Debate sobre quem é “Charlie”

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • O testamento de Dom Jacques Noyer, bispo francês. “O celibato eclesiástico é uma falsa aventura”

    LER MAIS
  • Uma heresia pós-moderna: o uso distorcido da religião para sustentar teorias da conspiração

    LER MAIS
  • As grandes mulheres por trás das vacinas contra o Covid

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


Por: André | 12 Mai 2015

Não menos de 40 livros analisam, evocam, elogiam ou criticam esse já histórico e mundializado 11 de janeiro de 2015 e sua breve, mas fulminante, narrativa global: “Eu sou Charlie”. A fratura cética chegou ao seio da esquerda.

A reportagem é de Eduardo Febbro e publicada por Página/12, 10-05-2015. A tradução é de André Langer.

O horror uniu um país, mas as ideias e as interpretações sobre o que significou esse grande movimento coletivo em defesa da liberdade de expressão que se seguiu ao fatídico dia em que os irmãos Kouachi perpetraram o atentado contra o semanário satírico Charlie Hebdo hoje o dividem. Quatro meses depois do atentado, não menos de 40 livros analisam, evocam, elogiam ou criticam esse já histórico e mundializado 11 de janeiro de 2015 e sua breve, mas fulminante, narrativa global: “Eu sou Charlie”. Filósofos, chargistas, jornalistas, professores ou escritores, todos se lançaram à busca de uma razão, de um sentido para essa convergência coletiva que foi tão efêmera como grandiosa.

A pista do sentido deixou uma fratura enorme até no seio da própria esquerda. O debate já não diz respeito mais à opção de ser ou não ser Charlie, mas o que essa mobilização de quatro milhões de pessoas representou na cultura moderna. Uma vez que passou a emoção, a fratura cética colocou de um lado aqueles que veem nesses dias de janeiro uma mensagem de alcance social e filosófica profunda, e de outro, aqueles que veem nessas jornadas a representação das piores ameaças, a radiografia da manipulação, da desigualdade, da islamofobia e do engano.

A fogueira dos debates foi acesa pelo ensaísta e demógrafo Emmanuel Todd. Figura influente e sagaz da inteligência francesa, paladino das ofensivas contra o pensamento unificado, feroz contraditor da esquerda liberal, bem pensante e pró-europeia, Todd abriu uma ferida no coração do sentido.

No livro que acaba de publicar, Quem é Charlie? Sociologia de uma crise religiosa, Emmanuel Todd decapita tudo o que a versão positiva e consoladora teceu sobre Charlie Hebdo, e também sobre o Partido Socialista. Nesta obra picante, Todd identifica os manifestantes como representantes de uma classe média católica, em estado de “zumbis” e unificada por um coro comum: “a islamofobia”.

Em uma longa entrevista com Emmanuel Todd, com a qual o semanário Le Nouvel Observateur fez sua capa, o ensaísta francês disse: “Quando se reúne quatro milhões de pessoas para dizer que caricaturizar a religião dos outros é um direito absoluto – e inclusive um dever –, quando esses mesmos outros são as pessoas mais fracas da sociedade, pode-se pensar livremente que se está no caminho do bem, no direito, que somos um grande país formidável. Mas não é o caso. (...) Um simples olhar a tais níveis de mobilização evoca uma pura e simples impostura”. Essa é a frase, também desenvolvida no livro, que levantou as paixões.

Para Emmanuel Todd, o 11 de janeiro foi “uma impostura”. Pior ainda, foi “um acesso de histeria, uma falsa consciência, todo o contrário da unanimidade”. A voz deste autor converge com outros olhares críticos, como o do sociólogo Edgar Morin ou do filósofo Slavov Zizek. Em seu livro Algumas reflexões blasfematórias, Islã e modernidade, Zizek, a partir dos atentados contra o Charlie Hebdo e o supermercado kosher do leste de Paris, se pergunta se aqueles terroristas são autênticos fundamentalistas e qual é a sua relação com a modernidade. A pista analítica de Zizek se desenvolve em torno deste enunciado: acaso as ideias veiculadas pelo Islã já não trazem nelas a marca da sua derrota ideológica frente ao modelo ocidental e capitalista?

A alegação de Emmanuel Todd é a mais radical, inclusive a mais impensável. O ensaísta francês concentra sua potência em analisar justamente aqueles que estavam na rua durante as manifestações. Sua resposta não é dizer “o povo”, mas uma “França branca”, abertamente “islmofóbica”, um país célebre “no mundo inteiro por seus valores de Liberdade, Fraternidade e Igualdade”, mas que, na realidade, “se tornou desigual, conservador e fechado”.

Todd deixa destroça o relato republicano e, de passagem, aproveita para traçar uma imagem escatológica do socialismo governante e do presidente François Hollande, a quem atribui o pouco glorioso mérito de “revelar que a esquerda podia concilia-se com as estruturas mais desiguais, provando de passagem que o sistema político francês está totalmente decomposto”.

Em uma coluna publicada pelo vespertino Le Monde e assinada pelo atual primeiro-ministro, Manuel Valls, este responde ponto por ponto a Emmanuel Todd. Valls refuta um por um os argumentos de Todd e de outros ensaístas franceses para os quais a mobilização do 11 de janeiro foi uma mera demonstração contra o Islã. Valls toma os quatro pilares da argumentação de Todd – manifestação contra o Islã, liberdade de expressão, a existência de uma Nova República branca e católica e as definições críticas que Todd faz da esquerda. Para Valls, estas quatro conjecturas do autor são “uma impostura”. Sobre a primeira, escreve: “Essa manifestação foi um grito lançado com dignidade pela tolerância, pela laicidade, que é uma condição dessa tolerância”.

Cada pluma, cada desenho ou reflexão, cada panfleto a favor ou contra testemunha o estado de efervescência moral, filosófica e política deixado pelos atentados de janeiro de 2015. O filósofo Alain Badiou já havia criticado em seu momento o “espírito Charlie” e essa tendência que o Estado francês exibiu “quando foi visto, quase de forma autoritária, chamar para que as pessoas viessem participar das manifestações. Faltava apenas que Manuel Valls prendesse os ausentes”, escreveu Badiou.

Longe dessa linha, intelectuais como Laurent Joffrin assimilam a emoção de janeiro a um “despertar francês”, ou, como o filósofo Abdennour Bidar, a uma “defesa da liberdade”. A psicanalista Julia Kristeva alega, por sua vez, que a negação que Emmanuel Todd faz do espírito do Século das Luzes “leva a um derrotismo tóxico”.

No entanto, antissemitas, pró-semitas, islamistas radicais, o novo discurso social do Papa, a islamofobia ou os enaltecidos católicos integristas que se opuseram com veemência ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, vêm provar o que Emmanuel Todd demonstra em seu polêmico arrazoado: em um mundo povoado por um aparente tecnoagnosticismo, por manto de hedonismo de redes sociais, o religioso segue sendo dominante e continua sendo uma força que desorganiza as sociedades do mundo.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Debate sobre quem é “Charlie” - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV