Trabalho, teto e terra: ''¡No se achiquen!''

Revista ihu on-line

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Ontologias Anarquistas. Um pensamento para além do cânone

Edição: 543

Leia mais

Mais Lidos

  • Bartomeu Melià: jesuíta e antropólogo evangelizado pelos guarani (1932-2019)

    LER MAIS
  • Bolsonaro institui o Dia do Rodeio na Festa de São Francisco de Assis

    LER MAIS
  • “O transumanismo acredita que o ser humano está em um suporte equivocado”, afirma filósofo

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

13 Julho 2015

Francisco não deixa de surpreender os próprios e os alheios. O papa se pronuncia contra a injustiça no mundo, toma posição e convoca para a luta. No Brasil, em 2013, ele construiu uma frase ("¡Hagan lío!", façam bagunça), hoje convertida em slogan para muitos católicos e para aqueles que, sem sê-lo, compreendem o sentido da mensagem. Agora, na sua primeira turnê latino-americana, Francisco pediu que "¡no se achiquen!", não se apequenem, perante a magnitude da tarefa que têm aqueles que lutam pela mudança das estruturas injustas.

A reportagem é de Washington Uranga, publicada no jornal Página/12, 13-07-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Para os representantes dos movimentos sociais de todo o mundo, ele lhes disse que "vocês, os mais humildes, os explorados, os pobres e excluídos podem e fazem muito (...) nos grandes processos de mudança, nacionais, regionais e mundiais".

Ele os encorajou a se organizarem, porque "me atrevo a lhes dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas suas mãos". Ele os convidou à "participação protagônica" e a "promover alternativas criativas", na busca cotidiana dos "três Ts... trabalho, teto e terra". Tudo perante público muito diverso e sem maioria católica. Foi quase um discurso triunfal em uma turnê que teve um forte tom político.

Dada a densidade conceitual, política e doutrinária de muitos dos discursos feitos por Francisco durante a sua visita ao Equador, Bolívia e Paraguai, é difícil fazer uma síntese que expresse realmente tudo o que foi dito. Este que escreve vai tentar, mas não sem deixar em aberto o convite aos leitores para que repassem, na íntegra, os textos papais. Vale a pena.

Vários deles incluem perspectivas que, até não muito tempo atrás, eram impensáveis na boca da mais alta autoridade da Igreja Católica mundial. Do mesmo modo como apenas três ou quatro anos atrás também não teria sido possível imaginar esses mesmos ditos em palavras do então cardeal Jorge Bergoglio.

Mas essas especulações perderam relevância perante a contundência dos fatos e dos gestos papais, e aquilo que isso significa como contribuição para a busca de uma sociedade mais justa em nível planetário.

Como "inquilino": como os pés na sua terra

O dito e feito pelo papa nesses dias não rompe com a linha do seu magistério anterior, mas a reforça no conceitual e no simbólico. Alguém poderia dizer, com muita razão, que Jorge Bergoglio escolheu a sua primeira turnê latino-americana para aprofundar o posicionamento político-ideológico-cultural-evangélico com que ele vem surpreendendo a sociedade quase desde o mesmo dia em que assumiu como a mais alta autoridade da Igreja Católica no dia 13 de março de 2013.

Equador, Bolívia e Paraguai estão entre os países mais pobres da região. Foi nesse contexto que o papa escolheu falar. Também no marco da Igreja latino-americana que lhe serve de inspiração e que o catapultou para o papado, especialmente depois da sua participação muito protagônica na Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano de Aparecida (Brasil), em 2007. Francisco costuma definir a si mesmo como "o papa que veio do Sul".

Atuando como "inquilino", Bergoglio se sentiu em melhores condições de dizer e afirmar o que já havia defendido, em um tom mais doutrinal, nos seus dois textos, Evangelii gaudium de 2013 e Laudato si' de 2015. Embora os conceitos sejam semelhantes, são poucos aqueles que têm acesso aos documentos pontifícios.

Outra coisa é dizer o mesmo e em linguagem menos complexa perante centenas de milhares de pessoas e no meio de um banho de fervor popular. Também porque se torna mais difícil ocultar tais definições por parte daqueles que, a partir da política ou dos meios de comunicação, dizem venerar o papa, mas fazem o impossível, cada dia mais, para ignorar as suas denúncias das injustiças crescentes da sociedade que "exclui" e "descarta".

Fenômeno de silenciamento que ocorre tanto dentro quanto fora da Igreja. Muitos dos líderes políticos e sociais que se "entusiasmaram" há pouco mais de dois anos com a nomeação de Bergoglio como papa admitem hoje que estão "perplexos", quanto não "decepcionados".

Esperavam um Bergoglio "opositor" que, de Roma, "encaixotaria" Cristina Fernández Kirchner e o governo argentino, criticando as suas decisões políticas e econômicas. Como isso não aconteceu, escolheram falar da "utilização do papa" por parte do governo.

Algo semelhante aconteceu no Equador e na Bolívia. A oposição esperava diatribes de Bergoglio contra Correa, e Francisco agradeceu o presidente equatoriano por "sua consonância com o meu pensamento". E devolveu-lhe a gentileza "com meus melhores desejos para que possa conseguir o que quer para o bem do seu povo".

