Papa Francisco, dois anos depois

Revista ihu on-line

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

Edição: 549

Leia mais

Mulheres na pandemia. A complexa teia de desigualdades e o desafio de sobreviver ao caos

Edição: 548

Leia mais

Mais Lidos

  • Uma escolha crucial: como a Igreja seleciona seus bispos?

    LER MAIS
  • Padres despedaçados. Artigo de Pietro Parolin

    LER MAIS
  • Os três passos dos homens

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


12 Março 2015

"O Papa Francisco tem um certo estilo, e o estilo importa – e muito – para um Bispo de Roma. Comparado com os papas mais recentes, Francisco fica mais à vontade com uma maneira mais informal de fazer as coisas", escreve Thomas  W. Worcester, professor do Depatamento de História do College of the Holy Cross, Worcester, MA, editor de “The Cambridge Companion to the Jesuits” (sem tradução para o português), em artigo publicado por HuffingtonPost, 09-03-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

No dia 13 de março de 2013, a eleição de Jorge Bergoglio, SJ, como papa foi saudada com um frenesi de expectativas que se acalmaram um pouco ao longo dos últimos dois anos, mas somente um pouco, e com amplas possibilidades para um frenesi renovado. O Papa Francisco levanta muitas esperanças: esperança de uma Igreja mais misericordiosa, esperança de uma Igreja mais inclusiva e diversificada, esperança de uma Igreja que seja a voz dos que não têm voz, uma Igreja profética que fica ao lado dos pobres e com os pobres, marginalizados, mal pagos, explorados, vítimas da guerra, da violência e de abusos, uma Igreja “reformada” e uma que não inflige feridas onde se necessita de curas; em vez disso, ele deseja uma Igreja que é um hospital de campanha entre o povo, uma Igreja que traz a boa nova, não regras punitivas e múltiplos meios de exclusão. Indo ao encontro de todos os povos, o Papa Francisco acende os desejos, ao redor do globo, por um mundo melhor, especialmente um mundo onde há uma distribuição equitativa dos recursos, uma distribuição baseada na necessidade dos muitos – e não na ganância de uns poucos.

Há alguns anos, quando o Big Dig [1] estava sendo construído, com muito atraso na execução, um outdoor lembrava os motoristas e pedestres do adágio: “Roma não foi construída em um dia”. Poder-se-ia acrescentar a isto algo frequentemente dito sobre a Roma eclesiástica, ou seja, que ela pensa em séculos. Visto hoje, os dois primeiros anos do atual papado viu muita coisa acontecer: desde um Sínodo com um debate verdadeiro e sem uma conclusão precipitada sobre assuntos que alguns consideravam impossíveis de serem discutidos; à responsabilização financeira no Vaticano, onde havia um sigilo nada sagrado; à nomeação de cardeais vindos de pequenos lugares dos confins da terra; às repetidas exortações para que o clero abandone a busca pelo poder, o carreirismo ganancioso e coloque a mão na massa, servindo os pobres; um papa que, realmente, é humilde, e não somente nas aparências ou no estilo de vida; um papa que reconhece uma necessidade de oração, discernimento e consulta antes de tomar decisões.

Alguns bispos católicos buscaram chamar a atenção para uma pequena lista daquilo que acreditam ser os testes definitivos de um católico autêntico, em geral normas que têm a ver principalmente com a sexualidade em suas várias manifestações. Embora o Papa Francisco pode não diretamente desafiar os seus colegas episcopais nestes assuntos, ele ensina e prega – e insistentemente retorna a – outras normas para testes definitivos de um católico sério, normas tiradas de textos bíblicos como Mateus 25,31-46. Nesta passagem, Jesus deixa absolutamente claro que um discípulo autêntico deve alimentar os famintos, dar de beber aos sedentos, acolher os estrangeiros, vestir os despidos, visitar os doentes e encarcerados. Francisco aplica estas normas em um mundo do século XXI, e insiste que a crescente desigualdade que empobrece a muitos, enquanto uns poucos ficam mais ricos ainda, deve ser invertida. Ele diz isto de várias maneiras e em relação com muitas questões políticas específicas, porém o cerne permanece sendo o mesmo: ou se é com e para os pobres, ou não se é um autêntico discípulo de Jesus.

O Papa Francisco tem um certo estilo, e o estilo importa – e muito – para um Bispo de Roma. Comparado com os papas mais recentes, Francisco fica mais à vontade com uma maneira mais informal de fazer as coisas. Ele se sente bem descartando textos preparados e falando espontaneamente; ele aprecia coletivas de imprensa e entrevistas; na Praça de São Pedro, ele parece um pouco chateado com cerimônias demoradas, formais, mas fica muito mais animado quando ele pode se misturar às pessoas, abraçando-as, conversando com elas, reservando um tempo para elas tirarem fotos com ele.

Quanto a publicar pronunciamentos papais oficiais, Francisco já fez isto – e aparentemente ele tem, em processo, uma encíclica sobre o meio ambiente e assuntos relacionados. Mas, enquanto Bento XVI era um estudioso prolífico, um teólogo com muitas publicações, alguém cujas obras facilmente preencheriam prateleiras de livros em um escritório, Francisco é mais fácil de ser pensado como estando numa festa paroquial, sorrindo, comendo e falando com as pessoas comuns – e com os pobres.

Com uma visita aos EUA programada, pode-se perguntar o que Francisco terá a dizer à Igreja Católica americana, bem como a uma audiência muito mais ampla. Marcado para discursar ao Congresso – será a primeira vez que um papa faz isto –, Francisco ressignificará o que deve ser uma visita papal a este país. Dadas as prioridades que Francisco tem reiterado nestes últimos dois anos, ele pode exortar os EUA a adotar políticas mais justas e compassivas com os imigrantes; pode apelar pela abolição da pena de morte e por um tratamento mais humano dos encarcerados; pode elogiar os esforços no sentido de garantir o acesso universal à assistência médica, independentemente das condições de pagamento do sujeito; pode enfaticamente criticar o capitalismo americano e seus fracassos em produzir tudo, exceto uma distribuição justa dos recursos; pode insistir, de várias maneiras, em pôr o bem comum diante da ganância individual. O Papa Francisco pode também edificar o seu sucesso pedindo agora, aos EUA, que seja um vizinho melhor não só para Cuba, mas para toda a América Latina.

O Papa Francisco declarou mártir Dom Oscar Romero, assim abrindo caminho para que este seja beatificado. Ainda que Romero tenha, corajosamente, dado sua vida pelos pobres de El Salvador, representantes da ala direita da Igreja buscaram, por 35 anos, manchar a sua reputação. O Papa Francisco defendeu o religioso assassinado de uma forma que os papas João Paulo II e Bento XVI não defenderam ou não conseguiram defender. Aos que veem diferenças importantes e vitais entre Francisco e seus predecessores imediatos, o reconhecimento formal de Romero como mártir é um exemplo. No entanto, Francisco também reafirma certas continuidades com eles, além de um grande respeito.

Na medida em que Francisco começa o seu terceiro ano como Bispo de Roma, vamos esperar que ele continue a promover, com coragem, uma Igreja inclusiva, misericordiosa e um mundo no qual o bem comum prevaleça.

Nota:

[1] Big Dig é o nome não oficial do “Central Artery – Tunnel Project”, um megaprojeto que transformou a rodovia interestadual 93, a principal estrada no coração de Boston, EUA, em um túnel sob a cidade com 5,6 quilômetros.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Papa Francisco, dois anos depois - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV