Encontro dos Movimentos Populares. Da exclusão à organização dos trabalhadores

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Por: Jonas | 10 Julho 2015

O segundo dia do Encontro Mundial dos Movimentos Populares foi aberto com o painel “Da exclusão à organização popular dos trabalhadores”.

A reportagem é publicada pelo sítio do EMMP 2015 (Encontro Mundial dos Movimentos Populares), 08-07-2015. A tradução é do Cepat.

 
Fonte: http://goo.gl/0kzo8R  

“O sistema capitalista está em função do dinheiro, com o qual se produz a exclusão, porque convém ao Sistema, com o objetivo de lucro, excluir parte da sociedade. É uma consequência de como o sistema de trabalho está organizado hoje...”, afirmou Marcelo Sánchez Sorondo, Arcebispo da Academia Pontifícia de Ciências do Vaticano, durante o Painel desta manhã.

Neste espaço, foram apresentadas experiências de lutas, reivindicações e formas de organização em diversos cenários da América Latina, onde as políticas neoliberais e o lucro do mercado marginalizam trabalhadoras, trabalhadores e famílias inteiras, condenando-as à pobreza e marginalidade.

O direito ao trabalho é um dos elementos de todo ser humano, pois com ele não apenas satisfaz suas necessidades, mas contribui com os demais e com o próprio desenvolvimento da sociedade. Quando não se conta com este direito, é muito difícil falar de justiça social.

“Há muitas formas de trabalho e de ter acesso a elas - disse Marcelo Sánchez -, e os que regem o bem comum deveriam se ocupar (delas). Quando não agem assim, o próprio povo tem que se ocupar, por isso, os Movimentos Populares são chamados a buscar trabalho para a própria população”.

A vivência das lutas de trabalhadoras e trabalhadores argentinos foi ouvida na voz de Esteban Castro, Secretário Geral da Confederação de Trabalhadores da Economia Popular da Argentina, que refletiu sobre “as profundas reflexões que ocorrem no campo popular, hoje, a respeito do que se deve fazer para reverter o modelo de fome, desemprego e miséria que as corporações e o capital financeiro internacional querem impor”.

“Nós lutamos por tudo o que se lutou na Argentina e por todos os que lutaram na América Latina, por isso lutamos, e para que não se aprofunde o pensamento neoliberal” – disse o dirigente sindical, ao mesmo tempo em que sentenciava o desaparecimento daqueles que atentam contra os direitos dos trabalhadores: “Eles, como Videla, morrem, inclusive, na prisão como ele, e nós não, ainda que também tenhamos mortos na luta (30.000 companheiros detidos e desaparecidos na Argentina), nós continuamos combatendo. Eles morrem como ratos, porque é o que eles são. Nós somos trabalhadores e aos trabalhadores se respeita, caralho!”.

Relembrou a chegada de Néstor Kirchner ao poder e quando disse que não abandonaria suas convicções na porta da Casa Rosada, “Ele, junto com Lula e Hugo Chávez, disse não a ALCA! Ao caralho! E isso foi o que aconteceu na Argentina e na América Latina. Por isso, hoje dizemos às corporações que vão para o inferno! Não necessitamos delas! Nós, trabalhadores, sabemos organizar a produção, sabemos comercializar, somos dignos, e a Bolívia nos demonstrou que os trabalhadores são dignos. Está aí Evo Morales! Essa é a dignidade deste povo!

Outra das experiências expostas foi a de trabalhadoras e trabalhadores por conta própria, na Guatemala, mediante a palavra de María del Carmen Aguillar, do Sindicato Nacional de Trabalhadores Independentes da Saúde da Guatemala: “Dizem-nos que somos da economia informal em nossos países, e de informal não temos nada, somos bem formais e pagamos nossos impostos, e são as empresas que ficam com tudo”.

A dirigente sindical relatou o processo vivido e a organização que assumiram para se defender dos governos “que querem nos exterminar” - disse -, “dizem que querem nos formalizar, mas, de que modo? Escravizando-nos, perseguindo-nos, roubando nossas mercadorias? De que forma querem nos formalizar? Os mercados são nossos, as ruas são nossas, não do governo”.

Por sua vez, refletiu sobre os desafios que as diferentes formas de organização sindical, camponesas, movimentos sociais e o povo em geral, na Guatemala, ainda enfrentam: “Temos que fazer alianças, sentir a dor dos camponeses, a dor dos irmãos que lutam pela terra, a dor das mulheres, das crianças e jovens, porque de forma individual nunca vamos ganhar nada”.

Com uma experiência fruto da vontade política de um governo que se coloca em função de seu povo, falou Miguel Albarracín, Diretor Nacional do Trabalho, Setor de Trabalhadores Fabris da Bolívia, que reconheceu que: “O que conseguimos hoje na Bolívia é um exemplo de como se respeitam os direitos trabalhistas, não é o que gostaríamos, mas com nosso governo vamos ganhando demonstrações práticas em salário, estabilidade trabalhista e muitos outros programas...”. Ao mesmo tempo, considerou: “Temos que nos desenvolver industrialmente para não sermos apenas exportadores de matéria-prima, mas é necessário fazer isto sem afetar o meio ambiente e respeitando o direito dos trabalhadores, e isto estamos cumprindo em todo o país”.

José Raúl Vera López, bispo da Diocese de Saltillo, no México, apresentou um caso concreto de como a boa vontade, a perseverança, mas, principalmente a unidade, permitem passar de necessidades e demandas para projeções, ações e resultados concretos.