Diante de Evo, que não tem uma boa relação com a Igreja Católica local, Bergoglio reconheceu que "a Bolívia está dando passos importantes para incluir amplos setores na vida econômica, social e política do país" e "conta com uma Constituição que reconhece os direitos dos indivíduos, das minorias, do meio ambiente, e com instituições sensíveis a essas realidades".

E, para além dos países visitados, ele ampliou a sua referência para assinalar que, nesses últimos anos, "os governos da região uniram esforços para fazer respeitar a sua soberania, a de cada país, a do conjunto regional, que, de forma tão bela, como nossos pais de antigamente, chamam a Pátria Grande". As palavras são eloquentes... mesmo para aqueles que estão empenhados em não entender.

Mas, como entre estes últimos, por distração ou incômodo, também está parte dos católicos e dos próprios bispos, o papa disse em outro momento que "a Igreja não pode nem deve estar alheia a esse processo (de mudança) no anúncio do Evangelho".

Mudança de estruturas

No discurso de maior conteúdo político, escrito de próprio punho, e lido para evitar qualquer imprecisão, Bergoglio começou dizendo, perante os movimentos sociais em Santa Cruz, que "comecemos reconhecendo que precisamos de uma mudança".

E, para evitar a manipulação do termo, apressou-se em apontar: "Quero esclarecer, para que não haja mal-entendidos, que eu falo sobre os problemas comuns de todos os latino-americanos e, em geral, também de toda a humanidade. Problemas que têm uma matriz global e que hoje nenhum Estado pode resolver por si mesmo".

E continuou usando argumentos que poderiam muito bem estar na plataforma de muitos partidos de esquerda da região. "Insisto, digamo-lo sem medo: queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Já não se aguenta esse sistema, não o aguentam os agricultores, não o aguentam os trabalhadores, não o aguentam as comunidades, não o aguentam os povos... E também não o aguenta a Terra, a irmã mãe Terra, como dizia São Francisco".

Essa mudança, disse Bergoglio, tem que atender a nossa realidade mais próxima ("o pequeno pago"), mas tem que ser uma mudança que também "toque o mundo inteiro, porque, hoje, a interdependência planetária requer respostas globais para os problemas locais".

E acrescentou que, "quando o capital se converte em ídolo e dirige as opções dos seres humanos, quando a avidez pelo por dinheiro tutela todo o sistema socioeconômico, arruína a sociedade, condena o homem, converte-o em escravo, destrói a fraternidade inter-humana, enfrenta povo contra povo e, como vemos, põe em risco até esta nossa casa comum, a irmã e mãe Terra".

Falando na Catedral de La Paz, ele já havia afirmado que, "se a política se deixa dominar pela especulação financeira ou a economia se rege unicamente pelo paradigma tecnocrático e utilitarista da máxima produção, não poderão sequer compreender, e muito menos resolver, os grandes problemas que afetam a humanidade".

Não foram só pronunciamentos teóricos. Bergoglio também fixou rumos. "A primeira tarefa é colocar a economia a serviço dos povos. Os seres humanos e a natureza não devem estar a serviço do dinheiro. Digamos não a uma economia de exclusão e iniquidade, em que o dinheiro reina em vez de servir. Essa economia mata. Essa economia exclui. Essa economia destrói a mãe Terra".

E continuou: "A segunda tarefa é unir os nossos povos no caminho da paz e da justiça. Os povos do mundo querem ser artífices do seu próprio destino. Eles querem transitar em paz a sua marcha rumo à justiça. Eles não querem tutelas ou ingerências, em que o mais forte subordina o mais fraco. (...) Nenhum poder fático ou constituído tem o direito de privar os países pobres do pleno exercício da sua soberania e, quando o fazem, vemos novas formas de colonialismo que afetam seriamente as possibilidades de paz e de justiça".

Por isso, exortou: "Digamos não, então, às velhas e novas formas de colonialismo. Digamos sim ao encontro entre povos e culturas. Felizes os que trabalham pela paz".

E, para encerrar, a "terceira tarefa, talvez a mais importante que devemos assumir hoje é defender a mãe Terra. A casa comum de todos nós está sendo saqueada, devastada, vexada impunemente".

Por isso, "é imprescindível que, junto com a reivindicação dos seus legítimos direitos, os povos e organizações sociais construam uma alternativa humana à globalização excludente", porque "não fazê-lo é um pecado grave".

Em meio a todos esses pronunciamentos, houve espaço para criticar "a concentração monopólica dos meios de comunicação social", para dizer que "o destino universal dos bens não é um adorno discursivo da doutrina social da Igreja", porque "é uma realidade anterior à propriedade privada", para reconhecer que "se cometeram muitos e graves pecados contra os povos originários da América em nome de Deus" e pedir "humildemente perdão, não só pelas ofensas da própria Igreja, mas também pelos crimes contra os povos originários durante a chamada conquista da América", para lembrar na Bolívia o jesuíta Luis Espinal assassinado em 1980 pela ditadura de García Meza e para reconhecer, no Paraguai, as Mães da Praça de Maio.

Ele também não perdeu a oportunidade de afirmar que "a Igreja, seus filhos e filhas, são uma parte da identidade dos povos da América Latina. Identidade que, tanto aqui quanto em outros países, alguns poderes se empenham em apagar, talvez porque a nossa fé é revolucionária, porque a nossa fé desafia a tirania do ídolo dinheiro".

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Trabalho, teto e terra: ''¡No se achiquen!'' - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV