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Por: André | 08 Junho 2015

A revista La Civiltà Cattolica acendeu a disputa com duas exceções à proibição da comunhão aos divorciados recasados propostas simultaneamente por um seguidor de Santo Inácio e um de Santo Domingo. Imediatas críticas de dois religiosos das mesmas ordens.

A reportagem é de Sandro Magister e publicada por Chiesa, 02-06-2015. A tradução é de André Langer.

No último número da La Civiltà Cattolica, a revista dos jesuítas de Roma impressa sob o controle prévio das autoridades vaticanas, em um artigo assinado pelo seu diretor, o Pe. Antonio Spadaro, em um determinado ponto se lê:

“A rigidez doutrinal e o rigorismo moral podem levar inclusive os teólogos a posições extremistas, que desafiam o ‘sensus fidei’ dos fiéis e inclusive o senso comum. Uma recente crônica jornalística cita, elogiando-a, a carta de um teólogo estadunidense que faz estas afirmações insensatas:”

“‘Qual é, neste caso, o mal mais grave? O de prevenir a concepção (e a existência) de um ser humano dotado de uma alma imortal, desejado por Deus e destinado à felicidade eterna? Ou interromper o desenvolvimento de uma criança no ventre de sua mãe? Um aborto desses é, certamente, um mal mais grave e é qualificado pela Gaudium et Spes como ‘crime abominável’. Mas existe, seja como for, uma criança que viverá eternamente. Ao passo que, no primeiro caso, uma criança que Deus quer que venha ao mundo jamais existirá.”

“Com este raciocínio considera-se, pois, mais aceitável o aborto do que a anticoncepção. Incrível!”

Quem se expressa deste modo é um renomado teólogo da ordem de Santo Domingo, o francês Jean-Miguel Garrigues, que esteve acompanhado na redação da La Civiltà Cattolica pelo cardeal de Viena Christoph Schönborn, também dominicano e amigo seu, e que foi entrevistado pelo Pe. Spadaro.

Este, por sua vez, diz que concorda plenamente com ele: “Sim, compartilho sua opinião. Também eu li essas palavras e fiquei assombrado com sua lúcida insensatez”.

Nem Garrigues nem Spadaro dizem o nome do teólogo que acusam, mas a citação que fazem é inequívoca: é tirada de uma carta dirigida ao portal Chiesa, em 29 de janeiro passado, pelo jesuíta americano Joseph Fessio.

O Pe. Fessio não é nenhum desconhecido. Formado na escola teológica de Joseph Ratzinger – de cujo círculo de discípulos, o Ratzinger Schülerkreis, é membro destacado –, fundou e dirige nos Estados Unidos a editora Ignatius Press, que publicou recentemente um livro que deu o que falar, Remaining in the Truth of Christ [Permanecer na Verdade de Cristo], que reúne as intervenções de cinco cardeais contra a comunhão aos divorciados recasados.

Na carta, o Pe. Fessio criticava o que outro jesuíta da La Civiltà Cattolica, Pierre de Charentenay, escreveu contra os bispos das Filipinas, aos quais acusava de estarem “atrasados” e “fechados” em relação às luzes da modernidade e às solicitações do Papa Francisco, pois se opunham com força à lei sobre “a saúde reprodutiva”. Esta lei por proposta pelo presidente Benigno Aquino, um católico, e que se articulou para que ela fosse aprovada por seu país.

No entanto, Garrigues e Spadaro ignoram este fato e se concentram exclusivamente sobre uma passagem da carta do Pe. Fessio na qual este ilustrava um caso específico.

A réplica de Fessio está reproduzida mais abaixo e toca também em outros pontos da entrevista do Garrigues.

Principalmente aquele ponto em que examina dois casos de segundas núpcias depois de um casamento anterior pela Igreja, propondo em ambos os casos a admissão à comunhão eucarística.

O primeiro caso: “Penso em um casal em que um membro esteve casado anteriormente, um casal que tem filhos e uma vida cristã efetiva e reconhecida. Imaginemos que a pessoa já casada tivesse submetido o casamento anterior a um tribunal eclesiástico que decidiu pela impossibilidade de pronunciar a nulidade por falta de provas suficientes, enquanto eles mesmos estão convencidos do contrário sem terem os meios para prová-lo. Com base nos testemunhos de sua boa fé, de sua vida cristã e de seu apego sincero à Igreja e ao sacramento do matrimônio, em particular por parte de um padre espiritual especialista, o bispo diocesano poderia admiti-los com discrição à Penitência e à Eucaristia sem pronunciar a nulidade do matrimônio”.

O segundo: “É mais delicado. É aquele em que, depois do divórcio e do casamento civil, os cônjuges divorciados viveram uma conversão a uma vida efetiva, da qual pode ser testemunho, entre outros, o padre espiritual. Eles acreditam que seu matrimônio sacramental foi verdadeiramente tal e, se pudessem, tratariam de reparar sua ruptura porque vivem um arrependimento sincero: mas têm filhos e, por outro lado, não tem a força de viver na continência. O que fazer neste caso? Deve-se exigir deles uma continência que seria temerária sem um carisma particular do Espírito? Trata-se de perguntas sobre as quais será preciso refletir”.

Além disso, Fessio reage quando o irmão da sua ordem, o Pe. Spadaro, o inclui entre “aqueles que se escandalizaram quando algumas missionárias, expostas em determinadas regiões do mundo em guerra ao perigo de serem violadas, tinham sido autorizadas a tomar de maneira preventiva a pílula anticoncepcional”.

