''Onde não se discute, a Igreja está morta.'' O encontro do papa com os sacerdotes

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15 Junho 2015

A beleza da Igreja, a unidade, a misericórdia, a data única da Páscoa, a Ásia prometida pela Igreja. São apenas alguns dos temas abordados pelo papa na Basílica de São João de Latrão ao se encontrar com os participantes do 3º Retiro Mundial de Sacerdotes, promovido pela Renovação Carismática Católica Internacional e pela Catholic Fraternity.

A reportagem é do jornal Avvenire, 12-06-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No encontro, o papa ressaltou a importância da presença das mulheres na Igreja, mas também falou sobre a próxima viagem à África e disse que pediu ao Patriarca Ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu I, que apresente a sua próxima encíclica.

O canto, a oração, a alegria foram as características desse encontro na fé orientado à unidade da Igreja. Um encontro abrangente, em que o papa dialogou com os participantes do 3º Retiro Mundial de Sacerdotal depois de uma meditação densa em conteúdo e anúncios, como a possibilidade de que a data da Páscoa seja única, para favorecer a unidade, ou o anúncio da próxima viagem à África em novembro, na República Centro-Africana e na Uganda. Francisco explicou que está avaliando também ir ao Quênia.

Na meditação, o papa destacou que a discussão, a franqueza, o debate dão vitalidade à própria Igreja: "As Igrejas, sem discussão, são Igrejas mortas". "Nos cemitérios, ninguém discute sobre nada!".

Ele não escondeu a alegria "de ver os sacerdotes das periferias do mundo sentados" na basílica ao lado dos bispos, do seu vigário, o cardeal Vallini. Todos juntos – reiterou – na "beleza da Igreja". Francisco, depois, desejou um debate direto e franco entre "sacerdotes e bispos" e invocou a proximidade "ao povo de Deus".

Mulher

Depois, voltou a reiterar a importância da mulher na Igreja: "Maria – disse, ironizando sobre as eventuais queixas de alguns – vale mais do que os apóstolos". "O gênio feminino na Igreja é uma graça, porque a Igreja é mulher: é 'a' Igreja, não 'o' Igreja: a Igreja. A Igreja é esposa de Cristo. É Mãe do Santo Povo dos fiéis de Deus. Igreja, mulher. E estas mulheres que estão aqui presentes são imagem e semelhança da Igreja e da Mãe Maria".

Além disso, repousou o olhar de pastor sobre os sacerdotes e desejou que "sejam transformados pelo amor". "Amor trinitário": "Celebrar hoje, aqui, a festa do Sagrado Coração não é uma coincidência", destacou. "É o dia em que o Senhor quis que refletíssemos sobre o infinito e misericordioso amor do Pai, expresso no coração do Filho Jesus, com a força vivificante do Espírito Santo".

O pontífice recordou ainda uma canção do padre Lucas Casaert (missionário belga na Bolívia há 40 anos), que fala do cuidado e da ternura que o Senhor tem pelo seu discípulo, e a basílica se acendeu no canto instado pelo próprio papa.

"Nos piores momentos – continuou Francisco –, quando vocês tiverem até brigado com o Senhor ou quando tiverem sido infiéis ao Senhor, não tenham medo! Aproximem-se do Sacrário". O papa aconselhou "abrir o coração", deixar cair as lágrimas na certeza do perdão de Deus, na confissão.

O Povo de Deus – destacou – saber reconhecer "quando um sacerdote está apaixonado por Jesus ou quando é um funcionário com horário fixo ou uma pessoa que segue a lei ao pé da letra. O sacerdote que se torna um funcionário": "Peço a vocês que não haja duplicidade de coração! Que haja amor e que não haja hipocrisia; que haja misericórdia, ternura".

"A primeira motivação para evangelizar – afirmou o papa – é o amor de Jesus que recebemos, a experiência de termos sido salvos por Ele." "Que cada sacerdote sinta no seu coração que, apesar das suas faltas, infidelidades, e justamente por isso, o Senhor o coloca lá, a serviço de seu povo, e isso é uma coisa maravilhosa."

Recordando o encontro com alguns casais com "50 e 60 anos de matrimônio", na missa matinal em Santa Marta, ele falou de um amor que amadurece ao longo dos anos: assim "como o sacerdote que, pouco a pouco, vai em frente no amor com Jesus sente a carícia do seu mestre de uma maneira nova, busca-o, comunica-o e ama-o com carícias renovadas".

Nem sempre é fácil – disse –, mas "deixem-se amar, abram o seu coração a Ele. E não só contemplemos Jesus; deixem que Ele nos contemple, que Ele me olhe: 'Senhor, eis-me aqui, estou aqui".

"Se você está ali diante do Santíssimo e dorme, não se preocupe! Deixe-se olhar por Ele, mas vá, vá a esse tabernáculo! Não o deixe!"

O papa exortou a olhar para o tabernáculo, onde se encontra Amor, "e se você não sabe o que lhe dizer – acrescentou –, se você está cansado, diga-lhe que está cansado, e se você adormecer, faça com que Ele olhe para você e que o Espírito Santo reze por você, a partir daí, nesse diálogo é que diálogo de amor, um diálogo silencioso. sem palavras".

