“O martírio de Romero não foi motivado apenas pelo ódio à fé, mas também pelo ódio à justiça”. Entrevista com Rodolfo Cardenal

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Por: André | 04 Março 2015

Rodolfo Cardenal (foto) é um jesuíta que se dedica à história centro-americana, inclusive a história da Igreja. Anos atrás escreveu uma biografia sobre Rutilio Grande, e neste momento está finalizando os preparativos para o III Congresso de Teologia da UCA, que rende homenagens a Romero, Ellacuría e os mártires de El Salvador. “O legado dos mártires de cara com o futuro”, é o seu lema.

 
Fonte: http://bit.ly/1BCzbG1  

A entrevista é de José Manuel Vidal e publicada no sítio espanhol Religión Digital, 01-03-2015. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Qual é o tema do III Congresso de Teologia?

O lema do congresso, “O legado dos mártires de cara com o futuro”, expressa a intenção fundamental destes dias, isto é, comemorar os 25 anos do martírio dos seis jesuítas da Universidade Centro-Americana José Simeón Cañas e de Elba e Celina e os 35 anos do martírio de dom Romero. Em segundo lugar, o congresso se propõe a comemorar ou fazer a memória desses mártires para renovar o compromisso da luta pela justiça para as maiorias empobrecidas e para levantar o olhar de esperança para a utopia do Reino de Deus.

Que objetivos perseguem com o Congresso?

Acompanhar o “povo crucificado” em El Salvador, na América Central, na América Latina e no resto do mundo, pregado e desgarrado pela escandalosa desigualdade, pela violência, pela desintegração familiar, etc. Dirigimo-nos a todas aquelas pessoas que se inquietam diante dessas realidades e lutam para revertê-las, na linha jesuânica, assim como o fizeram os mártires em seu momento histórico.

Quem são os principais conferencistas?

Os conferencistas são companheiros de caminhada dos mártires como José María Castillo, José Luis Sicre, S.J., Ricardo Falla, S.J. e Javier Vitoria. Alguns deles trabalharam na UCA depois do assassinato. Também participará Melinda Roper, M.M., ex-presidenta da Congregação das Irmãs de Maryknoll. Quatro delas também foram assassinadas pelo Exército salvadorenho em 1980.

A temática dos mártires é atual, porque há pessoas que ainda hoje são martirizadas na Ásia, no Oriente Médio ou na América Latina.

Certamente, o martírio é uma realidade na experiência cristã atual. O Congresso, com suas reflexões e discussões, pretende tornar presente a tradição martirial da Igreja salvadorenha, uma Igreja construída sobre o sangue de seus mártires. Essa tradição é muito valiosa para a Igreja latino-americana, porque constitui um elemento fundamental da sua identidade cristã. Não apenas faz memória de homens e mulheres que entregaram a sua vida pelos outros, mas que, além disso, convoca para continuar a luta para aproximar a justiça do reinado de Deus. A realidade das maiorias latino-americanas que sobrevivem no despojo e na violência social é uma advertência constante da necessidade e da urgência de continuar com o mesmo empenho dos mártires na conquista da justiça. Os mártires não são realidades passadas a serem simplesmente recordadas, mas inspiração e fortaleza atual para construir a utopia do Reino de Deus.

Finalmente, o Vaticano reconheceu dom Romero como mártir...

É verdade. Levou muito tempo. Mas, ao final de um longo processo, reconhece o martírio de dom Romero. Esse reconhecimento corrobora o que boa parte do povo salvadorenho sabia há muito tempo. Isso é bom para a Igreja salvadorenha e também para a Igreja universal, que agora contam não apenas com um modelo de fiel e de defensor dos pobres, mas também com um modelo de como exercer evangelicamente o ministério sacerdotal e episcopal. Dom Romero é um testemunho relativamente recente de “pastor com cheiro de ovelha”, de acordo com a formulação do Papa Francisco.

A beatificação de dom Romero agrega uma nova dimensão ao conceito de martírio. O martírio não foi motivado apenas pelo ódio à fé, mas também pelo ódio à justiça, como apontou o Papa Francisco. Neste sentido, o martírio de dom Romero tem um matiz muito particular, porque não foi assassinado por infiéis ou hereges, mas por cristãos que, com seu assassinato, declaram dar glória ao Deus de Jesus Cristo. A partir de agora, o conceito de martírio é atualizado e enriquecido a partir da experiência latino-americana.

 
Fonte: http://bit.ly/1BCzbG1  

Acontecerá o mesmo com os mártires da UCA ou com o Pe. Rutilio Grande?

