Mais de 300 desaparecidos no mar

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Por: Jonas | 13 Fevereiro 2015

Enrico Calamai, um dos fundadores do Comitê Verdade e Justiça para os Novos Desaparecidos, destaca que a tragédia “não é um acidente, mas, sim, um elemento a mais de uma cadeia de mortos por causa de imprecisões políticas”.

A reportagem-entrevista é de Elena Llorente, publicada por Página/12, 12-02-2015. A tradução é do Cepat.

Os resgatados desta semana, perto da ilha de Lampedusa, foram os primeiros 29 mortos no Mediterrâneo, em 2015. No entanto, nesse momento, porque foram encontrados mais dois barcos vazios e outro com poucos sobreviventes, estima-se que os desaparecidos podem ser mais de 300. Foi o que confirmou de Lampedusa, ao jornal Página/12, Giovanna di Benedetto, da organização humanitária Save The Children, que conversou com os sobreviventes. Os 29 (ou mais de 300) se juntam a uma lista já volumosa de mais de 3.500 desaparecidos, em 2014, nesta faixa de água que une África e Europa. Os ocupantes dos três botes infláveis resgatados no final de semana, onde estavam os 29 mortos, provinham da África Central, Gâmbia, Nigéria e Costa do Marfim. Haviam partido da costa da Líbia, onde os traficantes os obrigaram com as armas a subir nos botes, asseguraram que o mar estava tranquilo e que a marinha italiana os salvaria. Mas, não seria assim porque o programa de resgate da marinha italiana no Mediterrâneo, chamado Mare Nostrum, foi suspenso há alguns meses e substituído por outro da União Europeia chamado Tritón. Porém, o programa Tritón (que as organizações de direitos humanos e de refugiados qualificam como “inadequado”) não agiu quando os botes se moviam como enlouquecidos e as pessoas caiam na água. Somente os pequenos barcos da Guarda Costeira italiana que os salvaram, enfrentando ondas de até nove metros de altura, fortíssimas rajadas de vento, granizo e temperaturas abaixo de zero. Um dado a mais diz que, no último mês de janeiro, apesar do frio do inverno europeu, chegaram 3.528 imigrantes (deles, 225 eram menores, sem família), 60% a mais do que em janeiro de 2014. Por isso, numerosas organizações humanitárias e da Igreja pedem urgentes medidas à União Europeia.

Enrico Calamai, ex-cônsul italiano na Argentina durante a ditadura militar, e que nesse papel salvou centenas de argentinos que fugiam das perseguições, fundou com outros italianos, africanos e associações de imigrantes e de familiares, o Comitê Verdade e Justiça para os Novos Desaparecidos. O comitê procura sensibilizar a opinião pública sobre o destino dos migrantes africanos e do Oriente Médio, principalmente, os que chegam à Europa via mar, vivos ou mortos. Entre seus membros, destaca-se o sacerdote cristão eritreu Mussie Zerai, candidato ao Prêmio Nobel da Paz pelo trabalho de sua associação Habeshia, em favor dos refugiados de seu país. Esta última tragédia no Mediterrâneo “não é um acidente, mas, sim, um elemento a mais de uma cadeia de mortos por causa de imprecisões políticas que se traduzem em acordos internacionais com os países africanos e em regulamentações exageradamente rigorosas para o ingresso na Europa. Eu não acredito, como dizem alguns, que há risco de que algum terrorista entre na Europa desta maneira. Eu acredito que os terroristas, caso venham, farão isto de avião. Porque é muito mais fácil. Por que irão arriscar morrer no meio do mar? Possuem dinheiro e muitos têm passaporte europeu”, disse Calamai em uma entrevista ao jornal Página/12.

Eis a entrevista.

Em sua opinião, por que Mare Nostrum foi suprimido apesar de ter salvado 170.000 vidas em um ano?

Era uma operação exclusivamente italiana, nascida de nossa marinha militar. A decisão de lançá-la foi tomada logo após a tragédia nas águas de Lampedusa, em outubro de 2013, onde se depararam com 360 mortos. O governo italiano quis demonstrar que tem uma consciência, que tenta atuar respeitando os direitos humanos. No entanto, um ano depois se pensou que politicamente era melhor não fazer nada. Politicamente no sentido eleitoral. O governo também tem seus eleitores entre pessoas contrárias ou muito sensíveis ao tema da imigração.

Como você responde aos que pensam que o Estado, nesta época de crise econômica, gasta muito com os imigrantes?

É dito que o programa Mare Nostrum foi suprimido por razões econômicas. Porém, essa é uma verdade bastante frágil. Se queremos traduzir em números os resgates, pode-se dizer que, segundo dados oficiais, teria tido um custo mensal de 9 milhões de euros, o que dá um total ao ano de não mais de 120 milhões. Mas, que não nos venham dizer que em tempos de crise o povo italiano não pode permitir semelhante gasto, porque não se tratou de um gasto adicional, mas, sim, foi subtraído dos habituais gastos militares que são entre 50 e 70 milhões de euros por dia, por dia! Isto significa que o resgate de 170.000 pessoas teve um custo equivalente a dois dias de gastos militares.

O que se pode fazer para sensibilizar as pessoas, na Itália e na Europa, para que percebam que aqueles que vêm estão mais desesperados do que os daqui?

É um trabalho cultural, político, muito difícil e complexo, a longo prazo. Há setores da política italiana que insistem negativamente sobre a imigração, há uma espécie de racismo acionado pela ideia de que são muitos e que nos tiram o pouco que há para nós. Mudar esta atitude é difícil e, às vezes, os jornais não ajudam utilizando manchetes alarmistas...

Porém, o Comitê do qual você é porta-voz propõe um Tribunal Internacional de Opinião como parte dessa campanha de sensibilização. O que significa exatamente?

Nos anos 1970, Bertrand Russell, que era um matemático inglês, instituiu o Tribunal Russell, integrado por personagens de renome internacional (Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Julio Cortázar, Gabriel García Márquez, entre outros), para avaliar a guerra no Vietnã. O tribunal examinou tudo o que estava ocorrendo e condenou os Estados Unidos. Foi uma condenação moral, de gente importante, que teve suas repercussões. Nossa intenção é ter algo semelhante.

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