Homilia e sacramentos

Ele também voltou a falar das homilias, exortando a "falar ao coração das pessoas" e sugerindo um modelo: "Uma ideia, uma palavra, uma imagem e um sentimento". "Não se esqueçam – disse – que a homilia não é uma conferência, não é uma aula de catequese. É um sacramento": "Não tenham medo do povo fiel de Deus, não fujam dele, não percam tempo. Falem de Jesus, da alegria de uma fé ancorada em Jesus".

"Eu confesso a vocês que sinto uma grande pena quando um pároco não batiza um recém-nascido por ser filho de uma mãe solteira ou de um pai recasado. Ele não tem direito! O Batismo não se nega!"

"Quando isso acontece, o coração de um sacerdote é burocrata, está estreitamente ligado à lei da Igreja. A Igreja que é Mãe se transforma, para tantos fiéis, em uma 'madrasta': por favor, façam sentir que a Igreja é sempre mãe!"

O papa falou da misericórdia ensinada por Jesus e traduzida em um amor não fechado pela moral, mas aberto ao homem. E citou o perdão de Jesus: 70 vezes sete. "Não tenham medo", ressaltou. "Misericórdia nas confissões, misericórdia." "O amor transforma e contagia."

Depois, o escândalo da divisão dos cristãos. O ecumenismo – continuou – não é uma tarefa a mais para se fazer: é um mandato de Jesus. "É buscar a unidade do Corpo de Cristo, rompida pelos nossos pecados de divisão."

"Nós – disse – nos escandalizamos quando aqueles do Isis queimaram vivo aquele pobre piloto, naquela jaula, mas nós, na nossa história, fizemos isso!"

"Nós ferimos a Santa Mãe Igreja! Na nossa consciência, deve existir aquele pedir perdão pela história da nossa família, por todas as vezes que matamos em nome de Deus."

O papa indicou os mártires como vias de unidade, e o sangue hoje "de homens e mulheres que morrem por Jesus Cristo". O papa falou de um "ecumenismo do sangue" que estamos vivendo.

Depois, introduziu a graça, exortando a Renovação Carismática à missionariedade. "Às vezes, somos tentados a acreditar que somos os donos da graça e não os dispensadores da graça. A graça não se compra. É gratuita é graça!"

E exortou a deixar os leigos trabalharem. "Não clericalizem!", destacou. "O clericalismo é um dos pecados e uma das atitudes pecaminosas que freiam a liberdade da Igreja."

Sobre a secularização, ele disse para não fazer proselitismo, porque "é a caricatura da evangelização". Mas se ocupar das pessoas, das pobrezas, "anunciar o Evangelho", e isso em todas as latitudes, incluindo as mais pobres.

Mais uma vez, o aviso a não ser apegado às riquezas, a reconhecer e evitar a ideologia que "cria a luta de classes!", em vez de testemunhar o Evangelho.

"Jesus pregou as Bem-aventuranças", explicou. "Preguem o Evangelho, estejam com os pobres."

"O povo fiel de Deus jamais perdoará um sacerdote que esteja apegado ao dinheiro ou que trata mal as pessoas. Não se esqueçam – evidenciou – que o demônio entra pelo bolso, entra justamente ali." E, uma vez entrado, "o segundo degrau é a vaidade!".

Oriente, África e Ásia

Sobre os desafios da Europa Oriental e da Igreja, Francisco traçou o vínculo histórico entre Roma, Constantinopla e Moscou, e a "tensão que hoje ainda é quente", indicando o diálogo como fonte de construção.

O papa entrou no tabuleiro geopolítico, reiterando que a questão entre Rússia e Ucrânia, "neste momento, está resolvida no papel", que "o Tratado de Minsk está assinado por todos", mas também que nos recusamos "a implementá-lo", caindo em um "nominalismo da política".

O papa sublinhou que "há a necessidade de sacerdotes na África". E que a coluna "vertebral são os catequistas", cuja formação é "fundamental". "A África, neste momento, é terra atraente para o despojo, é um lugar de despojo", porque "as potências vão lá para buscar madeira, ouro, metais, e levam tudo e vão embora." "Na África – defendeu – os problemas de desenvolvimento e de promoção social são necessários."

Olhando para as muitas pessoas que vêm da África para a Europa, o papa observou apenas uma resposta emergencial na acolhida: "Isso não basta. Esse é o aspecto de emergência. O que é necessário é que a Europa vá para a África, não para trazer coisas da África, mas para investir na África, para que na África haja indústria, trabalho, e as pessoas não tenham que vir para cá!"

Também é central a formação cultural, a assistência sanitária, em que a Igreja está envolvida e deve continuar com a ajuda "dos cristãos de todo o mundo".

"A Ásia, para mim, é uma das maiores promessas da Igreja – disse o papa –, e é por isso que, nos últimos dois consistórios, tentou-se criar cardeais asiáticos, para que fossem testemunhas na Igreja de Roma de todas as Igrejas."

Francisco reiterou que "a Índia é uma riqueza maravilhosa" e que na região de Kerala "continua havendo uma grande quantidade de vocações".

Francisco também afirmou que o Ocidente está percorrendo "os caminhos do relativismo, do hedonismo, do consumismo", que o estão deteriorando e provocando a sua decadência. "A Ásia, ao contrário, tem reservas espirituais."

O Santo Padre, por fim, voltou o olhar para a tragédia dos indianos deixados no mar, para o fundamentalismo que existe em algumas partes do Paquistão, para os muitos mártires na Coreia, Japão, Tailândia, "tantos mártires que derramaram o seu sangue" e que indicam um caminho de testemunho.

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