"Cuidem para não cair numa doença totalmente perigosa: o Alzheimer espiritual", alerta o Papa

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09 Julho 2015

"Peçam a graça de não perder a memória, de não sentir-se mais importante. É muito triste quando se vê um sacerdote ou um consagrado ou uma consagrada que na sua casa falava o dialeto, ou falava outra língua, uma dessas nobres línguas antigas que têm os povos do Equador, quantas têm. E é muito triste quando se esquecem da língua. É muito triste quando não a querem falar, isso significa que se esqueceram de onde o tiraram. Não se esqueçam disso. Peçam essa graça", pediu o Papa Francisco num memorável discurso, de improviso, proferido no encontro com o clero, os religiosos e as religiosas e seminiaristas, no Santuário Mariano "El Quinche", no último dia da sua visita ao Equador.

A transcrição da íntegra do pronunciamento é de Zenit, 08-07-2015.

Segundo o Papa, "São Paulo intuia este perigo de perder a memória, e ao seu filho mais querido, o bispo Timóteo, a quem ele ordenou, lhes dá conselhos pastorais, mas tem um que toca o coração. Não te esqueças da fé que tinha a sua avó e a sua mãe, ou seja, não se esqueça de onde lhe tiraram, não se esqueça das suas raízes, não se sinta promovido".

Eis o discurso.

Bom dia, irmãos e irmãs:

Nestes dias, 48 horas que estive em contato com vocês, senti que havia algo estranho, perdão, algo estranho no povo equatoriano. Onde quer que eu vá, a recepção é sempre alegre, feliz, amigável, religiosa, piedosa. Havia piedade na forma, por exemplo, de pedir a benção, do mais velho ao mais novo. A primeira coisa que aprende é isso.

Havia algo diferente. Eu também tive a intenção, como bispo, de perguntar: qual é a receita deste povo? E, dava voltas na cabeça e rezava. Perguntei para Jesus várias vezes, em oração. O que este povo tem de diferente? E nesta manhã orando veio-me aquela consagração ao Sagrado Coração. Acho que tenho que dizê-lo como uma mensagem de Jesus. Toda esta riqueza que vocês têm, a riqueza espiritual de piedade, de profundidade, vem de ter tido a coragem, embora fossem momentos muito difíceis, de consagrar a nação ao coração de Cristo, esse coração divino e humano que nos ama tanto. E noto-o um pouco com isso, divino e humano, certo de que são pecadores, eu também, mas o Senhor perdoa tudo. E custodiem isso e depois, poucos anos depois a consagração ao coração de Maria. Não esqueçam essa consagração é um marco na história do povo do Equador. E dessa consagração vem essa graça que vocês têm, essa piedade, essa coisa que os torna diferentes.

Hoje eu tenho que falar com os sacerdotes, seminaristas, religiosos, religiosas e dizer-lhes algo.
Tenho um discurso preparado. Mas não tenho vontade de ler. Portanto, dou-o ao Presidente da Conferência de religiosos para que o publique depois.

E pensava na Virgem, pensava em Maria, duas palavras de Maria. Já me falha a memória, mas sei que disse alguma outra. Faça-se em mim. Bom, sim, pediu explicações do porquê o anjo a escolheu, ali. Faça-se em mim. E outra palavra: Façam o que Ele vos disser.

Maria, não protagonizou nada. “Discipulou” toda a sua vida. A primeira desculpa do seu filho. E tinha consciência de que tudo o que ela trouxe era pura gratuidade de Deus. Consciência de gratuidade. Por isso, faça-se, façam, que se manifeste a gratuidade de Deus. Religiosos, religiosas, sacerdotes, seminaristas, todos os dias. Voltem, percorram esse caminho de volta rumo à gratuidade com a qual Deus os escolheu. Vocês não pagaram para entrar no seminário, para entrar na vida religiosa. Não o mereceram. Se algum, religioso, sacerdote, seminarista ou freira aqui presente, acha que foi merecido que levante a mão. Tudo gratuito. E toda a vida de um religioso, de uma religiosa, de um sacerdote, de um seminarista que vai por esse caminho e já que estamos, digamos, e dos bispos, têm que ir pelo caminho da gratuidade, voltar todos os dias ao Senhor, hoje fiz isso, tive sucesso com isso, tive essa dificuldade, ‘tudo isso, porém, vem de vós’. Tudo é grátis. Essa gratuidade, somos objeto de gratuidade de Deus.

