A parábola dos dois irmãos divorciados. Artigo de Andrea Grillo

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23 Março 2015

O que pode dizer uma teologia capaz de verdadeira fidelidade criativa? Podemos realmente compreender uma "maior misericórdia" do Pai, ou estamos vinculados ao que a disciplina elaborou até agora, sem deixar saída para o "irmão mais novo"? Poderíamos continuar vivendo em uma Igreja tão condicionada pelas reservas de muitos "irmãos mais velhos"?

A opinião é do teólogo, leigo italiano, Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, de Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, de Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua.

O artigo foi publicado na revista Settimana, n. 12, 22-03-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Um homem tinha dois filhos. O mais velho se casou e ficou com a esposa junto do pai. O segundo, depois, também se casou e foi embora para ficar longe com a sua esposa.

Depois de algum tempo, o primeiro filho foi abandonado pela esposa e ficou sozinho. Mas ficou junto do pai, permanecendo fiel à esposa e mantendo a palavra dada, a todo o custo. O segundo filho, algum tempo depois, também entrou em crise e foi abandonado pela esposa. Depois de uma longa tribulação, ele conheceu outra mulher, uniu-se a ela e, por fim, desposou-a. Quando voltou para junto do pai, temendo ser julgado por ele como indigno, foi por ele acolhido de braços abertos.

Surpreendido com isso, deixou-se acompanhar até a casa, para fazer festa pela nova esposa, com os votos de prosperidade. O irmão mais velho, no entanto, tomou o pai à parte, dizendo-lhe: "Eu também fui abandonado e fui deixado sozinho, mas tu, para mim, que permaneci fiel, não fazes nenhuma festa. Ao contrário, alegras-te e cantas por esse meu irmão, que se casou de novo, traindo a sua palavra".

O pai tomou o filho pelo braço e lhe disse: "Meu filho, eu admiro muito a tua escolha, que é o fruto de sabedoria e de respeito. Mas não posso culpar o teu irmão: não é bom, de fato, que o homem esteja só. Para ele, vale uma escolha diferente da tua. Ele não deve protestar pela tua escolha. Mas, tu, não protestes pela dele. A comunhão também é isto: um caminho diferente rumo ao bem".

Diante de tal parábola, o que pode dizer uma teologia capaz de verdadeira fidelidade criativa? Podemos realmente compreender uma "maior misericórdia" do Pai, ou estamos vinculados ao que a disciplina elaborou até agora, sem deixar saída para o "irmão mais novo"? Poderíamos continuar vivendo em uma Igreja tão condicionada pelas reservas de muitos "irmãos mais velhos"?

Uma resposta encorajadora nos vem de uma profunda concepção do papel da teologia. Ela não deve oferecer o lado à "chantagem" dos irmãos mais velhos. Para o próximo Sínodo, precisaremos de uma teologia com características diferentes, que encontramos delineadas com coragem e com paixão em algumas palavras do Papa Francisco:

a) Superar uma visão monolítica da doutrina

Na famosa entrevista para a revista La Civiltà Cattolica, o Papa Francisco disse: "São Vicente de Lérins faz a comparação entre o desenvolvimento biológico do homem e a transmissão de uma época à outra do depositum fidei, que cresce e se consolida com o passar do tempo. Pois bem, a compreensão do homem muda com o tempo e assim também a consciência do homem se aprofunda. Pensemos no tempo em que a escravidão era aceita ou a pena de morte era admitida sem nenhum problema. Portanto, cresce-se na compreensão da verdade. Os exegetas e os teólogos ajudam a Igreja a amadurecer o próprio juízo. (…) Uma visão da doutrina da Igreja como um bloco monolítico a defender sem matizes é errada".

Amadurecer o próprio juízo à luz da Palavra de Deus e da história não é uma eventualidade acessória, mas uma necessidade para uma teologia realmente aberta à vida e ao testemunho. O debate sinodal tem urgência de tal teologia "não monolítica" e "não retrógrada".

b) Permanecer como teólogos "de fronteira" e não "na sacada"

Na sua mensagem de felicitações à Faculdade de Teologia da Universidade Católica Argentina, o Papa Francisco escreveu: "Ensinar e estudar teologia significa viver em uma fronteira, aquela em que o Evangelho encontra as necessidades das pessoas a quem se anuncia, de maneira compreensível e significativa. Devemos nos precaver de uma teologia que se esgota na disputa acadêmica ou que contempla a humanidade a partir de um castelo de cristal. Aprende-se para viver: teologia e santidade são um binômio inseparável. Portanto, a teologia que vocês desenvolvem deve estar baseada na Revelação, na Tradição, mas também deve acompanhar os processos culturais e sociais, especialmente as transições difíceis".

Assim, eu gosto de pensar que se deva servir à tradição, com paciência e com audácia. É dessa abordagem que, hoje, precisa uma teologia do matrimônio que se ocupe de recompor o dissídio entre famílias felizes e famílias infelizes, sem ficções humanas demais e sem idealizações com resultados desumanos.

c) O olhar para Cristo e as possibilidades inimagináveis

À representação da relação com Cristo como "obediência a um mandamento", Francisco parece preferir a imagem do "olhar voltado a Cristo". Manter o olhar voltado a Ele é uma forma de obediência que se abre à novidade: "A fim de 'verificar o nosso passo no terreno dos desafios contemporâneos, a condição decisiva é manter o olhar fixo em Jesus Cristo, deter-nos na contemplação e adoração do seu rosto […]. Na verdade, todas as vezes que voltamos à fonte da experiência cristã, abrem-se estradas novas e possibilidades inimagináveis" (Lineamenta, n. 12).

No caminho que leva a Igreja rumo ao Sínodo de outubro próximo, essas três evidências deverão ser honradas plenamente e não sem um "trabalho" específico dos teólogos: uma autêntica capacidade de salvaguardar a tradição no meio de uma dinâmica da história, com as suas novas possibilidades e as suas velhas dificuldades, sem ceder aos enrijecimentos e aos doutrinalismos monolíticos; um exercício de pensamento solto e fiel, que saiba considerar com afeto paterno, materno e fraterno as complexas vicissitudes do povo de Deus, sem se bloquear em soluções aparentes, em que falta o fôlego, e o ar é viciado; uma disponibilidade para "seguir Jesus" que experimente, com força e com surpresa, a imprevisibilidade da graça e a estreiteza dos absolutos do homem.

À pergunta: "Como justificar a misericórdia do Pai?", devemos responder que é a misericórdia do Pai que justifica. Revelando-se no Filho e no dom do Espírito, tal misericórdia não se "congelou", não se "enrijeceu", não se "bloqueou", mas pede para ser descoberta, não só "em casa", mas "pela rua", não apenas "no centro", mas "na periferia". Por isso, não devemos nos resignar a uma versão "morna" da teologia.

Para concluir com Francisco: "Não se conformem com uma teologia de escritório. Que o lugar das suas reflexões sejam as fronteiras. E não caiam na tentação de pintá-las, perfumá-las, acomodá-las um pouco e domesticá-las. Também os bons teólogos, assim como os bons pastores, cheiram a povo e a rua e, com sua reflexão, derramam unguento e vinho nas feridas dos homens".

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