Pode o Papa Francisco romper com o impasse americano sobre mudanças climáticas?

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10 Abril 2015

"Os críticos do Papa Francisco precisam de uma lição básica de teologia quando se trata do meio ambiente. O pontífice não está plagiando ideias do Greenpeace nem aspergindo água benta para promover uma agenda progressista", escrevem John Gehring, diretor do Faith in Public Life, ONG sediada em Washington e Anthony Annett, assessor para mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável do Earth Institute, em artigo publicado pela revista Global Pulse Magazine, 06-04-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Uma ideologia libertária ressurgente abafa o debate e o progresso autênticos.

Há décadas, os cientistas vêm alertando a humanidade a respeito das mudanças climáticas produzidas pela atividade humana. A cada dia as manchetes se mostram mais estarrecedoras.

As emissões de carbono estão atingindo níveis recordes. A escassez de água, inclusive na região oeste dos Estados Unidos, alcançou proporções críticas. O Pentágono considera que as mudanças no clima intensificarão a instabilidade mundial. Os pobres do mundo – os que têm menos responsabilidade pelas emissões de carbono – já estão pagando um preço altíssimo.

Mesmo diante desta dura realidade, um número crescente de americanos diz que o aquecimento global não está ocorrendo, ou classificam o problema como sendo de baixa importância.

Esta situação é desanimadora e não causa surpresa. Uma indústria de negação das mudanças climáticas bem fundamentada, e políticos alinhados com elas segundo interesses financeiros, construiu uma nuvem de dúvidas sobre o consenso científico esmagador de que o nosso planeta enfrenta uma ameaça de proporções existenciais.

Papa Francisco entra em cena

Se há alguém que pode romper o impasse sobre as mudanças climáticas e alcançar um público muito além do grupo progressista, este alguém é aquele líder global com índices de aprovação de dar inveja a qualquer político e cuja seriedade moral é inspiradora.

O primeiro papa na história a escolher o seu nome com base em Francisco de Assis – o santo mais associado com a pobreza e reverência à natureza – está trabalhando em uma altamente esperada encíclica focada no meio ambiente, documento a ser publicado no meio deste ano.

Em relação à Igreja Católica, Francisco não está sendo exatamente um dissidente neste assunto em particular. Os papas João Paulo II e Bento II falaram do meio ambiente como uma questão moral profunda e chamaram à ação para combater as mudanças no clima.

“A destruição da camada de ozônio e o ‘efeito estufa’ relacionado já atingiram, atualmente, proporções críticas”, disse o Papa João Paulo II em 1990. Ele aplaudiu uma “nova consciência ecológica” que “deveria ser incentivada a desenvolver programas e iniciativas concretos”.

O Papa Bento XVI, apelidado de “o Papa Verde” por dar passos no sentido de fazer do Vaticano o primeiro Estado soberano do mundo neutro em carbono, também advertiu contra a demora em agir no sentido de diminuir as emissões de gás carbono.

“Pode-se porventura ficar indiferente perante as problemáticas que derivam de fenômenos como as alterações climáticas, a desertificação, o deterioramento e a perda de produtividade de vastas áreas agrícolas, a poluição dos rios e dos lençóis de água, a perda da biodiversidade, o aumento de calamidades naturais, o desflorestamento das áreas equatoriais e tropicais?”, perguntou ele em 2010.

Embora o Papa Francisco esteja claramente seguindo a tradição de seus predecessores, ele terá um impacto muito maior ao se tornar o primeiro pontífice, na história, a emitir uma longa encíclica sobre o meio ambiente.

Desde o início de seu pontificado, Francisco tem relacionado aquilo que chama de “economia da exclusão e desigualdade” à devastação ecológica.

“Um sistema econômico centrado no deus dinheiro precisa que a natureza seja saqueada, para que possa sustentar o ritmo frenético de consumo que lhe é inerente”, declarou o papa num encontro de movimentos sociais recentemente.

O Cardeal Peter Turkson, de Gana, presidente do Pontifício Conselho para a Justiça e Paz, é uma das várias autoridades vaticanas que estão ajudando o Papa Francisco a moldar a sua encíclica.

“As ameaças que surgem da desigualdade global e da destruição do meio ambiente estão inter-relacionadas, e elas são os maiores desafios que enfrentamos hoje como família humana”, disse Turkson em uma palestra no mês de março.

As expectativas são altas

A encíclica será publicada antes do discurso do Papa Francisco às Nações Unidas em setembro e antes das negociações climáticas em Paris no fim deste ano.

“Estamos negociando esta questão no nível político há mais de 20 anos, e esperamos que o Papa Francisco desfaça este impasse, porque o problema vai além de uma situação meramente política”, disse Naderev Sano ao jornal Democracy Now, das Filipinas. (Sano é o representante desse país nas negociações.) “Esta é uma questão profundamente moral e que afeta o mundo todo”.

Sano, cujo país foi devastado por um tufão em 2013 que matou mais de 7 mil pessoas, acha que a encíclica papal irá ser um “divisor de águas no processo [de negociação] internacional”.

