O Syriza não pode decepcionar

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Por: André | 11 Junho 2015

“Estes temores evitaram, até o momento, que se chegue a um ponto de ruptura, mas este ponto encontra-se cada vez mais próximo. Pode ser que, caso a situação se mantenha nas próximas semanas, o Syriza se veja obrigado a convocar o povo grego para manifestar sua vontade através de um referendo ou através de novas eleições. O isolamento do Syriza entre os governos europeus é total e só pode acudir ao apoio do povo grego para tomar decisões dessa magnitude.”

A análise é de Jesús Sánchez Rodríguez e publicada por Rebelión, 10-06-2015. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

O título do artigo faz referência a dois aspectos: o Syriza não pode decepcionar porque se converteria em uma nova versão da socialdemocracia grega e europeia e com isso assinaria seu atestado de óbito; mas também não pode decepcionar porque levaria a decepção e a desmoralização aos eleitores que depositaram sua esperança nele e na esquerda europeia. Neste sentido, a responsabilidade histórica que pesa sobre o Syriza é da mesma magnitude que as dificuldades que enfrenta.

Não houve governos de partidos à esquerda da socialdemocracia na Europa capitalista com vontade de aplicar o programa com o qual foram eleitos. A experiência do Syriza é, portanto, uma experiência que se desenvolve em condições muito desfavoráveis. A socialdemocracia sempre alegou as dificuldades para superar os obstáculos impostos pelas classes dominantes quando seus programas se defrontaram com essas limitações. O resultado foi um deslizamento contínuo da socialdemocracia para a direita com a aceitação da visão neoliberal.

Há uma experiência instrutiva dessa atitude na França com Mitterrand e duas mais recentes na Espanha e na Grécia. O exemplo do governo Mitterrand, com a inclusão de ministros comunistas, formado com a vitória eleitoral de 1981, é um dos mais claros a este respeito. Em seus primeiros meses de governo aplicou um programa de reformas sociais progressistas e uma política de nacionalização de grandes empresas e bancos, como havia prometido em seu programa eleitoral. Isso desencadeou rapidamente as resistências dos poderes econômicos de fato – exemplificadas na fuga em massa de capitais, na greve de investimentos, na elevação dos preços e nos ataques especulativos internacionais – que levaram à paralisação da economia e, finalmente, obrigaram o governo socialista a dar uma guinada total para reverter as reformas aplicadas e aplicar políticas monetárias duras e de redução do Estado de Bem-Estar Social.

Entre os casos mais recentes, temos, primeiro, o exemplo do desenvolvimento da crise na Grécia. Em novembro de 2011, Papandreu, como primeiro-ministro socialista, tomou a inesperada decisão de submeter a um referendo as condições do novo plano de resgate para a Grécia, e o novo pacote de medidas de austeridade que trazia embutido. Tratou-se de uma tímida tentativa de oposição dos socialistas gregos às imposições da Troika. Assim como na situação atual, a Troika ameaçou bloquear a ajuda de oito bilhões de euros que a Grécia necessitava (agora são 7,2 bilhões bloqueados), caso realizasse o referendo e promoveu uma campanha de pressões que conseguiram demover Papandreu de sua proposta e aceitar as condições que lhe impunham. O resultado político demorou para se manifestar, sua derrota política deu lugar primeiro a um governo de coalizão com os conservadores e, finalmente, após o desgaste deste, ao atual governo do Syriza. O PASOK é hoje um partido praticamente marginal.

O segundo caso recente, no seio da atual crise econômica, foi o da rendição do governo de Zapatero, em maio de 2010, antes das pressões de Bruxelas para que desse um giro de 180 graus para as políticas neoliberais de austeridade. Isso deu início à política de cortes de direitos e benefícios que, depois, após sua derrota eleitoral, o PP aprofundaria. Neste caso, o PSOE foi castigado eleitoralmente, mas a partir das recentes eleições municipais e regionais pode voltar a recuperar parte do poder local que perdeu.

Nos três casos, as rendições foram rápidas e sem qualquer resistência, construindo para sua justificativa um discurso de resignação e de impotência diante dos ditados das classes dominantes nacionais e europeias. O Syriza não reagiu da mesma maneira diante de uma situação tão difícil ou mais que as três mencionadas. É verdade que cedeu terreno e renunciou ou adiou promessas do seu programa eleitoral, como a supressão do imposto imobiliário, o aumento do salário mínimo, a melhoria das pensões mais baixas ou o congelamento do programa de privatizações.

Entretanto, estas concessões foram consideradas insuficientes pelas “instituições” (antiga Troika) que desde exato um ano não liberou sequer um euro dos 7,2 bilhões que restam pendentes do segundo resgate. O objetivo das “instituições” é forçar o Syriza a ceder em suas linhas vermelhas (IVA, reforma trabalhista e pensões) mediante uma política de asfixia econômica que o leve à rendição.

A situação econômica da Grécia é extrema. Viu-se obrigada a pedir um reagrupamento e adiamento de suas obrigações de pagamento do FMI até o final do mês de junho. Não fosse assim, a Grécia teria entrado em default. Mas o problema foi simplesmente protelado por algumas semanas, quando terá que pagar 1,6 bilhão ao FMI (já pagou 17 bilhões por vencimento da dívida no último ano). O governo viu-se obrigado a utilizar os fundos de reservas locais para cobrir os seus gastos correntes, e a fuga de capitais desde o começo do ano beira os 30 bilhões, o que representa cerca de 15% do seu PIB.

A postura rígida das “instituições”, e a necessidade do Syriza de evitar ultrapassar suas linhas vermelhas – com fortes tensões em seu interior pelas concessões realizadas até agora –, caso não quiser sofrer uma derrota estratégica e entrar no caminho de rendição da socialdemocracia e, portanto, colocar um ponto final ao seu projeto, levam a um cenário de ruptura quase inevitável. Ambas as partes estão apurando ao máximo a situação para evitar a ruptura. Nos respectivos casos há motivos de temor a esse ponto pelas consequências imprevistas que poderiam ser desencadeadas.

Do lado das classes dirigentes europeias pesam as incógnitas políticas sobre o porvir do projeto europeu, com uma ameaçante Grã-Bretanha apostando em um referendo em 2017, e com o impulso que representariam as crescentes posturas eurocéticas no continente. Mas há também as incógnitas econômicas sobre a quase certa situação de default que se produziria por parte da Grécia e seus efeitos financeiros, que poderia levar a Europa a uma situação de instabilidade e a uma nova recessão. Do lado do governo grego há os efeitos econômicos, seguramente brutais em um primeiro momento, da saída do euro e as incógnitas sobre sua capacidade para se repor, assim como a administração de uma provável crise social interna.

Estes temores evitaram, até o momento, que se chegue a um ponto de ruptura, mas este ponto encontra-se cada vez mais próximo. Pode ser que, caso a situação se mantenha nas próximas semanas, o Syriza se veja obrigado a convocar o povo grego para manifestar sua vontade através de um referendo ou através de novas eleições. O isolamento do Syriza entre os governos europeus é total e só pode acudir ao apoio do povo grego para tomar decisões dessa magnitude.

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