Após a explosão de uma mina em 2006, em que morreram 65 mineiros, os empresários afirmavam que eles não eram responsáveis, mas, sim, os próprios mineiros, pois “sabiam o que estavam fazendo lá embaixo”, diziam os empresários. “O familiares não tinham nenhum direito, apenas os mineiros, e como estavam mortos já não podiam reivindicar nada. Nisso, descobrimos o grau de exclusão no qual os mineiros viviam”.

O Bispo narrou o intenso trabalho realizado para reunir as famílias das vítimas e planejar ações que fizessem justiça diante dos fatos, sempre que da parte do Estado nada fosse realizado. Com uma família que não aceitou os subornos da empresa, começaram um projeto com o qual: “Conseguimos mudar a crença que os mineiros tinham de que, como eles estavam mexendo no interior da terra, alguém tinha que morrer de vez em quando. Isto já acabou. Estas famílias estudaram, informaram-se. Atualmente, há uma nova mentalidade, e isso é possível porque temos aí uma organização de pessoas que antes eram excluídas e que agora estão em uma atividade dinâmica, e é das famílias, não só dos trabalhadores, e nisso superamos os sindicatos que se concentravam apenas nos trabalhadores, pois as famílias também têm direitos”.

No encerramento do Painel, Eliane de Moura Martins, do Movimento de Trabalhadoras e Trabalhadores por Direitos (MTD), do Brasil, disse que “temos que ter muito claro a dimensão da unidade dos trabalhadores, independentemente de nossas formas de trabalho, se são formais ou informais, a unidade de homens e mulheres em todos os espaços que tenhamos. Nós, trabalhadores, temos que ter nosso projeto de produção, econômico, social, cultural, político e de gênero. Temos a obrigação de lutar pelo modo de vida que queremos para nossas sociedades, continente e mundo. Para isso, precisamos de unidade, de solidariedade, de generosidade, ternura, compreensão, porque somos de uma diversidade fantástica, e temos que encontrar um voto de equilíbrio para superar as dificuldades que nós todos temos”.

A manhã se encerrou com depoimentos de delegados que contaram suas próprias experiências, como o representante da Central Única dos Trabalhadores de Minas Gerais, Brasil, Jairo Nogueira, que se referiu à crise sistêmica do capitalismo, que só pretende continuar acumulando capital à custa dos trabalhadores, e à necessidade de unir as lutas, tanto da América Latina como de todas as partes do mundo, recordando o que está ocorrendo agora na Grécia.

Charo Castelló, da Irmandade Operária de Trabalhadores Católicos da Espanha, também falou da crise que atinge a Europa. Em especial, referiu-se ao direito ao trabalho e trabalho com direito. Ela ressaltou como já não são os estados os que fazem políticas sobre o trabalho, mas, sim, as transnacionais. Na Europa, há uma porcentagem de desemprego sempre mais alta, trabalho sempre mais precarizado e imigração forçada na busca por trabalho, que é necessário para a dignidade dos seres humanos.

Juan Churats, do Movimento Mundial de Trabalhadores Católicos do Peru, ressaltou como o Papa, no ano passado, em Roma, disse que os movimentos não deveriam seguir a corrente, mas ir contra a corrente e lutar. Também disse como é importante semear em terra fértil para ter uma boa colheita, e de como isso é o que está ocorrendo aqui na Bolívia.

Sobre as fábricas recuperadas falou Luis Maidana, do Movimento Nacional de Empresas Recuperadas da Argentina, compartilhando sua experiência de ocupação, resistência e produção em seu frigorífico, que, sim, foi possível recuperar, mas recomenda que não se venda ao poder. Disse que apoia o Papa Francisco, não tanto pela religião, mas porque o inspira a ser pessoa melhor em tudo.

María Elbia Pisuña Llulluna, da Rede Nacional de Recicladores do Equador, também compartilhou sua experiência e sobre como conseguiram ter um reconhecimento por parte do estado do Equador para todas as 38 organizações de recicladores, e que agora a luta continua para todos os trabalhadores da economia popular. Este encontro será uma grande oportunidade para visibilizar o trabalho de todos.

Da Itália, Giulia Baruffo falou da “antimafia social” e do trabalho que a organização Libera está realizando, propondo uma lei para que os bens da máfia sejam utilizados pelas organizações que trabalham contra a exclusão social.

Julieta Varela, da Rede Feminismo Comunitário da Bolívia, apresentou um documento pela libertação dos povos e das mulheres, onde se destaca como as mulheres não são uma minoria, mas, ao contrário, mais de 50% de cada povo. No documento, são apresentados os quatro D: Desde os povos, os povos originários, as organizações e os movimentos organizados; Despatriarcalização dos Estados e sociedades; Descolonização dos corpos, culturas, espiritualidades e territórios; e ‘Desneoliberalização’ anticapitalista das economias, trabalho e produção.

No final, o representante do povo Guarani-Kaiowá, Elizeo Lopes, fez uma denúncia contra o governo do Brasil pela tomada das terras onde os povos indígenas vivem.

Marcelo Sánchez Sorondo, Arcebispo da Academia Pontifícia de Ciências, encerrou a manhã destacando a necessidade de globalizar o trabalho e de que os movimentos populares sejam mais protagonistas, pois sem trabalho não chegamos ao reino dos céus.

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