Um chamado a despertar aos conservadores americanos?

O primeiro papa latino-americano irá, provavelmente, encontrar a sua plateia mais difícil nos EUA, país que ele estará visitando pela primeira vez no segundo semestre deste ano.

Alguns conservadores já estão “partindo para o ataque”.

O papa é parte de um “movimento radical verde que é, em seu núcleo, anticristão, contrário às pessoas e contra o progresso”, escreve Stephen Moore, católico que trabalha como economista na Heritage Foundation, em Washington.

O destacado filósofo católico Robert George, da Princeton University, argumenta que o papa deveria evitar manifestar-se sobre um assunto onde – segundo o seu próprio ponto de vista equivocado – a ciência não tem certeza.

Alguns políticos católicos poderosos estão céticos quanto às mudanças climáticas.

O orador John Boehner, que convidou o papa a discursar numa sessão conjunta no Congresso, frequentemente acusa o governo Obama de que suas políticas ambientais vêm tirando empregos dos cidadãos.

“A ideia de que o dióxido de carbono é um cancerígeno prejudicial ao meio ambiente chega quase a ser cômica”, disse Boehner, que é formado na Xavier University, instituição jesuíta em Ohio.

Possíveis candidatos à presidência pelo Partido Republicano também estão em desacordo com o Papa Francisco.

O senador Marco Rubio negou que a ação humana esteja impulsionando as mudanças climáticas e tem dito que as medidas para diminuir as emissões de gás carbono no planeta “destruirão a nossa economia”.

Jeb Bush, possível candidato à presidência pelo Partido Republicano e cuja conversão ao catolicismo foi recentemente destacada no The New York Times, concorda que o aquecimento global “pode ser verdadeiro” e deu passos no sentido de proteger o Parque Nacional Everglades, em Miami, das perfurações offshore, sendo, não obstante, um autodeclarado “cético”.

Rick Santorum, candidato presidencial em 2012 e provavelmente o será para 2016 – político que, muitas vezes, invoca a sua fé católica publicamente –, pensa que qualquer papel humano nas mudanças do clima é “patentemente um absurdo”.

Ele se opôs fortemente a uma decisão da Agência de Proteção Ambiental que limitava as emissões de mercúrio em usinas movidas a carvão, decisão louvada pela Conferência dos Bispos Católicos como um “passo importante na direção de proteger a saúde de todas as pessoas, especialmente dos bebês nascituros e das crianças”.

O senador Ted Cruz, do Texas, que recentemente anunciou a sua candidatura na Liberty University – fundada pelo falecido Rev. Jerry Falwell –, zombou dos “alarmistas do aquecimento global”, os quais ele comparou com os “proponentes modernos da teoria da Terra Plana”.

Alguns evangélicos, um pilar do Partido Republicano e o grupo religioso mais cético para com as mudanças no clima, estão se preparando para um combate.

“O papa deveria recuar”, diz Calvin Beisner, porta-voz da Cornwall Alliance for the Stewardship of Creation, organização americana que tem chamado o movimento ambientalista de “não bíblico”.

Os críticos do Papa Francisco precisam de uma lição básica de teologia quando se trata do meio ambiente. O pontífice não está plagiando ideias do Greenpeace nem aspergindo água benta para promover uma agenda progressista. As suas opiniões têm origem no compromisso religioso tradicional de proteger o dom da criação divina, um chamado bíblico a sermos bons administradores e respeitarmos a santidade da vida e da dignidade humana.

“Um cristão que não protege a criação”, diz Francisco sem rodeios, “é um cristão a quem não importa o trabalho de Deus”.

A justiça ambiental e a ação prudente de abordar as mudanças do clima não deveriam simplesmente ser uma causa progressista.

Os republicanos Theodore Roosevelt e, mais tarde, Richard Nixon, quem criou a Agência de Proteção Ambiental, entendiam que administrar e conservar são coisas importantes.

Afinal de contas, a filosofia clássica conservadora começa com a preservação do que é bom, e com certeza o nosso meio ambiente frágil é uma herança que não queremos desperdiçar. Como disse o próprio Papa Francisco, não se trata apenas de um legado do passado, mas de um financiamento para os nossos filhos.

O conservadorismo tradicionalmente lança um olhar cético sobre a noção de progresso a qualquer preço, e rejeita uma visão do florescimento humano que seja apenas mensurado pelos padrões do consumismo desenfreado.

Uma ideologia libertária ressurgente está abafando a voz do conservadorismo autêntico. Ela fez dos livres mercados um ídolo; e do egoísmo autocentrado, uma virtude.

A questão principal é proteger os filhos de toxinas mortais, salvaguardando recursos naturais limitados. Fazer uma transição para uma política energética mais sustentável deveria ser parte de toda pauta pró-vida conservadora.

Embora os republicanos não ouçam muito os progressistas de Washington, talvez eles poderão ouvir o líder religioso mais popular do mundo.

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