Os católicos e a política diante do Isis. Artigo de Massimo Faggioli

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18 Fevereiro 2015

As execuções filmadas pelo Isis dos prisioneiros não fazem muita diferença entre as religiões dos condenados. Mas a retórica anticruzada do fundamentalismo islâmico põe em causa a Igreja a buscar respostas adequadas ao desafio atual.

O comentário é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, em Minnesota, nos EUA. O artigo foi publicado no sítio TheHuffingtonPost.it, 16-02-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Para aqueles que seguem o que está acontecendo na Igreja, é um momento de sentimentos contrastantes nestes tempos: ao entusiasmo pelo Papa Francisco, contrapõem-se notícias e imagens que pensávamos que tivessem o seu lugar nos pesadelos e não na realidade.

Não por acaso, alguns, nos blogs "cristianistas" fundamentalistas, veem uma coincidência entre a eleição de um papa angélico como Francisco e uma situação internacional que leva a pensar no anticristo. Desses blogs ao editorial de Galli Della Loggia [historiador e jornalista italiano] dessa segunda-feira (disponível, em italiano, aqui), a diferença é abismal: mas ambos põem em causa a Igreja de hoje.

A contradição histórica entre forças diversas dentro da Igreja existe e está inserida na força das coisas: a transição em curso na Igreja é um reflexo daquela que está em curso na Europa. A Igreja do Papa Francisco finalmente é a Igreja do pós-Concílio Vaticano II, aquela que tinha aprendido a lição que havia para ser aprendida com as duas guerras mundiais e que se preparava cultural e espiritualmente para uma guerra fria que, na época, no início dos anos 1960, anunciava-se ainda muito longa e que certamente não terminaria em 1989-1991.

Nesse sentido, os pontificados de João Paulo II e de Bento XVI ainda são pontificados sobreviventes da Guerra Fria: se não do ponto de vista ideológico, seguramente do ponto de vista geracional e geopolítico dos dois papas provenientes de dois países na primeira linha no confronto com o comunismo soviético.

O Papa Francisco é o primeiro papa não euromediterrânico. A eleição do Papa Francisco em março 2013 ocorreu no rastro do "spillover", da eclosão da guerra regional no Oriente Médio, que inicia com a invasão do Iraque e o abalo dos equilíbrios entre sunitas e xiitas que começou com a "khomeinização" do Irã em 1979.

A primeira grande intervenção do Papa Francisco na cena internacional é de setembro de 2013, com a vigília de oração preventiva ao bombardeio norte-americano na Síria. Mas, ao mesmo tempo, o papado de Francisco é o primeiro papa de uma Igreja global, que se orienta cada vez mais para o Sul e para o Leste do mundo, e deve fazer as contas com uma presença dos cristãos no Oriente Médio cada vez mais marginal e arriscada.

O que está acontecendo no Oriente Médio e, há algumas semanas, no sul das costas italianas na Líbia (mais detalhes, em italiano, aqui), é um ponto de interrogação para todos, mas especialmente para os cristãos e os católicos.

As execuções filmadas pelo Isis dos prisioneiros não fazem muita diferença entre as religiões dos condenados. Mas a retórica anticruzada do fundamentalismo islâmico põe em causa a Igreja a buscar respostas adequadas ao desafio atual: respostas diferentes do apelo a um "ecumenismo do martírio" que não ajuda aqueles que, no Oriente Médio, são potenciais mártires, e diferentes das acusações de falsa consciência movidas ao catolicismo progressista pelos editorialistas que acreditam no papel da Igreja apenas enquanto ela demonstra que quer ser um baluarte da cultura ocidental.

A transição do catolicismo italiano faz parte da transição da Igreja Católica rumo a um novo modelo. Aquele patrimônio de conhecimentos, de relações e também de espiritualidade que informava o carácter mediterrânico da Itália pós-1945 era compartilhado pela classe política e empresarial, pelos católicos de base como pelas hierarquias, pela diplomacia vaticana assim como pela intelectualidade laica italiana.

Hoje, parece fazer parte apenas da diplomacia vaticana e de alguns influentes, mas restritos, grupos eclesiais. Do ponto de vista político, a falta de uma visão de conjunto do Mediterrâneo e dos seus desafios por parte da classe política italiana também se deve ao desaparecimento, salvo prova em contrário, do catolicismo político italiano.

Para responder a Galli Della Loggia: o catolicismo que teve um interesse de entender e de agir no Oriente Médio foi, no fim do século XX, aquele catolicismo conciliar, progressista, espiritual, que ele acusa da aquiescência italiana diante do islamismo militante.

Para o catolicismo de ordem com o qual ele (e outros junto com ele) sonham, o Oriente Médio é só uma heresia histórica, política e teológica, e os cristãos do Oriente Médio, uma nota de pé de página na história da Igreja.

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