Laudato Si’, a encíclica antignose

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Por: André | 23 Junho 2015

“Omnis creatura bona”. Todas as criaturas são boas, escreveu São Paulo na sua Primeira Carta a Timóteo, retomando as palavras do Gênesis. A fé bíblica, ao contrário de muitas doutrinas filosóficas e religiosas, sempre reconheceu e constatou que todas as coisas e todas as criaturas (a começar pelo homem) saíram diretamente das mãos de Deus. A Encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, parte do mesmo olhar cristão sobre a Criação. Deste manancial surge a originalidade contundente e persuasiva de suas considerações aplicadas à crise ecológica que ameaça o mundo. Dali extrai também antídotos preciosos contra as dinâmicas autodestrutivas do modelo de desenvolvimento dominante. E documenta, ao mesmo tempo, a distância intransponível entre a experiência cristã e as correntes de pensamento neognóstico que depreciam a matéria e a Criação como um “mal” que deve ser superado.

A reportagem é de Gianni Valente e publicada por Vatican Insider, 19-06-2015. A tradução é de André Langer.

O universo – repete o Papa Francisco em sua “Suma Ecológica”, que acaba de ser publicada – “não surgiu como resultado de uma onipotência arbitrária, de uma demonstração de força ou de um desejo de auto-afirmação. A criação pertence à ordem do amor. O amor de Deus é a razão fundamental de toda a criação”. O amor de Deus não se arrepende: por isso, “o Criador não nos abandona, nunca recua no seu projeto de amor, não se arrepende de nos ter criado”. E por isso, “a humanidade ainda possui a capacidade de colaborar para construir a nossa casa comum”. Citando o Catecismo da Igreja Católica, o Bispo de Roma repete que “toda criatura possui sua bondade e sua perfeição próprias” e que “as diferentes criaturas, queridas em seu ser próprio, refletem, cada uma à sua maneira, um raio da sabedoria e da bondade infinitas de Deus”.

Em toda a encíclica vibra o reconhecimento maravilhado da bondade da Criação. Uma característica que afasta irrevogavelmente o cristianismo da gnose e de todos os caminhos metafísicos que tendem a considerar a matéria e os limites da condição criatural como uma prisão da qual é preciso se emancipar mediante caminhos de auto-iluminação.

Ao contrário daquelas doutrinas, o cristianismo reconhece que o mal e a corrupção não estão inscritos na estrutura original da Criação, pela vontade malvada de um deus caprichoso, mas que entraram no mundo por um pecado histórico do homem. Esse mesmo que a narração bíblica identifica no Pecado Original. O Papa Francisco inclui no segundo parágrafo da sua encíclica a alusão ao pecado histórico que feriu inclusive a Criação: “A violência, que está no coração humano ferido pelo pecado”, escreve o Papa, “vislumbra-se nos sintomas de doença que notamos no solo, na água, no ar e nos seres vivos”. Com esta fratura do pecado, “a harmonia entre o Criador, a humanidade e toda a criação foi destruída por ter pretendido ocupar o lugar de Deus, negando-nos a nos reconhecer como criaturas limitadas”. E desta maneira também foi desfigurado “o mandato de ‘dominar’ a terra (cf. Gn 1,28) e de ‘cuidá-la e guardá-la’ (Gn 2,15)”. A relação com a Criação foi arruinada também pelo ímpeto de posse voraz. Essa que Santo Agostinho chamaria de concupiscência que dissipa.

A salvação que Cristo trouxe reconstrói milagrosamente o que se havia perdido com a fratura do pecado. E Jesus mesmo se aproxima da Criação como de um dom surpreendente, de que goza agradecido. O Filho de Deus, escreve Bergoglio na Lautado Si’, “não se apresentava como um asceta separado do mundo ou inimigo das coisas agradáveis da vida. Referindo-se a si mesmo expressava: ‘Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem que é um comilão e um beberrão’ (Mt 11,19). Estava longe das filosofias que depreciavam o corpo, a matéria e as coisas deste mundo”. Filosofias definidas pelo Papa como “dualismos combalidos”, que chegaram a se infiltrar na história e que deformaram o Evangelho: “Jesus trabalhava com suas mãos, tomando contato cotidiano com a matéria criada por Deus para dar-lhe forma com sua habilidade de artesão”.

Seguindo Jesus é possível reconciliar-se sem esforço e sem dor com a bondade da Criação, com sua ordem na qual o Criador e suas criaturas estão unidos na distinção e onde tudo se compagina e tem seu lugar.

Assim, ao seguir Cristo surge um olhar sobre as coisas que as abraça e as protege, e, ao mesmo tempo, se demonstra radicalmente alheio ao pensamento mágico e aos extremismos ecologistas que divinizam a natureza. A chamada à necessária e saudável defesa da Criação “não significa igualar todos os seres vivos e tirar do ser humano esse valor peculiar que implica ao mesmo tempo uma tremenda responsabilidade. Também não requer uma divinização da terra, que nos privaria da nossa vocação de colaborar com ela e protegê-la da sua fragilidade”.

O Papa Francisco denuncia a “obsessão por negar toda preeminência à pessoa humana”, que, por exemplo, aflora “na hora de defender igual dignidade entre os seres humanos”. A encíclica “ecológica” do Papa Francisco, com toda a Tradição da Igreja, reconhece que existe “uma distância infinita” entre o Criador e as criaturas, e que “as coisas deste mundo não possuem a plenitude de Deus”.

A natureza não é Deus. E não o é também o homem, e sua condição de criatura não é em si uma condição maligna, uma prisão da qual é preciso se libertar mediante caminhos de “auto-divinização”. E o fato de ter sido criado à imagem e semelhança de Deus não pode legitimar a falsa ideia de um “domínio absoluto sobre as demais criaturas”. O mandato bíblico não é uma licença religiosa concedida para a exploração selvagem da natureza por parte do homem “senhor e destruidor”.

Pelo contrário, qualquer “antropocentrismo despótico” que seja exercido contra a terra encontra seu limite no dado bíblico, nunca retratado, de que a Terra é do Senhor, a Ele “pertence a terra e tudo quanto contém”. Além disso, “nós não somos Deus. A terra nos precede e nos foi dada”. Os cristãos – repete o Papa Francisco – nunca podem cultivar “uma espiritualidade que esqueça Deus todo-poderoso e criador. Desse modo, acabaríamos adorando outros poderes do mundo, ou nos colocaríamos no lugar do Senhor, com a pretensão de pisotear a realidade criada por Ele sem conhecer limites”.

Ao contrário, “a melhor maneira de colocar o ser humano no seu lugar e acabar com a sua pretensão de ser dominador absoluto da terra, é propor novamente a figura de um Pai criador e único dono do mundo; caso contrário, o ser humano tenderá sempre a querer impor à realidade as suas próprias leis e interesses”.

Reconhecer e abraçar os limites que marcam o dom gratuito da Criação e a própria condição humana, sugere o Papa, é a única maneira para “acabar hoje com o mito moderno do progresso material ilimitado” e com o delírio de onipotência tecnocrática e das tendências gnósticas com as quais se alimenta o modelo de desenvolvimento que está acabando irremediavelmente com a terra.

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