O reconhecimento do jesuíta Rutilio Grande como mártir da causa pela justiça virá antes dos mártires da UCA. A Arquidiocese de San Salvador já abriu a causa e o postulador trabalha nela de maneira acelerada. O martírio de Rutilio Grande também tem um matiz particular, porque não assassinaram apenas um pároco, mas ao seu lado tombaram um catequista da terceira idade (72 anos) e um adolescente (16 anos), que, na tarde do assassinato, decidiram acompanhá-lo na celebração da festividade de São José em seu povoado natal. Portanto, seria mais apropriado falar de Rutilio Grande e companheiros mártires. Ele entrega a sua vida no meio do povo salvadorenho e junto ao povo salvadorenho. Acompanhado por representantes de duas gerações, a adulta e a jovem.

Uma vez que Rutilio e seus dois companheiros forem reconhecidos como mártires, é provável que se inicie o processo dos mártires da UCA, que também morrem em companhia de duas mulheres, uma mãe e sua filha adolescente. Dada a quantidade de mártires da Igreja salvadorenha, catequistas, agentes de pastoral, religiosas, religiosos e padres, talvez seja apropriado falar de dom Romero e companheiros mártires, assim como se usa em outras partes, onde os mártires são uma nuvem.

O Papa Francisco foi decisivo na mudança de atitude de Roma para com dom Romero?

Certamente. O Papa Francisco agilizou a conclusão do processo de dom Romero, que ficou paralisado na burocracia vaticana. O ministério de dom Romero é provocador por sua opção pelos pobres e por questionar o modo tradicional do exercício do episcopado e do ministério em geral. Dom Romero colocou a institucionalidade eclesial a serviço da causa do povo salvadorenho empobrecido e violentado. Por isso, foi criticado pela maioria dos bispos salvadorenhos da época, inclusive por mais de um núncio. Sua pastoral também encontra oposição no episcopado latino-americano e, sem dúvida, em certos setores vaticanos. Utilizaram todo tipo de argumento para impedir sua beatificação. O fato é que reconhecer o seu martírio é reconhecer a santidade desse serviço e, portanto, a pertinência de sua interpelação.

O que Francisco está fazendo na Igreja é uma revolução, embora seja tranquila?

O Papa Francisco também está mostrando como exercer o ministério do bispo de Roma a partir de critérios evangélicos. Colocou seu ministério a serviço da salvação da humanidade, em particular, dos marginalizados, dos excluídos, dos empobrecidos, dos escravizados, dos fracos e doentes. Ou seja, a serviço da libertação dos mais necessitados de salvação. O Papa não exerce apenas seu ministério com o ensinamento doutrinal, mas também o faz com uma linguagem gestual muito eloquente. Os gestos do Papa transmitem humanidade e salvação de uma maneira natural, provocadora e com grande poder de convencimento. Por isso, provocam alegria e esperança. Nesse sentido, são mais convincentes que a medida disciplinar. O alcance do seu pontificado? Caberá ao futuro mostrá-lo. Enquanto isso, é bom que o Papa seja assim, porque faz muito bem.

 
Fonte: http://bit.ly/1BCzbG1  

Será capaz de levá-la a termo? Deixarão que faça as reformas que deseja fazer?

Isso também será determinado pelo futuro. É evidente a existência de forças internas e externas que quiseram deter o processo de renovação que iniciou. Também é compreensível que se oponham. As forças internas, porque questiona sua maneira de ser Igreja e de exercer o ministério. O questionamento é intolerável, porque o faz a partir das realidades últimas e, portanto, inapeláveis. O faz a partir dos pobres e de Deus. As forças externas, porque se encontram desafiadas por um ministério religioso feito a partir da bondade e da misericórdia. A ameaça não provém apenas de forças como o Estado Islâmico, mas também de setores neoliberais, oriundos dos Estados Unidos e da Europa, que censuram suas condenações ao capitalismo atual e seus apelos de justiça.

O Papa também corre o perigo de ser mártir? Do martírio pode vir a esperança para a América Latina?

A Igreja da antiguidade, ao afirmar que o sangue dos mártires é semente de cristãos, assinalava a esperança que nasce do martírio. Os mártires latino-americanos de hoje entregaram sua vida em defesa dos pobres. Na realidade, a Igreja latino-americana tem uma longa tradição de luta pela justiça. A primeira geração de bispos do século XVI caracteriza-se por defender o indígena dos abusos e violências do conquistador. Nesse momento, a defesa do indígena é considerada parte integral de seu ministério. Muitos outros levantaram suas vozes para denunciar injustiças e violências e para defender os desvalidos. Fizeram-no de maneiras muito diversas, mas com um claro compromisso com a justiça do reinado de Deus. Uma boa parte desses profetas foi martirizada. Alguns já foram reconhecidos pela Igreja, outros ainda aguardam.

Fazer memória dos mártires é reivindicar sua opção pelos pobres e reclamar a justiça negada pelo poder. Fazer memória dos mártires é convite e compromisso para assumir sua causa, a causa do reinado de Deus. Fazer memória dos mártires é abrir o horizonte para a utopia do Reino de Deus e, nesse sentido, abertura para a esperança. Ignacio Ellacuría termina seu último artigo assegurando que no horizonte se avizinha o Deus libertador.

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