Se esquecemos isso, lentamente vamos nos fazendo importantes. Olha só esse, que obra está realizando. Ou, olha só para esse, o fizeram bispo de tal lugar, que importante. Ou, a este o fizeram monsenhor. Ou este... e assim, lentamente, vamos nos separando disso que é a base do que Maria nunca se afastou. A gratuidade de Deus. Um conselho de irmão: todos os dias, à noite talvez é melhor, antes de dormir, um olhar a Jesus e dizer-lhe, ‘tudo me destes de graça’. E colocar-se no próprio lugar de novo. Então, quando me mudam de destino, e quando há uma dificuldade, não birro porque tudo é de graça. Não mereço nada, assim fez Maria.

João Paulo II na Encíclica Redemptoris Mater, recomendo que vocês a leiam, sim, peguem-na e a leiam, é verdade, o Papa São João Paulo II tinha um estilo de pensamento circular, professor e era um homem de Deus. Assim que é preciso lê-la várias vezes tirar todo o conteúdo que tem. E diz que talvez Maria, não lembro bem a frase, quero citar o fato. No momento da Cruz da sua fidelidade, teria tido vontade de dizer ‘e me disseram que este seria Rei? Me enganaram’. Nem se permitiu, porque era a mulher que sabia que tinha recebido tudo gratuitamente. Conselho de irmão e de pai, todas as noites, recoloquem-se na gratuidade. E digam faça-se, obrigado porque tudo me destes.

Uma segunda coisa que eu gostaria de dizer-lhes é que cuidem a saúde, mas, acima de tudo, cuidem para não cair em uma doença. Uma doença que é meio perigosa, ou totalmente perigosa para aqueles que o Senhor chamou gratuitamente para seguí-Lo ou serví-Lo

Não caiam no Alzheimer espiritual, não percam a memória, especialmente, a memória de onde o tiraram. Essa cena do profeta Samuel, quando é enviado para ungir o rei de Israel. Ele vai a Belém para a casa de um homem chamado Jessé, que tem sete ou oito filhos. E Deus lhe diz que, entre estas crianças estará o rei. Claramente vê e diz 'deve ser este’, é maior, alto, grande, bonito, parecia corajoso. Deus lhe diz: ‘não, não é esse’. O olhar de Deus é diferente do olhar dos homens. E assim passa por todos os filhos e Deus lhe diz ‘não, não é’. E o profeta não sabe o que fazer. E pergunta ao pai se não está faltando nenhum. E este lhe diz, sim, o mais novo está cuidando das cabras, das ovelhas. “Mande-o chamar”. E vem um molequinho, teria uns 17 ou 18 anos. E Deus lhe diz: ‘é esse’. Tiraram-no do rebanho.

E outro profeta quando Deus lhe diz para fazer certas coisas, o profeta diz: 'quem eu sou se me tiraram de rebanhos’. Não se esqueçam de onde lhes tiraram, não reneguem as raízes.

Nota-se que São Paulo intuia este perigo de perder a memória, e ao seu filho mais querido, o bispo Timóteo, a quem ele ordenou, lhes dá conselhos pastorais, mas tem um que toca o coração. Não te esqueças da fé que tinha a sua avó e a sua mãe, ou seja, não se esqueça de onde lhe tiraram, não se esqueça das suas raízes, não se sinta promovido.

A gratuidade é uma graça que não pode coexistir com a promoção. E quando um sacerdote, um seminarista, um religioso, uma freira, entra na carreira, não falo mal, carreira humana, começa a adoecer de Alzheimer espiritual. E começa a perder a memória de onde me tiraram. Dois princípios para vocês sacerdotes, consagrados e consagradas. Todos os dias renovem o sentimento de que tudo é de graça. O sentimento de gratuidade na escolha de cada um.

