As pororocas do rio Araguari no Amapá foram extintas pela mão do homem

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27 Julho 2015

"A extinção da pororoca no Rio Araguari não prejudica apenas o turismo esportivo com a prática do surfe em suas ondas espetacularmente longas, que já fazia parte do calendário de certames internacionais. Há necessidade de avaliação criteriosa de seus efeitos econômicos sociais e ambientais", escreve Raimundo Nonato Brabo Alves, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, em artigo publicado por EcoDebate, 23-07-2015.

Eis o artigo.

As manchetes anunciam o fim do fenômeno da pororoca na foz do Rio Araguari. Pororoca é o fenômeno natural do encontro das águas oceânicas em nível mais elevado, com as correntes fluviais em menor nível de alguns rios que desembocam no mar. O termo pororoca tem origem na língua tupi poro’roca que significa estrondar.

É a segunda vez este ano que o Araguari no Amapá é manchete nacional. Em maio a enchente do rio atingiu mais de 2,3 metros acima do normal, deixando 1.400 pessoas desabrigadas na cidade de Ferreira Gomes, com grandes prejuízos materiais.

A extinção da pororoca no Rio Araguari não prejudica apenas o turismo esportivo com a prática do surfe em suas ondas espetacularmente longas, que já fazia parte do calendário de certames internacionais. Há necessidade de avaliação criteriosa de seus efeitos econômicos sociais e ambientais. O Araguari corta sete municípios, com uma bacia hidrográfica de 42.711 km2, incluindo o Amapari como seu tributário. Nascendo a leste do estado do Amapá e desembocando no Oceano Atlântico, em menos de 300 km de extensão o rio corta diferentes ecossistemas como matas equatoriais, cerrados, savanas mal drenadas e florestas de siriúbas que foram derrubadas para dar lugar às pastagens de canaranas para pastos de búfalos.

Em 2005 fiz uma contextualização do impacto ambiental que a criação de búfalos as margens do rio Araguari poderia trazer como consequências, considerando que o búfalo é um animal exótico para a Amazônia, no livro AMAZÔNIA: DO VERDE AO CINZA:

“Em se tratando de búfalos, muitos não querem nem pensar em estudos de impacto ambiental da introdução desse animal nos frágeis ecossistemas de campos alagados amazônicos. Em 1974, um dos programas de maior repercussão da Secretaria de Agricultura do Governo do Amapá foi o fomento de bubalinos na região dos Grandes Lagos, onde, anteriormente, predominava a bovinocultura extensiva. A introdução dessa espécie na região, sem manejo adequado, provocou como impacto imediato a derrubada de milhares de hectares de florestas inundadas de siriubal e manguezais para formação de pastagens de canarana.

Mas existem relatos de moradores de que esse ruminante tem modificado a paisagem da região. Primeiro, é do conhecimento de todos que o búfalo sem o manejo adequado “come por um e pisoteia por quatro”. Pelo fato de ser uma espécie gregária, isto é, anda sempre em grupo e em fila indiana e tem o instinto de se deslocar sempre pelo mesmo caminho, a manada de búfalos abre canais que promovem a drenagem de lagos que serviam de berçário para várias espécies de regiões lacustres, inclusive de inúmeras variedades de peixes nobres, como o pirarucu (Arapaima gigas).

As características morfológicas de formação desses lagos são na forma de um pires, com bordas de contenção muito frágeis. Na Região do Lago Grande, no Amapá, já em 1978, registrou-se a ocorrência de invasão por água salgada, no lago em que a inundação regularmente era de água doce, fenômeno que não havia no passado e que vinha sendo atribuído à introdução do búfalo na região, segundo depoimento de seus antigos moradores.

Essa drenagem descontrolada tem modificado o ambiente de maneira tão drástica que tem provocado a secagem de regiões, as quais, quando não estavam inundadas, ficavam permanentemente úmidas e formavam turfeiras. Pode-se citar como exemplo o incêndio inédito ocorrido na Reserva Ecológica do Lago Piratuba, no Amapá, em 7 de dezembro de 2001, de difícil controle, por propagar-se na turfa seca, abaixo da superfície. Próximo a essa reserva, concentra-se o maior criatório extensivo de búfalos do Vale do Rio Araguari. Além desses problemas, os criadores da Região dos Grandes Lagos, no Amapá, vêm observando, a cada ano, a agressiva proliferação de uma invasora das pastagens nativas inundadas, denominada popularmente de “algodão bravo” (Ipomea carnea), planta tóxica para os bovinos.”

Os búfalos no Amapá, que em 2002 eram de 158.393 cabeças multiplicaram-se para 254.046 em 2012, aumento de 60% do rebanho em 10 anos (IBGE, 2012) vem atormentado a vida de moradores das ilhas, como no arquipélago do Bailique, prejudicando os frágeis ecossistemas de várzeas inundáveis, afetando a pesca e acelerando um fenômeno natural na região, as “terras caídas”, que prejudicam as moradias ribeirinhas. A orientação técnica sempre foi para a criação confinada de búfalos na Amazônia, considerando que esses animais são ainda semidomesticados e facilmente retornam a vida selvagem. Alguns criadores fazem exatamente o contrário, com seus criatórios extensivos.

Atualmente a construção de hidroelétricas na bacia do rio Araguari, duas das quais já em funcionamento, disputam com os búfalos a responsabilidade pelos impactos ambientais já identificados. O desmatamento para formação espontânea de pastagens, a abertura de canais nas margens do rio pela intensa atividade de bubalinos e a redução da vazão do rio, provocada pelo represamento das hidroelétricas, inegavelmente se somam para o assoreamento da foz do rio Araguari. Lamentavelmente, estamos nos especializando na “façanha” de isolar nossos rios, que outrora desembocavam no mar.

 

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