à ordem institucional, mas timidamente começam a nascer, principalmente na Bolívia, alguns movimentos que reclamam da falta de projetos de país voltados realmente ao fortalecimento de direitos sociais e não somente a uma melhor distribuição de renda e posterior inserção dos pobres no consumo.

Daí vem o quarto fator que incide sobre o cenário deste encontro do Foro de São Paulo. A melhor distribuição de renda e a diminuição da pobreza foi uma conquista de quase todos os governos de esquerda nesta última década, porém, em termos de se consolidar outros direitos sociais, como fortalecer o acesso à educação e a um serviço de saúde públicos, gratuitos e de qualidade, os resultados foram discrepantes: alguns governos fizeram mais, outros menos, mas poucos podem exibir modelos perfeitos a esse respeito, capazes de evitar as críticas opositoras – e o fato de que essas oposições quase sempre foram determinantes para obstaculizar ou sabotar as iniciativas a esse respeito serve para aliviar a pena da militância, mas não convence a população.

É bem possível que os direitos sociais como novas prioridades dos governos de esquerda da região tenham sido tema de encontros anteriores do Foro de São Paulo. Mas não foram levadas tão a sério quanto deveriam, num momento em que, se tivessem impulsado medidas reais, que estivessem dando frutos neste momento, não freariam o ímpeto da direita por recuperar o poder, mas poderiam evitar a perda de apoio popular dos governos, ou diminuir os prejuízos em crises como a atual, quando a queda no preço das matérias-primas e a manutenção dessa baixa por longo tem na América Latina um dos continentes mais afetados – outro tema de discussão, a industrialização, para acabar com as economias baseadas na exportação de matérias-primas.

Não é à toa que o encontro deste ano reservou certa prioridade a dois eventos que acontecerão na jornada de quinta-feira (30/7). Um deles é um debate sobre o rol dos meios de comunicação na reação da direita latinoamericana. O outro é um seminário onde se realizará um balanço dos governos progressistas da região e se analisará a chamada “contraofensiva imperial”.

Uma reação que pode ser tardia, que nem por isso deixa de ser necessária, mas que para ser efetiva não pode ser a mera discussão de como manter o poder, e que precisa conter o reconhecimento dos erros cometidos, principalmente esses mais recentes, e as devidas correções no rumo, buscando recuperar o apoio perdido voltando a governar em favor das necessidades diretas da base popular que manteve esses governos vigentes durante quase todo este século.

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