Ninguém merece. E peçam a graça de não perder a memória, de não sentir-se mais importante. É muito triste quando se vê um sacerdote ou um consagrado ou uma consagrada que na sua casa falava o dialeto, ou falava outra língua, uma dessas nobres línguas antigas que têm os povos do Equador, quantas têm. E é muito triste quando se esquecem da língua. É muito triste quando não a querem falar, isso significa que se esqueceram de onde o tiraram. Não se esqueçam disso. Peçam essa graça.

Esses são os dois princípios que gostaria de marcar. E esses dois princípios, se forem vividos todos os dias, é um trabalho de todos os dias, todas as noites recordar esses dois princípios e pedir a graça, esses dois princípios, se o viverem, o farão viver com duas atitudes.

Em primeiro lugar o serviço. Deus me escolheu, me tirou, para que? Para servir e não perdemos o tempo. Mas, que tenho mil coisas, que tenho isso, que não, que estou fechando o escritório. Sim, teria que ir abençoar as casas, mas estou cansado. Hoje passam uma novela linda na televisão, para as freiras.

E, então, serviço, servir, servir e não fazer outra coisa. E servir quando estamos cansados. E servir quando as pessoas nos incomodam.

Falava-me um velho sacerdote, que foi toda a vida professor, em escolas e universidade, ensinava literatura. Um gênio. Quando se aposentou, pediu para o provincial enviá-lo para um bairro pobre, um bairro desses formados por pessoas de fora, que emigram procurando trabalho, pessoas muito simples. E este religioso estava uma vez por semana, ia à sua comunidade e falava, era muito inteligente. Na comunidade, era uma comunidade de faculdade de teologia. Falava com os outros sacerdotes de teologia no mesmo nível, e um dia fala para um: ‘vocês que são, quem dá o Tratado de Igreja aqui? E um professor. Te faltam duas teses. Qual? O santo povo fiel de Deus é essencialmente olímpico, faz o que quer, e ontologicamente desgastante. E isso tem muita sabedoria, porque quem vai pelo caminho do servir tem que deixar-se incomodar sem perder a paciência porque está a serviço. Nenhum momento lhe pertene. Estou para servir, servir no que devo fazer, servir diante do Sacrário pedindo pelo povo, pedindo pelo meu trabalho. Serviço, misturado com o da gratuidade e, então, aquilo de Jesus, o que recebestes de graça, dê de graça.

Por favor, por favor, não cobrem a graça. Por Favor.

Que a nossa pastoral seja gratuita. E é tão feio quando vai se perdendo esse sentido de gratuidade, se transforma, sim, faz coisas boas, mas perdeu isso.

E a segunda atitude que se vê em um consagrado, uma consagrada, um sacerdote que vive esta gratuidade e esta memória, estes dois princípios, gratuidade e memória, é o gozo e a alegria.

E isso é um dom de Jesus. É um dom que nos dá se o pedirmos e se nós não esquecemos desses dois pilares da nossa vida sacerdotal ou religiosa, que são o sentimento de gratuidade, renovado cada dia e não perder a memória de onde nos tiraram.

Desejo-lhes isso. ‘Sim, padre, você nos falou que talvez, da receita do nosso povo, era, somos assim pelo sagrado coração’. Sim, é verdade isso. Proponho-lhes outra receita que está na mesma linha de gratuidade de Jesus. Sentido da gratuidade. Ele se fez nada, se abaixou. Se humilhou. Se fez pobre para enriquecer-nos com a sua pobreza. Pura gratuidade, sentido da memória. E fazemos memória das maravilhas que fez o Senhor na nossa vida.

Que o Senhor vos conceda esta graça a todos. Que nos conceda a todos os que estamos aqui e que continue, ia dizer, permeando, abençoando este povo equatoriano, ao qual vocês devem servir, e são chamados a servir, e continue abençoando com essa peculiaridade que eu notei desde que cheguei aqui.

Que Jesus lhes abençoe e Nossa Senhora cuide de vocês.

Nota da IHU On-Line: Para ver o vídeo do pronunciamento, em espanhol, pode ser visto clicando aqui.

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