Armas, tanques e uma provável aliança antiterrorista

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Por: Jonas | 12 Fevereiro 2015

Vladimir Putin chegou ao Egito para conversar com seu par egípcio sobre novos acordos comerciais, a venda de armas e tanques pelo valor de bilhões de dólares e, muito provavelmente, a respeito de uma nova aliança “antiterrorista como a já efetivada pela Rússia com a Síria. O presidente Abdel Fattah al Sisi acompanhou pessoalmente Putin (foto), do aeroporto de Cairo até a Casa de Ópera, para uma apresentação de trechos do Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky, e de Aida, de Verdi, uma combinação de fantasia burguesa czarista e o antigo mito egípcio, que poderiam refletir as personalidades dos dois homens.

 
Fonte: http://goo.gl/b5FLxJ  

A reportagem é de Robert Fisk, publicada por Página/12, 10-02-2015. A tradução é do Cepat.

Em parte, sua primeira reunião de hoje será protocolar, e será boa, já que o presidente russo mostrou um forte desprezo por todas as coisas “islamistas” e encontra uma causa comum no ex-marechal de campo e presidente “Salvador” nacional Al Sisi.

Após esmagar os combatentes muçulmanos na Chechênia, Putin apoia a feroz guerra de Bashar al Assad contra o Estado Islâmico na Síria e será mais do que feliz em apoiar sem braço no gordinho egípcio, cujos tribunais sentenciaram centenas de membros da Irmandade Muçulmana ao cadafalso. Antes, Sisi já havia se reunido com Putin, em Moscou, e um líder russo conhecido por seu cinismo só pode aproveitar por conhecer uma autocrata militar que foi eleito presidente após organizar um exitoso golpe de estado contra um presidente previamente eleito.

Não é que a idade das “relações fraternais” fosse sentida distante do Cairo. Al Ahram, o jornal mais obediente do governo egípcio, publicou um elogio de uma página sobre o presidente russo, no final de semana – “Putin, herói desta época”, dizia a servil manchete. Ao estilo Politburo, o governo de Sisi encheu as ruas do centro de Cairo com cartazes para o seu convidado da Rússia, escrevendo em um deles “bem-vindo” em árabe, russo e inglês. Contudo, o mundo não deve imaginar que os egípcios são tão rendidos como os cartazes ou a manchete de Al Ahram. No Cairo, chamam Putin de “Tha’aleb” – A raposa – não só porque os meninos árabes amam as histórias de animais, mas porque as maças do rosto altas e os olhos estreitos do presidente russo lhes recordam um animal que pode ludibriar uma criatura maior e torpe da mata.

O papel deste último foi habilmente cumprido pelos Estados Unidos, cujo flerte com a Irmandade Muçulmana antes da queda de Hosni Mubarak, em 2011, seu abraço ao presidente da Irmandade, Mohamed Mursi, e suas expressões de condenação após o golpe contra Mursi, liderado por Sisi, abriram as portas do Egito à Mãe Rússia, pela primeira vez, desde que Anwar Sadat expulsou militares soviéticos do país, em 1972. A beleza de tudo isto é que os dois líderes querem a mesma coisa – emergir com um novo aliado após sofrer as flechadas das críticas do Ocidente por seu comportamento sangrento -. O presidente egípcio supervisionou o massacre de centenas de partidários da Irmandade, em 2013. O presidente russo supervisionou a sangrenta ocupação de partes do leste da Ucrânia, um ano depois. Eles terão muito do que falar.

Enquanto as sanções ocidentais sobre o governo de Putin entravam em vigor, no ano passado, o Egito ofereceu aumentar 30% as exportações agrícolas para Rússia. O comércio bilateral, disse Putin ao jornal Al Ahram, é agora de 4,5 bilhões de dólares ao ano. Neste momento, o mais importante é o acordo de armas de Moscou, estimado em 3,5 bilhões de dólares e um novo acordo de comércio bilateral que serão efetivados em rublos ao invés de dólares – uma proposta que Putin fez ao sempre servil Al Ahram –, proporcionando um fundamento adequado para um novo tratado “antiterrorista” entre a Rússia e o Egito. Uma vez que Sisi virou as costas para os aliados do Hamas da Irmandade em Gaza, Israel não terá nenhuma queixa. E dado que Putin demonstrou que não se incomoda com as brutalidades cometidas por seu aliado sírio, alguns milhares de corpos destroçados no campo islamista egípcio não manterão desperta a “raposa” durante a noite.

Sisi lembrará que o próprio Bashar al Assad lhe enviou um telegrama de felicitação quando esmagou a Irmandade, e Putin se contentará caso possa incluir o Egito em uma tríplice aliança Cairo-Damasco-Moscou contra o “terror”. Frente à enxurrada de elogios autocomplacentes, mas em grande parte imerecidos, que os Estados Unidos estão acumulando sobre si mesmo por bombardear o Estado Islâmico, o líder russo bem que poderia aparecer como um sócio mais confiável na guerra contra o “terrorismo” do que Washington.

A Rússia e os Estados Unidos sempre tiveram o vício por governantes militares obedientes, e Putin, que só se retirou do KGB com o grau de tenente coronel – contra o status de marechal de campo de Sisi -, entende muito bem como funciona um “estado profundo”. O patriotismo, o nacionalismo e a corrupção são um grupo sanguíneo potente para a sobrevivência autocrática no mundo árabe.

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