E depois, novamente Fessio rebate Garrigues porque este o inclui na “mesma corrente que criticou a opinião pessoal de Bento XVI em seu livro Luz do Mundo (2010), porque disse: ‘Em determinados casos, quando a intenção é a de reduzir o risco de contágio, o uso do preservativo pode ser um primeiro passo para abrir o caminho a uma sexualidade mais humana, vivida de maneira diferente. Pode haver casos individuais, como quando um homem que se prostitui usa o preservativo, no qual este pode ser um primeiro passo para uma moralização, um início de responsabilidade que permite tomar novamente consciência de que nem tudo é permitido e de que não se pode fazer tudo o que se quer’. Para os opositores do Papa Bento XVI, o preservativo é intrinsecamente ruim, independentemente de qualquer consideração sobre as circunstâncias de seu uso”.

É preciso ressaltar também que o caso aborto/anticoncepção proposto no final de janeiro pelo Pe. Fessio foi amplamente aprofundado em uma longa discussão entre ele e o teólogo canadense Michel Fauteux, completamente ignorada pela La Civiltà Cattolica.

Mas, deixemos a palavra com o Pe. Fessio.

______

Sandro,

Não estou seguro se vale a pena dar uma resposta à La Civiltà Cattolica, porque a crítica do Pe. Garrigues não enfrenta o que eu efetivamente disse; é, antes, aquilo que chamamos de “falsa” argumentação. Ele cita, de fato, uma parte do que escrevi, mas não a parte que especifica o caso particular sobre o qual fundamento a minha conclusão.

Mas, se por acaso possa ser útil:

1. A entrevista, em seu conjunto, é irrepreensível, sobretudo quando o Pe. Garrigues fala em termos gerais, ou seja, na maior parte do tempo. Mas quando apresenta exemplos concretos – os dois casos das páginas 507-509 – vai da zona limite do caso 1 ao abismo do caso 2.

Naturalmente – caso 1 –, se há a certeza moral de que, em primeiro lugar, o matrimônio era inexistente, então uma solução pastoral de “epieikeia” poderia ser aceitável; aqui não há adultério, porque na realidade não existia nenhum matrimônio anterior.

Mas no caso 2 – o “mais delicado” –, no qual os novos cônjuges reconhecem como válido e sacramental o casamento anterior, mas “não tem a força de viver uma continência que seria temerária sem um carisma particular do Espírito”, temos uma situação de adultério objetivo: uma relação conjugal fora de um casamento válido. Assim, segundo o Pe. Garrigues, Deus não dará aos dois a graça necessária para evitar o pecado. Necessitam as pessoas de um “carisma especial” para evitar a fornicação quando o desejo é tão grande que não têm a “força” de resistir a ele?

2. Na página 504, o Pe. Garrigues, para responder à observação do Pe. Spadaro que afirma que devemos estar “atentos para salvar os perdidos e não somente preocupados em não perder os salvos”, começa por afirmar: “A rigidez doutrinal e o rigorismo moral podem levar inclusive os teólogos a posições extremistas”. E como exemplo desta rigidez, rigorismo e extremismo, cita uma parte da minha argumentação.

Na minha argumentação original, imediatamente antes das palavras por ele citadas, há estas outras palavras:

“Pergunto: é verdade que o aborto é um mal pior que a anticoncepção, e também ‘decididamente mais grave’? Não necessariamente. Tomemos o caso de casais casados que, sem necessidade imperativa, utilizam a anticoncepção para atrasar o nascimento de filhos durante anos, depois de casados. Certamente, em alguns casos, a vontade de Deus para eles é que estejam abertos a uma nova vida”.

Observe-se que apresentei um caso muito concreto e que o fiz exatamente para afirmar que o aborto não é necessariamente mais grave que a anticoncepção em todos os casos. Mas, após ter omitido o caso específico sobre o qual baseio a minha argumentação, o Pe. Garrigues cita apenas o que segue. E, no entanto, também ele, apesar de introduz esta citação truncada qualificando o que digo como “afirmações insensatas”, inicia a citação truncada com “Qual é, neste caso, o mal mais grave” (o itálico é meu). Após ter omitido intencionalmente o “caso” que serve de base para o que segue, conclui: “Com este raciocínio considera-se, pois, mais aceitável o aborto do que a anticoncepção. Incrível!”

O que é incrível – ou talvez não – é que alguém que pretende ser um estudioso proceda deste modo. Minha posição pode estar equivocada. Mas o Pe. Garrigues não a refutou, porque na realidade não apresentou sequer um único argumento contra ela. Nunca afirmei que cada ato de anticoncepção seja um mal mais grave que o aborto. E nem sequer o caso específico que eu apresentei exige a conclusão geral que dele se tira.

Além disso, ele se refere ao meu “raciocínio” (que não é absolutamente meu) afirmando que é “similar àqueles que” se escandalizaram com o fato de que algumas religiosas que se encontravam em perigo de serem violadas em uma região atormentada pela guerra tivessem tomado anticoncepcionais. Isto não tem nada a ver com o caso que apresentei. Por isso, respondo simplesmente: “Não é semelhante”.

Mais adiante defende que “a mesma corrente” (que não é a mesma e não é uma “corrente”, porque não tenho conhecimento de que mais alguém tenha argumentado deste modo) se opõe ao que Bento XVI escreveu em Luz do Mundo sobre o uso dos preservativos para prevenir-se da Aids. Novamente, isto não tem nada a ver com o caso que apresentei.

Pax et bonum,

Pe. Joseph Fessio, S.J.

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