A homenagem ao padre Espinal, o ''Romero boliviano''

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10 Julho 2015

Quando alguns o exortavam a "não se expor", a não assumir posições muito explícitas em relação aos ditadores que se alternavam no poder, ele respondia: "Muitos abandonam a Companhia de Jesus porque se apaixonam. Talvez eu também devo abandonar por ter me apaixonado por esse povo que me honra com a sua confiança?". Os amigos, portanto, gravaram no seu túmulo uma única frase: "Assassinado para ajudar o povo". "Lucho teria gostado", diz o jesuíta Xavier Albó.

A reportagem é de Lucia Capuzzi, publicada no jornal Avvenire, 09-07-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Lucho" é o apelido com que o padre Xavier continua chamando o coirmão Luis Espinal, sequestrado, torturado e morto com 17 tiros em El Alto, na noite entre 21 e 22 de março de 35 anos atrás. Quem agiu foi um grupo de sicários do ditador Luis García Meza, para quem a defesa apaixonada dos últimos e da liberdade, levada adiante pelo sacerdote-jornalista-crítico de cinema com a caneta e a palavra, equivalia à ameaça mais perigosa.

Porque Luis Espinal não desafiava o regime com as armas, mas com o Evangelho. Era, portanto, necessário dar-lhe uma lição exemplar para desencorajar aqueles que, na Igreja, queriam seguir o seu exemplo.

O corpo massacrado de "Lucho" foi abandonado no km 8 da estrada para Chacaltaya, onde agora há a rodovia para La Paz. Lá, nessa quarta-feira, o papa se dirigiu assim que aterrissou na Bolívia: com uma oração silenciosa no lugar do brutal homicídio, o jesuíta Francisco quis começar essa etapa da viagem. Uma homenagem certamente ao coirmão Espinal, mas também às muitas testemunhas da Igreja latino-americana da opção pelos pobres, que, depois da forte escolha dos bispos em Medellín, deram a vida pela justiça.

"Quando o encontraram, eu estava fora da cidade. Não consegui voltar sequer para o funeral, do qual participaram 70 mil pessoas", afirma o padre Xavier, amigo fraterno de "Lucho".

"A partir do dia 6 de agosto de 1968, quando Espinal deixou a Catalunha para a Bolívia, vivemos na mesma comunidade e, por um longo período, também no mesmo quarto", acrescenta.

Enquanto a multidão dava o último adeus a "Lucho", no dia 24 de março, a 4.000 quilômetros de distância, em San Salvador, um homem armado ligado ao governo atingia no coração com um tiro o arcebispo mártir Óscar Arnulfo Romero, beatificado no dia 23 de maio passado.

Talvez por essa coincidência de datas e de episódios pessoais, muitos chamam Luis Espinal de "Romero da Bolívia". "Lucho era boliviano por opção. Ele nasceu perto de Manresa, na Espanha, onde aconteceu a conversão de Santo Inácio. Na Bolívia, ele passou os últimos 12 anos da sua vida, chegando a se naturalizar. Ele nunca conheceu pessoalmente Dom Romero. Ambos, no entanto, foram assassinados por terem se colocado ao lado dos últimos. E, em ambos os casos, quem os matou foram pessoas que formalmente se diziam cristãs, sem, porém, aceitar as implicações concretas da fé", acrescenta o padre Xavier, que, em 1977-1978, participou junto com "Lucho" dos 19 dias de greve de fome no arcebispado, em solidariedade com as mães mineiras. Estas, incluindo a conhecida sindicalista Domitila Chungara, exigiam o direito a se organizar e a ter condições de trabalho mais dignas.

"O arcebispo de La Paz, Jorge Manrique, nos apoiou. Quando os militares tentaram nos expulsar, ele ameaçou fechar todas as igrejas", ressalta o padre Albó. O jejum forçou o governo a ceder. O padre Espinal, no entanto, já estava marcado.

"Ele recebia ameaças contínuas, sabia que podiam matá-lo", concluiu o amigo. "Minimizava sempre. Poucos dias depois do homicídio, encontramos entre os seus escritos esta poesia. Que retoma uma das 'orações a queima-roupa', escritas na juventude. E representa o seu testamento: 'O país não precisa de mártires, mas de construtores. (…) E se, um dia, cabe-lhes dar a vida, eles farão isso com a simplicidade de quem cumpre uma tarefa a mais, e sem gestos melodramáticos".

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